Normal 0 21 false false false PT–BR X–NONE X–NONE
A história de Canonero II (frequentemente chamado apenas de Canonero) é uma das maiores e mais improváveis sagas de azarões da história do turfe mundial. Em 1971, ele saiu da Venezuela como um completo desconhecido para chocar o mundo e vencer o prestigiado Kentucky Derby e o Preakness Stakes.
Nascido em 24 de abril de 1968 nos Estados Unidos, Canonero II era filho de Pretendre (GB) e Dixieland II (USA), por Nantallah (USA). Seu pai, Pretende, nascido em 1963, foi um excelente e precoce potro. Aos 2 anos venceu o Observer Gold Cup, G1, o Doncaster, G1, e o Dewhurst Stakes, G1, em Newmarket. Aos 3 anos, venceu o Blue Riband Trial Stakes, G3 em Epsom, foi 2º lugar no Epsom Derby, G1.
Dixieland II (USA), sua mãe, correu apenas 12 vezes, obtendo uma vitória e 3 shows, em páreos comuns.
Pretendre, ingressou na reprodução no Kentucky entre 1967 e 1969, (e foi nesta época em que Canonero II nasceu). Após as 3 temporadas em Kentucky, Pretendre mudou–se para a Inglaterra, onde ficou entre 1970 e 1972. Também esteve no Haras Waikato, em nova Zelândia entre 1969 e 1971, em Shuttling.
Uma vez, conhecidas sua linha paterna e materna, Canonero não tinha um físico impressionante e sofria de um defeito de conformação em uma das pernas traseiras. Por conta disso, foi vendido em um leilão de potros por míseros 1.200 dólares (o menor valor já pago por um vencedor do Kentucky Derby) para o proprietário venezuelano Pedro Baptista, que o levou para correr em Caracas, no Hipódromo de La Rinconada.
Sob o treinamento de Juan Arias (um treinador negro que enfrentava imenso preconceito na época) e pilotado pelo jóquei Gustavo Ávila (apelidado de "El Monstruo"), o cavalo começou a mostrar alguma qualidade na Venezuela, obtendo 6 vitórias aos 2 e 3 anos, inclusive uma vitória na distância de 2.000 metros, mas nada que previsse o que estava por vir.

Treinador Juan Arias, radicado no Hipódromo La Rinconada em Caracas
Baptista decidiu inscrever Canonero II no Kentucky Derby de 1971. Nesta época não existia o sistema de pontuação "Road to the Kentucky Derby", onde os cavalos precisam acumular pontos em provas preparatórias específicas para conseguir uma das 20 vagas. O processo de inscrição e qualificação para o Kentucky Derby era completamente diferente e muito mais simples — o que permitiu que um azarão vindo da Venezuela alinhasse no partidor. Para um cavalo correr o Kentucky Derby naquela época, o requisito básico era que ele fosse um Thoroughbred (Puro Sangue de Corrida) de 3 anos de idade e que seus proprietários tivessem feito a inscrição inicial (nomination) meses antes, pagando as taxas obrigatórias dentro dos prazos estipulados pela administração de Churchill Downs.
Pedro Baptista (proprietário de Canonero II) pagou essas taxas sistematicamente. Como o cavalo era nascido nos Estados Unidos, ele tinha toda a documentação regularizada no stud book americano, facilitando o processo burocrático.
Não havia um comitê selecionando quem era "bom o suficiente" para correr, nem a exigência de vitória em grandes prêmios americanos anteriores. Se o proprietário pagasse as taxas de inscrição e o cavalo estivesse saudável na semana da corrida, ele estava dentro.
O único limitador histórico era a capacidade física do partidor de Churchill Downs. Quando havia excesso de cavalos inscritos, a regra de desempate para cortar os excedentes baseava–se nos ganhos financeiros históricos dos cavalos. Como Canonero II tinha um retrospecto razoável na Venezuela, ele tinha prêmios acumulados suficientes para garantir sua vaga caso houvesse um corte por dinheiro, embora pelo número de cavalos inscritos não foi preciso excluir cavalos por esse critério.
A viagem de Caracas até o Hipódromo de Churchill Downs, no Kentucky, foi um verdadeiro pesadelo logístico. Foi uma verdadeira odisseia cheia de contratempos que quase custou a participação do cavalo na corrida.
Os fatos da viagem de Canonero II estão documentados na história do turfe. Embora pareça o roteiro de um filme de comédia dramática, a odisseia de Canonero II de Caracas até Louisville, cidade do Hipódromo de Churchill Downs é absolutamente verídica. O historiador de turfe Steve Haskin e o escritor Milton C. Toby (autor do livro definitivo sobre o cavalo) detalham cada um desses percalços. A verificação ponto a ponto confirma o tamanho do milagre.

