Para muitos, foi o ano do fracasso brasileiro na Alemanha. Para muitos, foi o ano da consagração do nosso vôlei e da excepcionalidade do Giba. Para muitos, foi o ano colorado devidamente coroado em Tóquio. Isso para a gente ficar somente no mundo dos esportes e com uma referência brasileira. Se não, seria o ano de Roger Federer, de Tiger Woods, de Asafa Powell, por exemplo, ainda só esportivamente falando.
Para nós turfistas, ou também turfistas, o ano que se finda, ainda está em seu meio. Apenas hipicamente, estamos chegando ao fim de nosso primeiro semestre. Mas, como é tradição, aqui e em todas as partes do mundo, um balanço se faz necessário. E compreendo, tanto que tomo esta “liberalidade” técnica. Afinal, foi um ano especial.
Vou esquecer o que houve de ruim. E como houve! Meus olhos só vão olhar o que houve de bom, tentando assim ver um 2007 bem melhor, com o nosso turfe reencontrando o seu caminho, casando–se com a sua importância e a sua dimensão, um caminho à altura de alguns corredores que como verdadeiros craques se portaram e conseguiram assim que 2006 fosse brilhante. Que eles, e suas performances maravilhosas e inesquecíveis, sirvam de exemplo. E de reflexão. Afinal, como diziam antanho nossos ancestrais, a esperança é a última que morre. Bem, a gente diz isso também. Do contrário…
Aviso que só vou ficar com os nossos corredores. Por isso, o bicampeonato de Storm Mayor, no Pellegrini, um feito histórico e que não acontecia há 60 anos, ou a nova consagração argentina através da vitória de Invasor na Breeders’ Cup Classic, sem falar nos belos resultados e espetáculos europeus, ficarão de fora.
Como disse no título, 2006 foi o ano em que craques brilharam. E como! Poucas vezes, teve–se um ano com tantos craques, na verdadeira acepção da palavra, brilhando de forma tão especial. Craques porque suas exibições em pistas cariocas, paulistas e argentinas, foram de gala.
Vou ficar com cinco, se me permitem. E abro com o único da geração estreada no ano passado, pois todos os outros são três anos: o maravilhoso Dono da Raia (Hibernian Rhapsody em Outra Arumba, por Henri le Balafré), criação do Haras São Quirino e propriedade do Stud Mictik. Ninguém há de contestar que não foi somente o precioso doublé por ele obtido (GGPP São Paulo e Brasil, dois Grupos I), que o fez destacar–se. Mas o estilo com que feito. Sua vitória na grandíssima milha e meia paulista entrou para a história. Um momento de pura magia.
E esta fantástica Colina Verde (Know Heights em Verdadeira, por Purple Mountain), criação do Haras Santa Camila e propriedade do Haras Fazenda Boa Vista? Palavras são inexpressivas para se tentar falar da tríplice coroada feminina paulista, como sua fenomenal ascendente Emerald Hill, e que fez, junto com a craque argentina Emotion Parade, brilhar o sangue de Empeñosa e de nossa Emoción (outro dos destaques de 2006). Certamente, sua exibição nos 1 mil 800 metros do GP Henrique de Toledo Lara (Grupo I), o nosso Prix Saint–Alary (nosso, porque só o temos em Cidade Jardim), foi das mais impressionantes que se teve a oportunidade de ver. Extraordinária e rigorosamente inesquecível.
Tudo Azul (Boatman em One Flash Blue, por Blue Diamond III), criação do Haras das Estrelas e propriedade do Stud Eternamente Rio, foi outro nome da geração nova que fez este 2006 muito especial. De craque, duas apresentações primorosas. A maior, sua reta fabulosa na milha das Two Thousand Guineas paulistas, GP Ipiranga (Grupo I). A ser sempre lembrada e relembrada por aqueles que gostam e amam o turfe como este deve e merece.
Podem dizer à vontade que, talvez, seja exagero meu, pois, a rigor, foi somente uma exibição dada por ela. Mas esta performance me foi mais do que suficiente. Falo de Double Trouble (Wild Event em Route Sixty Six, por Ghadeer), criação e propriedade do Haras Doce Vale, da turfwoman Patrícia Grumser. Alguém irá discutir a qualidade de sua vitória nos 2 mil metros do GP Carlos Telles e Carlos Gilberto da Rocha Faria (Grupo II), pai e filho, e não irmãos como foi ouvido em nossa televisão (um dos momentos bem menores deste ano)? Ela foi bem mais do que encantadora, foi de uma potranca de dotes especiais.
Deixei o quinto (fiquei mesmo com cinco, sorry!) para último pela dimensão e importância única que ele alcançou e que o elevou a símbolo histórico. Falo deste irretocável Eu Também, um Wild Event (para mim, o étalon do ano e, em termos de temporada hípica, 2006/2007, igualmente, so far), em Charmosa, por Fain, criação do Haras Guaiuvira e propriedade de João Boaydjian. E nem precisamos falar de seus brilhantes triunfos paulistas, em minha coluna tão exaltados. O fato de ter sido, e como foi (magistralmente dirigido por J. Moreira, o jóquei do ano, em que pesem as lindas direções dadas por, entre outros, Alex Mota, T. J. Pereira, I. Santana, M. Gonçalves, J. Leme etc…), o Derby–winner argentino do ano ao vencer o GP Nacional (Grupo I), nos 2 mil 500 metros da areia de Palermo, feito jamais alcançado por qualquer corredor estrangeiro, coloca–o em nosso (meu e brasileiro) pantheon de craques únicos. E, de quebra, passa a ser o maior corredor brasileiro de areia de todos os tempos, posto que era há quase 50 anos, mais do que merecidamente, do brilhantíssimo Estensoro (Estoc em Perfidia, por Nino), criação e propriedade do Haras do Arado.
É isso aí. Mas não posso deixar de destacar (eu e, pretensiosamente, este site) que três dos acima citados têm como ascendente o maravilhoso Never Bend, dois via Mill Reef–Shirley Heights (Dono da Raia e Colina Verde), um via Riverman–Irish River (Tudo Azul). Os dois outros vêm de Nearctic (pai do fundamental e incomparável Northern Dancer), mas via Icecapade, como Double Trouble e Eu Também.
Ah, desculpem–me! Já ia me esquecendo (o que seria pecado mortal!). Se 2006 marcou os 250 anos do nascimento de Mozart, ele também foi o do cinqüentenário do nascimento de um grande craque brasileiro, nome que dispensa apresentação, mas há que ser sempre lembrado e lembrado: Farwell (Burpham em Marilu, por Wood Note), criação do Haras Jahu e propriedade do Stud Almeida Prado & Assumpção.
Assim, com tudo isso, é que o Pick 8 passa a ter uma verdadeira importância. Assim como os rateios de trifetas e quadrifetas. Sem eles, o turfe não seria nada e esses jogos também. Portanto, aos cavalos e éguas (a seus criadores e proprietários, a seus jóqueis, treinadores, redeadores e cavalariços), o nosso brinde de final de ano. Com um geladíssimo Krüg.
por Escorial