Normal 0 21 false false false PT–BR X–NONE X–NONE
O Raia Leve transcreve na integra, um texto com fatos e argumentos. Um diagnóstico real e preciso da situação atual, enviado por um leitor e postado esta semana no espaço do Leitor. É preciso um momento de reflexão e correção de rumos.
Diz o texto:
A queda do MGA deveria servir como um alerta inequívoco para o turfe brasileiro. Mais do que um problema pontual de arrecadação, ela expõe a incapacidade da atual diretoria de criar estratégias para captar novos apostadores e renovar o público.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu à explosão das plataformas de apostas. Milhões de brasileiros passaram a apostar diariamente em futebol, cassino, roleta, “tigrinho”, “aviãozinho” e inúmeras outras modalidades.
E o turfe?
Praticamente ficou olhando de fora.
A oportunidade que a regulamentação das bets criou — e o turfe perdeu
A regulamentação das bets deixou dúvidas sobre a possibilidade de essas plataformas explorarem apostas em corridas de cavalos no Brasil. Diante dessa ambiguidade, as plataformas deixaram de comercializar o produto.
Era justamente o momento para o turfe buscar uma solução institucional, jurídica e comercial que garantisse sua permanência nesses canais, criando uma porta de entrada para milhões de novos apostadores.
Mas a atual gestão não tratou o tema como uma ameaça estratégica ao futuro do esporte. Ao contrário, o que se viu foi uma postura de conformismo — e até de comemoração diante do fim do turfe nas bets.
O resultado foi previsível: o apostador antigo, acostumado a plataformas modernas, intuitivas e ágeis, perdeu o interesse em retornar aos sistemas tradicionais do turfe.
Mais grave ainda: não perdemos apenas quem já conhecia as corridas. Perdemos a oportunidade de apresentar o turfe a uma multidão que jamais havia tido contato com ele.
Enquanto milhões de brasileiros eram captados diariamente pelas bets, o turfe ficou à margem desse movimento. E, a cada dia, o MGA piora.
Onde estão as informações?
Alguém ainda se lembra das parciais da Longines?
Duraram poucos meses.
Também faltam entrevistas regulares com profissionais, estudos estatísticos e ferramentas que permitam comparar treinadores, jóqueis, proprietários, pedigrees, pistas, distâncias e condições de corrida.
Enquanto isso, nos principais mercados internacionais, o apostador encontra informações detalhadas: trabalhos matinais, estatísticas específicas e análises capazes de orientar sua decisão.
Comentários como: “Este treinador tem X% de aproveitamento com animais em sua segunda apresentação.”
Ou: “Este treinador apresenta determinado aproveitamento quando o animal desce de enturmação para o claiming.”
Ou ainda:“A mãe deste animal produziu seis produtos, três deles vencedores logo na primeira apresentação.”
Isso é munição para o apostador. Cria raciocínio, interesse e vontade de estudar a corrida.
Não se trata de oferecer uma fórmula mágica para ganhar dinheiro, mas de dar ao apostador ferramentas para formar sua própria opinião.
O turfe precisa vender o próprio produto.
O turfe tem história, tradição, criação, genética, competição, profissionais e um espetáculo esportivo de grande beleza. O problema é transformar tudo isso em um produto atraente um e compreensível.
Aqui, muitas vezes, o YouTube é ligado minutos antes do primeiro páreo para um programa de menos de meia hora, com informações superficiais e, não raramente, erros básicos. Não é incomum ouvir comentaristas confundindo cavalo com égua ou apresentando dados equivocados sobre animais e campanhas.
O problema não está necessariamente nos profissionais diante das câmeras, mas em uma estrutura que os coloca ali sem oferecer condições adequadas e, depois, cobra excelência de quem nem sempre possui o conhecimento necessário.
A transmissão deveria informar, entreter e formar novos apostadores. Deveria despertar o interesse por animais, profissionais, estatísticas e estratégias. Em vez disso, muitas vezes parece feita apenas para cumprir tabela.
Também é preciso mudar o foco da comunicação. Parte dela parece mais preocupada em agradar proprietários e pessoas influentes do que em conversar com quem movimenta o jogo.
“Olha o cavalo do Haras Legacy, do Aloísio. Um abraço para o Aloísio, que está acompanhando a gente.”
Com todo respeito, isso pode agradar ao homenageado, mas o apostador quer saber por que aquele cavalo merece ser apostado: seu histórico, suas estatísticas, o desempenho do treinador naquele tipo de prova, a influência do jóquei, a adaptação à distância e os efeitos da mudança de categoria.
É isso que interessa.
O apostador precisa ser tratado como cliente
O apostador não é um espectador secundário. É um dos principais clientes do produto.
Por isso, precisa ser respeitado, informado e estimulado. Quem chega ao turfe vindo do futebol ou de outras modalidades não pode ser obrigado a descobrir sozinho como interpretar uma retrospectiva ou uma programação.
É preciso ensinar, produzir conteúdo, criar estatísticas, explicar conceitos, comparar desempenhos e mostrar os bastidores. É preciso filmar os trabalhos matinais, entrevistar treinadores e jóqueis e manter uma comunicação ativa durante toda a semana — não apenas meia hora antes do primeiro páreo.