Livro de Milton C. Toby sobre a história de Canonero II
A viagem foi marcada por problemas mecânicos nos aviões, burocracia e falta de verbas. De Caracas a Miami, o primeiro avião de carga em que o cavalo foi embarcado sofreu uma pane mecânica logo após a decolagem e precisou retornar a Caracas. Na segunda tentativa, a situação foi ainda pior, um dos motores do avião pegou fogo no ar, forçando mais um pouso de emergência em Caracas. Sem outras opções rápidas de voo de carga para Miami, o cavalariço Juan Quintero e o treinador Juan Arias conseguiram embarcar o cavalo em um avião cargueiro de pequeno porte que estava transportando galinhas. Canonero fez a viagem inteira dividindo o espaço centenas de galinhas barulhentas.
Quando finalmente pousou em Miami, descobriu–se que a documentação alfandegária (papéis de importação) e sanitária (exames de sangue) de Canonero não haviam chegado aos oficiais americanos. Por conta disso, as autoridades não permitiram que Canonero descesse do avião. Ele ficou confinado dentro da aeronave abafada por cerca de 12 horas no calor da Flórida. Quando finalmente desceu, ele ficou retido na alfândega em Miami e teve de passar 4 dias em quarentena obrigatória até que os resultados dos exames de sangue fossem processados pelo laboratório do Departamento dos EUA.
Após ser liberado da quarentena em Miami, o plano original de voar até Louisville foi cancelado por razões financeiras. O proprietário, Pedro Baptista, não havia enviado dinheiro suficiente para cobrir os custos de um novo trecho de voo de Miami para o Kentucky. A solução foi enfrentar a longa viagem de estrada. E assim foi Canonero. Em um caminhão de transporte para enfrentar uma viagem rodoviária de 1.690 quilômetros. Para completar o calvário, o caminhão que transportava o animal quebrou no meio do caminho. A viagem de caminhão durou quase 30 horas.
Quando o caminhão finalmente estacionou nos portões de Churchill Downs, a sequência de absurdos continuava. Os seguranças do hipódromo não sabiam quem era aquele cavalo Venezuelano e o treinador Juan Arias não falava inglês. Eles foram barrados na entrada e só conseguiram entrar nas cocheiras horas depois, após telefonemas e muita insistência.
Ao desembarcar, em uma segunda–feira, 26 de abril de 1971, exatamente 5 dias antes do Kentucky Derby (que aconteceu no sábado, 1º de maio), ele havia perdido muito peso, estava visivelmente desidratado, cansado e tão magro que era possível contar as suas costelas.
E foi esse estado deplorável após a viagem que fez a imprensa americana tratá–lo como um "azarão sem chances" nos dias que antecederam a sua histórica vitória. Alguns jornalistas o tratavam como uma "piada" ou uma inscrição meramente exótica.
Essa sucessão de absurdos é o que torna a vitória de Canonero II no Kentucky Derby uma das histórias mais bonitas e humanas do esporte. Ele superou o fogo, as galinhas, a burocracia e a estrada para se tornar um campeão eterno.
O Choque no Kentucky Derby (1971)
No dia 1º de maio de 1971, Canonero II alinhou no partidor com um rateio na modalidade de vencedor de U$$ 19,40 por 2 dólares nas apostas (ele fazia parte do "Mutuel Field", um grupo de cavalos considerados sem chances individuais). Como Canonero II era considerado um azarão extremo (historiadores estimam que, se ele corresse sozinho nas poules, suas cotações reais seriam de 91 por 1 a até 100 por 1), a organização do hipódromo o colocou no chamado "Mutuel Field" junto com outros 5 cavalos azarões.
Como as apostas em qualquer um desses 6 cavalos eram agrupadas em um único bilhete, o volume de apostas somado do grupo inflou o rateio para baixo. Quem apostou no "Field" levou os U$$ 9,70 por $1, graças à vitória monumental do azarão venezuelano.
O plano de Juan Arias e Gustavo Ávila era cirúrgico. Porém o imprevisto começou logo na largada. Canonero pulou mal e ficou na penúltima posição em um lote de 20 cavalos.
Na reta oposta, Ávila começou a exigir o cavalo, que iniciou uma progressão monumental por fora da pista, passando os adversários um a um.
Na reta final, Canonero II por fora de todos, assumiu a ponta com uma força avassaladora, cruzando a linha de chegada com quase 4 corpos de vantagem sobre Jim French.

