ORLA DE IPANEMA, A CONCEPÇÃO DA PALAVRA CRAQUE
Durante a trajetória de um verdadeiro turfista, nos hipódromos frequentados por ele vida afora, existem puros–sangues de corrida para lá de especiais. São os craques. O mais curioso, talvez seja mais apropriado dizer, indescritível, seja a sensação comum transmitida por eles. O aficionado pelo esporte, por frações de segundo, no seu deslocamento na pista, em alta velocidade, da largada ao disco de chegada, sente a aquela emoção de poder diagnosticar a presença do corredor de exceção. Pude viver este instante mágico, pela primeira vez, ainda menino, na Tribuna Especial, do Hipódromo da Gávea, quando o saudoso Grão de Bico, de propriedade da Coudelaria Fan, montado por José Pedro Filho, o "Pouca Roupa", passou em alta velocidade.
E, daí em diante, nunca mais deixei de ser apaixonado por corridas de cavalos. Meu falecido pai, Luiz Paulo, não gostava nada disso. "Era só o que me faltava. Ter um filho viciado em corridas de cavalos", repetia e barrava as minhas idas ao hipódromo. Porém, o meu avô, Moacir, discreto e reservado, frequentava, o prado sem a família saber. Ouvia as conversas e conhecia a minha paixão por Grão de Bico. Com discrição, me avisava os dias das suas corridas, e me levava junto com ele ao hipódromo. Dizia a todos que nós íamos para o Maracanã. Alguns anos depois, o meu avô faleceu, mas a semente da paixão turfística já estava dentro de mim, pronta para germinar. E, a mesma sensação de prazer, inexplicável, de ver o craque correr seguiu dentro de mim para sempre.
Emerald Hill, do Haras Rosa do Sul, veio invicta de Cidade Jardim, correr aqui no Rio, acompanhei os seus passos, e a manutenção da sua invencibilidade, Primeiro contra as suas adversárias cariocas de 3 anos, no GP Henrique Possolo. Depois derrotou os melhores cavalos cariocas, entre eles Zanutto, treinado por Walter Aliano. Ao vê–la correr, tive a mesma sensação prazerosa de estar diante do craque. E aí, a minha trajetória turfística, a princípio amadora, virou profissional, com a entrada no Jornal do Brasil, em 1982, para escrever sobre eles. Aporé, Boticão de Ouro, Troyanos, Apollon, El Santarém, Cacique Negro, Falcon Jet Much Better e tantos outros escreveram belas páginas no turfe nacional. Impossível citar todos. E, nos últimos tempos, Bal A Bali, do Stud Alvarenga, criado no Haras Santa Maria de Araras, foi um deles. Treinado por Dulcino Guignoni e montado por Vagner Borges.
No domingo, em casa, pela televisão, na Prova Especial Clackson, voltei a ter aquela incrível sensação de ver um autêntico craque em ação. Por um momento achei que só fosse possível ao vivo. Ledo engano. Orla de Ipanema, criada pelo Stud Eternamente Rio, e propriedade do Stud H&R, filha de Agnes Gold e Classic Road, por Wild Event, treinada por Luiz Esteves, e conduzida por Valdinei Gil, deu exibição de craque. Corre como animal da mais absoluta exceção, acelera como tal, transmite aquela ilusão de ótica, de que os rivais estão paralisados e, tudo isso, com graça encantadora, e facilidade que beira a sedução. Parabéns aos seus responsáveis por a terem em suas mãos. E, muito obrigado pela euforia, o prazer e o entretenimento proporcionado para quem ama os puros–sangues de corrida.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Orla de Ipanema, do Stud H&R, foi mais uma obra–prima de apresentação deste maravilhoso treinador, Luiz Esteves. Privilégio do turfista, presente ao prado carioca presenciar sua exibição. Linda, altiva, leve, imponente e livre para acelerar. Mantida em estado atlético exuberante. Desfilou, sem qualquer constrangimento, sua superioridade absurda sobre as rivais. Vale registrar, a ousadia do treinador, de inscrever Mandrake, do mesmo proprietário, o H&R, na Prova Especial Redattore, em 1400 metros, depois dele ter sido laureado, ganhador de Grupo 1, no GP Major Suckow. E, ainda se deu ao luxo de formar a dupla com o belo potro, Mexicano, do Stud Habeas Corpus. Como dizia o saudoso Bolonha: "A história não fala dos covardes".
JOQUEADA DA SEMANA
Henderson Fernandes, o campeão da estatística carioca da última temporada, atravessa fase de incrível confiança. No dorso de Log On, do Stud Parati, criado pelo Haras Santa Maria de Araras, e treinamento do sempre competente, Júlio César Sampaio, deu show neste quesito. Depois do grave prejuízo, após a largada, alguns dos seus próprios colegas de profissão, talvez até abandonassem a competição. Ficou em último com seu conduzido, junto à cerca interna, se aproximou aos poucos do lote de rivais, e o ritmo intenso, comum nas provas de 1000 metros, foi seu aliado. Nos 200 metros finais, ao perceber, que os dois concorrentes da frente esmoreciam arrancou por fora, fez Log On trocar de mãos, e foi buscar triunfo antológico, em cima do disco. Vitória digna de um herói da Marvel. Vai ser difícil impedir o bicampeonato.
PERSONAGEM
Valdinei Gil completou 37 anos esta semana. E, me parece justo dizer, que no melhor momento de sua carreira. Lidera a estatística da Gávea, algo que nunca passou por sua cabeça, segundo ele mesmo confessa. Tem proporcionado direções seguras, e responsáveis. Boa parte delas na esfera clássica. Bati um papo com ele, há poucos minutos, antes destas mal traçadas linhas, e admitiu estar encantado com Orla de Ipanema, segundo ele, uma craque espetacular. Recuperado dos problemas físicos, que o atrapalharam bastante tempo em sua carreira. Admitiu que tem sofrido nas mãos do treinador Luiz Esteves para os treinos matinais, e por isso, fica em forma a força. "O cara, toda semana, me coloca numa tropa de cavalos encilhados para trabalhar".
JORGE RICARDO
Poucas montarias, porém, um bom resultado. O recordista mundial, Jorge Ricardo, segue com poucas chances na Gávea. Por outro lado, tem aproveitado todas aquelas que aparecem. No domingo só teve uma montaria, Kanzen, do Mário Gosik, e ganhou bela carreira. Na segunda, também só uma, no dorso do Privilege, do Serginho, do Stud Best Friends, outro sucesso. E ontem, terça–feira, Midnight Road, pensionista de José Luiz Pedrosa Júnior, perdeu no último pulo, para Senga Gold. Muito estranho o tamanho deste preconceito de que é vítima o artilheiro do turfe mundial. Eu pedi desculpa a ele, em nome de nossa longa amizade, peguei o boné e fui embora deste negócio de agente de montarias. Mas, admiro o seu amor incondicional a profissão.
