O TURFE BRASILEIRO NOS TEMPOS DAS VACAS MAGRAS
O jornalista tem obrigação profissional de manter o seu público leitor bem informado. O compromisso dele é com a notícia. Não cabe ao repórter maquiar a verdade dos fatos. Ou as coisas estão bem, ou não estão. Nos últimos 12 anos de serviços prestados ao site Raia Leve, chamei a atenção dos meus leitores fiéis para a diminuição do rebanho de equinos no país. Alertei com insistência sobre a pouca força política do esporte junto aos órgãos governamentais. E, o emérito criador, José Carlos Fragoso Pires Júnior, aqui neste espaço democrático, fez muito mais. Anualmente, ele brindou o público do site, com matéria detalhada, em que chamou a atenção de todos para a redução de nascimentos de puros–sangues, do encerramento da atividade de importantes campos de criação, registrou a diminuição de matrizes, e de reprodutores. Enfim, apontou a gravidade do rumo da história do turfe no Brasil.
Não existe prazer algum em informar o caminho para o caos. Porém, os periodistas, como são conhecidos os jornalistas argentinos, não podem deixar o seu leitor navegando fora da realidade. Num mundo encantado temperado pela ficção. É claro que o aficionado pelo esporte prefere saborear as notícias que falam dos puros–sangues de exceção. Dos corredores consagrados e dos seus feitos. Em 40 anos de jornalismo tive este prazer, e para não dizer privilégio, de escrever sobre Emerald Hill, Boticão de Ouro, Falcon Jet, Flying Finn, Immensity, Troyanos, Itajara, Much Better, e tantos outros campeões. Escrevi sobre jóqueis talentosos, tais como, Juvenal Machado da Silva, Gabriel Meneses, Ivan Quintana, Albênzio Barroso, Carlos Lavor, Alex Mota, e até hoje, o Highlander, Jorge Ricardo. E treinadores do naipe, de Ernani de Freitas, Alcides Morales, Dendico Garcia, Venâncio Nahid, Dulcino Guignoni, João Luiz Maciel, entre tantos outros. E o leitor, atônito, vai me perguntar. Então, hoje em dia tudo está ruim no turfe nacional?
Nada disso. Os criadores continuam a sua atividade com abnegação. E, a todo momento, a nossa criação tem dado sinal de vida. E bons puros–sangues são negociados para fora do país. E lá fora, deixam a marca, ou talvez, seja melhor dizer, o selo de qualidade da nossa criação por outros hipódromos mundo afora. Porém, se a qualidade continua satisfatória. A quantidade compromete a formação dos páreos por todo este imenso país. Jóqueis bons temos por aí. Treinadores também. Mas os produtos de exceção criados são imediatamente negociados. Os turfes mais fortes do país, os pesos pesados, São Paulo e Rio de Janeiro, antes com quatro corridas semanais, reduziram o seu número de reuniões e de páreos. Cidade Jardim possuía maravilhosas quatro corridas, nos tempos em que eu ainda engatinhava na redação do Jornal do Brasil, em 1982, ou seja, há 40 anos passados. Agora, nos últimos anos, promove um programa no sábado. A Gávea, dos tempos do craque Grão de Bico, da Coudelaria Fã, promovia 44 páreos. Hoje vibra com 27, em três dias, e, mais recentemente, com 18 provas, em dois.
O heroico Cristal faz um programa por semana. Hoje é dia. O Paraná, com criadores e proprietários muito fortes, possui qualidade, mas não tem quantidade, nem de cavalos e, nem de jóqueis. Os pilotos paulistas invadem os seus programas oficiais, realizados de 15 em 15 dias. E os guerreiros do nordeste, em Fortaleza e no Recife, se viram com os cavalos mais velhos do eixo RJ/SP. São apaixonados. Porém, se temos poucos equinos por aqui. Imaginem a dificuldade que enfrentam, por lá. Os dois principais hipódromos, Cidade Jardim e Gávea, buscam socorro no aluguel do seu lindo e generoso espaço, para atividades de entretenimento e culturais. E o turfista nem deve pensar em reclamar disso. Ou divide o seu espaço com outras tribos, ou ficam sem corridas de cavalos. Afinal é preciso ajudar a pagar as contas.