Outro problema é a percepção de falta de uniformidade nas decisões da Comissão de Corridas.
Quando julgamentos semelhantes recebem punições diferentes, cria–se a sensação de que o peso da decisão pode variar conforme a farda envolvida. Independentemente de haver ou não favorecimento deliberado, a percepção de parcialidade já é extremamente prejudicial.
As decisões precisam ser técnicas, transparentes, coerentes e previsíveis — e, principalmente, explicadas.
O público apostador muitas vezes sequer conhece os comissários e não recebe informações claras sobre os fundamentos dos julgamentos. Por que não apresentar publicamente os critérios utilizados? Por que não tornar as decisões compreensíveis para quem aposta?
O profissional precisa saber que determinada infração terá tratamento semelhante, independentemente de quem esteja envolvido.
Sem coerência, perde–se confiança. E confiança é essencial em qualquer atividade que envolva apostas.
Sanear as contas é importante. Mas não é suficiente.
Já estamos no meio do segundo mandato da atual presidência, e certamente haverá quem destaque como realizações a utilização do espaço imobiliário do Jockey para festas e eventos, o saneamento das contas e o uso desses recursos para incrementar premiações.
Tudo isso pode ter mérito. Mas a pergunta central permanece:
o que foi feito, ao longo desses dois mandatos, para renovar o público do turfe?
Esse é, na minha opinião, o verdadeiro câncer do esporte.
Pode–se aumentar a premiação, equilibrar o caixa, alugar espaços e organizar eventos. Mas, se não cresce o número de pessoas interessadas em acompanhar e apostar nas corridas, estaremos apenas administrando o presente enquanto o futuro encolhe.
Além disso, aumentar prêmios com recursos de locação do espaço não transforma automaticamente o turfe em uma atividade autossustentável. É preciso olhar também para o pequeno proprietário, o criador, o treinador, o jóquei, o cavalariço e todos os que vivem diretamente das corridas.
Não adianta criar uma aparência de prosperidade no topo enquanto a base continua lutando para sobreviver.
Lembro de uma declaração recente do presidente, dia 01/02 desse ano, anunciando que a partir de então haveria corridas todos os domingos no Jockey. A promessa, feita diante das câmeras, incluía a incorporação definitiva dos domingos à programação e até a criação do slogan “Domingo no Jockey”.
Pouco tempo depois, porém, os domingos voltaram a ser sacrificados.
No último domingo, por exemplo, as corridas começaram depois das 17 horas e o Pick 7 sequer conseguiu vender a garantia.
Então fica a pergunta:
onde está a palavra empenhada pelo presidente? Quantas anúncios publicos dele voltaram atrás em pouco tempo. Se foi anunciado que haveria corridas todos os domingos, como chegamos novamente a uma situação em que o domingo pode ser abandonado ou alterado a qualquer momento?
Não se trata apenas de um domingo, mas da dificuldade de transformar uma decisão administrativa em um projeto consistente de longo prazo.
O turfe precisa de previsibilidade, planejamento e estratégia. Precisa saber onde quer estar daqui a cinco, dez ou vinte anos.
O problema é tratar uma doença estrutural com paliativos
Turfe e as apostas em corridas de cavalos vêm sendo tratados como um doente terminal. Em vez de atacar a doença, procuram–se paliativos para prolongar a sobrevivência: aumenta–se o caixa, aluga–se o espaço, fazem–se eventos, elevam–se premiações e comemoram–se resultados financeiros de curto prazo.
Mas o problema central permanece:
o público não se renova;
o apostador não é captado;
o MGA cai;
os jovens não chegam;
o produto não é modernizado;
a comunicação não evolui;
e as oportunidades de expansão são desperdiçadas.
O dinheiro imobiliário pode prolongar a vida do turfe, mas não pode ser confundido com crescimento.
Ainda dá tempo
Apesar das críticas, continuo torcendo pelo turfe. Justamente por isso, acredito que seja necessária uma autocrítica profunda.
O próximo presidente, seja quem for, deveria começar com uma pergunta simples:
como vamos colocar milhares — ou milhões — de novos brasileiros em contato com o turfe?
A resposta não virá apenas do aumento de prêmios, da locação de espaços ou da expectativa de que o público antigo se renove sozinho.
Será necessário buscar as pessoas onde elas estão: nas bets, nas redes sociais, no YouTube e entre os jovens e apostadores esportivos. Os dados e as ferramentas tecnológicas já existem. Falta transformá–los em uma estratégia profissional de captação, educação e retenção de público.
Turfe brasileiro tem produto, história, beleza, competição, profissionais, animais extraordinários e uma cadeia econômica inteira por trás.
O que não pode continuar faltando é visão de futuro.
O turfe já foi chamado de esporte dos reis. Não pode terminar sua história sendo administrado como uma atividade que apenas precisa sobreviver até o próximo balanço.
O objetivo deve ser recuperar relevância, conquistar uma nova geração e voltar a crescer.
Porque o aumento do caixa pode adiar o fim.
Mas somente novos turfistas e novos apostadores podem garantir o futuro.
A imagem da matéria e os grifos na matéria são da redação