Canonero II vencendo o Kentucky Derby
O silêncio atônito em Churchill Downs logo deu lugar à festa da colônia venezuelana e latina presente.
Veja a vitória de Canonero II no Kentucky Derby:
https://www.youtube.com/watch?v=n6sSb3LkEmQ
A Confirmação no Preakness Stakes
Desde antes de correr o Preakness Stakes, Canonero II já vinha sofrendo de uma infecção bacteriana no casco conhecida em inglês como thrush (uma infecção fétida que atinge a ranilha do casco). Essa infecção no pé incomodava muito o cavalo e exigia tratamentos constantes, o que chegou a fazê–lo perder dias de treino. A imprensa da época frequentemente noticiava essa lesão como uma "foot infection" (infecção no pé/casco).
Muitos analistas americanos creditaram a vitória no Derby era uma mera casualidade ("um fluke"). Duas semanas depois, no Preakness Stakes, em Pimlico, Canonero II provou que era um craque legítimo.
Dessa vez, Ávila mudou a tática, correu mais perto do pelotão da frente e, na curva, assumiu a liderança, brigando com Eastern Fleet. Os dois protagonizaram um duelo eletrizante na reta toda, mas Canonero II acabou cruzando o espelho com uma vantagem de 1 corpo e meio, cravando o recorde da pista para a distância na época, 1min54s. A "Canonero–mania" explodiu nos Estados Unidos e na Venezuela.

Canonero II vencendo o Preakness Stakes
Veja a vitória no Preakness Stakes:
https://www.youtube.com/watch?v=QsQFhNzeu–4
O Sonho Desfeito da Tríplice Coroa
Ao chegar a Belmont Park para a última etapa da Tríplice Coroa, a situação física dele se agravou drasticamente. Além da infecção persistente no casco, Canonero II desenvolveu uma infecção dolorosa em um dos cascos (uma broca) nos dias que antecederam a prova, e o seu jarrete direito ficou severamente inchado após o Preakness. Como Canonero II já tinha um defeito natural de conformação justamente nas pernas traseiras (um aprumo deficiente e jarretes menos alinhados do que o ideal), a sobrecarga física e o desgaste das corridas anteriores cobraram o preço nessa articulação.
A pressão sobre a equipe era imensa.
Mesmo no sacrifício e claramente sem suas melhores condições físicas, o treinador Juan Arias sabia que o cavalo não estava em condições ideais de correr. O proprietário Pedro Baptista decidiu insistir na inscrição devido à imensa pressão do público e da mídia. Canonero II correu no sacrifício com o jarrete inflamado e o casco infeccionado, o que explica por que ele cansou na reta de Belmont, diante de um público recorde de mais de 80 mil pessoas em Belmont. Ele liderou até o trecho final da curva, entrou na reta em segundo, e perdeu o tereiro em cima do disco, e terminou em um heroico 4º lugar, na prova vencida por Pass Catcher.
Veja a corrida do Belmont Stakes:
https://www.youtube.com/watch?v=w–4a18VQC4M
Mais tarde, Canonero II foi vendido para o tradicional Haras King Ranch nos EUA, por U$$ 1.500.000 , onde ainda chegou ainda a vencer o Stymie Handicap em 1972 (derrotando o campeão Riva Ridge) antes de ser aposentado para a reprodução.
Em 1973, iniciou sua carreira como reprodutor no King Ranch. Em 1981 foi transferido para o Haras Tamanaco, na Venezuela.

Canonero II no Haras
Morreu em 11 de novembro de 1981, aparentemente de insuficiência cardíaca
A façanha de Canonero II permanece viva como a maior prova de que, no turfe, o coração e a resiliência de um cavalo e sua equipe podem superar qualquer barreira econômica, geográfica e de preconceito.
Da Redação