E me desculpem os coleguinhas, que preferem pintar o mundo de cor de rosa. Um deles, outro dia, me telefonou furioso, dizendo que o meu texto era pessimista. Que era preciso incentivar a atividade, ao invés de criticar. Disse que pelas minhas mal traçadas linhas tudo estava ruim. Que era preciso ajudar o esporte, e não o criticar. Depois que ele parou de disparar, eu lhe perguntei. "Em primeiro lugar, amigo, esta não é a obrigação em nossa profissão. Faz uma coisa. Pergunta aos proprietários de cavalos de corrida o que eles acham dos prêmios dos páreos, em relação as despesas com o trato mensal dos cavalos que possuem? E outra coisa. Pergunta aos jóqueis e treinadores, que vivem da comissão, o que eles acham de ter porcentagem das vitórias e colocações, de 9 páreos por semana, em São Paulo, e 18 provas disputadas, em dois programas, na Gávea, quando anteriormente recebiam dividendos de 40 páreos, ou mais", questionei. Até hoje, o coleguinha não ligou de volta.
MEETING DO FINAL DO ANO
Campos com poucas inscrições no Meeting de fim de ano no Hipódromo da Gávea. O ponto alto das quatro provas será o duelo espetacular, entre Bien Sureño, do Neverending Stud, e Jet Class, do Stud Instante Mágico, no Grande Prêmio Júlio Cápua. Se o tempo firmar, o representante carioca pode medir forças com o excepcional corredor do turfe bandeirante. E no Grande Prêmio Almirante Tamandaré, Jorel, do Stud Pedudu, desta vez vai poder atuar como gosta, na ponta. E, se florear, com certeza será um osso duro de roer.
ASTRO INTERNACIONAL
Parabéns aos dirigentes do Jockey Club de São Paulo pelo retorno de João Moreira. O Fantasma de Cidade Jardim é atração internacional de volta ao seu antigo habitat. Direção brilhante no dorso de La Célia na prova de velocidade no Tarumã.
DE VOLTA O BRAÇO DE MOLA
Grande notícia o retorno de Leandro Henrique às pistas cariocas, no início de janeiro. É o piloto que mais vende jogo na Gávea. Honesto, dedicado e talentoso, foi imenso desfalque neste período de inatividade. Oxalá volte logo para abrilhantar as carreiras com a sua técnica, e o rigor do seu "braço de mola", que transmite enorme confiança a quem deposita dividendos nos cavalos que ele monta. Boa sorte!
FRANCISCO LEANDRO
Na reunião de ontem à tarde, em San Isidro, o jóquei brasileiro, Francisco Leandro alcançou a marca de 400 vitórias na temporada. Recuperado de acidente no partidor, sem maiores consequências, ganhou dois páreos, e liquidou a estatística da Argentina seu favor pelo quinto ano consecutivo. Desde de 2018, o cearense domina o ranking portenho.
DYLAN MACHADO
Dylan Machado tem se mostrado um aprendiz de rara eficiência e teve desempenho destacado na reunião do último domingo, em que ganhou cinco páreos. Bom largador, calmo e dono de percurso lúcido, vai chegar agarrado aos principais jóqueis na estatística carioca, mesmo depois de perder a descarga.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
O treinador, José Luiz Pedrosa Júnior, a exemplo de outros colegas profissionais, está com poucos puros–sangues sob a sua responsabilidade. Mas continua a ser profissional dos mais competentes. Excelente a apresentação de Pitty Girl, com a bela farda do Stud Blue Mountain, e direção precisa e arrojada do experiente, Carlos Geovani Lavor. Dois gigantes do turfe carioca.
PERSONAGENS
Henderson Fernandes e Luiz Esteves têm amplo domínio das estatísticas cariocas. Fernandes esteve no Tarumã e deu três joqueadas. A mais importante na prova central, no dorso de Kopenhagen, do Haras Springfield, que conquistou o bicampeonato da prova. E esteve perfeito com Nicodemos e War Relic, todos os três treinados por Antenor Menegolo Neto. Luiz Esteves brilhou mais uma vez na esfera clássica, com a conquista do GP Frederico Lundgren, com Raptor’s, do Haras do Morro, e o GP Mariano Procópio, com Pra Sempre, do Stud Eternamente Rio. Um craque!
