Filho de um dos grandes criadores de PSI do Brasil, homem simples e apaixonado por cavalos, que deixou sua marca por frases como “O Derby é a prova mais importante para um criador”, Armando Carneiro Júnior trouxe de volta às pistas a tradicional farda do Haras Nacional.
Dizendo–se muito mais ligado à criação do que às corridas, lembra dos tempos de infância, quando o pai tinha cavalos como Seu Levy e Salamalec, ambos da geração de 1962, que conquistaram seu amor pelo turfe. Recorda dos “páreos” em que, montando pôneis, no “Bombril”, derrotou Goncinha e “Paraíba” (G.A.Feijó) e, com orgulho, afirma que só perdeu numa oportunidade.
Vamos conhecer um pouco mais sobre o herdeiro de uma intensa paixão turfística, que voltou com muita disposição e fala sobre cavalos, exportação e o futuro da atividade.
Armando, como começou sua ligação com o turfe?
Sem dúvida alguma, através de meu pai, que era apaixonado e desde muito cedo me levou às cocheiras de Levy Ferreira, com quem mantinhas seus defensores. Quando Seu Levy, filho de Cadir e Xira, venceu o GP Major Suckow, fiquei encantado. Freqüentava muito o hipódromo e cheguei a participar de corridas no “Bombril” (pista auxiliar), montando pôneis.
Pelo que diz a lenda, você era bom nisso!
Eu tinha uns sete anos e meus adversários habituais eram o Goncinha (Gonçalino Feijó de Almeida) e seu irmão, Paraíba (Geraldo Feijó de Almeida). Os pôneis que eles montavam eram treinados pelos irmãos Eulógio e Bebeto Morgado. Mas não tinha para eles. Pelo que me lembro, só perdi uma vez.
Quando seu pai se interessou pela criação de cavalos?
Em 1969, quando comprou o Haras São Miguel, em Tersópolis, e eu o acompanhava sempre. A criação me fascinou e, na verdade, sempre me liguei mais ao haras do que às corridas. Em 1982, meu pai adquiriu terras em Bagé e o Haras Nacional seguiu os rumos dos principais criadores do país.
O Haras Nacional investiu muito e teve bom resultado, certo?
Para meu pai, era fundamental deixar sua marca na criação nacional. Ele fez um investimento grande para trazer o Hang Ten (The Axe), já pensando no sucesso que poderia ter como avô materno. Cada fêmea dele que nascia era motivo de satisfação. Depois, comprou o Clackson, excelente corredor, ao Stud Montecatini e os resultados começaram a acontecer.
E realmente os filhos de Clackson em mães Hang Ten foram um sucesso, não?
Meu pai conseguiu alcançar seu sonho, que era vencer um Derby. Achava que um criador, para se considerar realizado, tinha que ter esta vitória. Lembro que quando Old Pretender venceu o GP Cruzeiro do Sul, ele vivenciou um dos dias mais felizes da vida.
Quando seu pai faleceu o Haras Nacional encerrou as atividades. Por quê?
Ele faleceu em 1992 e mantive o haras por mais um ano. Mas, para tratar do inventário e assumir responsabilidades à frente dos negócios, fiquei completamente sem tempo. Como gosto de acompanhar de perto todo o processo de criação, no haras, decidi paralisar, temporariamente, as atividades. Recebi uma boa proposta do Haras Pemale e vendi com porteira fechada, como se diz.
E quando se deu a retomada da criação?
Quando a situação se normalizou, decidi voltar a fazer aquilo que sempre gostei e foi a paixão de meu pai. Recomprei as terras e as arrendei ao Stud TNT. Fiquei com apenas três éguas de cria. Comprei algumas éguas do Haras Anderson, que gentilmente me cedeu coberturas de seus reprodutores e criei alguns produtos por lá. Quando o haras do TNT ficou pronto, retomei a criação no Nacional. Hoje tenho 30 fêmeas de 2 e 3 anos, algumas já em competição. Mantenho–as no Vale de Marmelo, com Leonardo Reis, e no Vale do Itajara, também com o Léo, sob a supervisão do Dulcino Guignoni.
E nas coberturas mais recentes, que reprodutores você utilizou?
No ano passado as éguas foram cobertas por Nedawi e outros garanhões, mas a partir deste ano pretendo utilizar Holzmeister, um garanhão importado pelo Haras das Estrelas e de cujo condomínio participo. É uma aposta que acredito muito.
Armando, como você vê o turfe brasileiro de uma forma geral e a criação, que tanto sucesso vem fazendo no exterior?
Os criadores brasileiros são verdadeiros heróis e conseguem resultados fantásticos. Os nossos cavalos têm vencido pelo mundo afora e são cada vez mais cobiçados por compradores internacionais. Quanto ao turfe, lamento que os Jockeys Clubs estejam cada vez mais se afastando do principal objetivo que deveriam ter, ou seja, a promoção das corridas. Hoje, a parte social é olhada com muito mais carinho do que deveria ser a meta destas entidades. Acredito na criação e nos profissionais brasileiros, que já são consagrados mundialmente. Nosso turfe também precisa ser encarado com respeito. Afinal, as corridas são o objetivo daqueles que procuram aprimorar a qualidade dos animais.
por Marco Aurélio Ribeiro