FLIGHTLINE, UM NOME PARA A ETERNIDADE
No último sábado, o Hipódromo de Keeneland estava lotado. Era dia de Breeder’s Cup. Um extraordinário festival, que todo ano abriga o maior desfile de puros–sangues de qualidade em todo o mundo. Nos Estados Unidos, trata–se de uma data para lá de especial. Desde os tempos do faroeste, nesta nação, existe um laço inseparável entre os seres humanos e os cavalos. É a terra dos chamados cowboys. E, com relação a raça mais refinada deles, o PSI, a paixão é ainda mais apreciada. Encanto absurdo dos americanos por eles. E por um motivo muito simples. A capacidade incrível de acelerar, e por consequência disso, alcançar alta velocidade. O homem possui fascínio histórico, no sangue, e na alma, pela velocidade. Do som e da luz. O que ninguém tinha certeza ainda era da presença de um equino tão ilustre. Todo o mundo do turfe desconfiava disso, depois do seu triunfo por 19 corpos, em Del Mar, por ocasião do Pacific Classic. Entretanto, em meio a presença de inúmeras estrelas do turfe, cavalos famosos, jóqueis e treinadores consagrados, estava um protagonista da mais absoluta exceção. FLIGHTLINE. E ele acelerou. Acelerou com tanta graça, volúpia e naturalidade, que alcançou o infinito. Tocou o céu, seduziu os anjos e entrou para a história da humanidade. Feliz daqueles que estavam presentes, ao vivo, no próprio hipódromo. Vivenciaram um momento único na história do turfe.
O mais curioso no imaginário do ser humano é a sórdida mania de duvidar. No fundo do seu coração, ele sabe da realidade. Porém, ele sente prazer em duvidar. O habitante deste planeta tem a sensibilidade de enxergar o óbvio. Entretanto, sente enigmático prazer em duvidar. Ele se irrita com o craque. Ele o reconhece, mas prefere duvidar. E aí, ele duvida do craque de bola, seja no futebol, no vôlei ou no basquete. Pelé fez 1200 gols, Michael Jordan, outras tantas cestas, e Ayrton Senna brincou dentro de um carro de Fórmula 1, como se fosse aquele brinquedo dado pelo pai, nos seus primeiros passos da infância. E nenhum deles conseguiu a unanimidade. Com os cavalos acontece o mesmo. Itajara arrastava multidões ao hipódromo carioca. E lá estavam os idiotas da objetividade, como escrevia o tricolor Nelson Rodrigues, a duvidar da sua capacidade. Eles preferiam duvidar das próprias imagens, por sete domingos, no programa Fantástico, da TV Globo. Nem com a narração de Ernani Pires Ferreira os convencia. Ernani, o melhor de todos os tempos, enchia os pulmões, e berrava. "Itajara tem uma avenida na frente! Um dia inteiro! Um fenômeno!". Os indivíduos tinham as imagens. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis e sete vezes. E duvidavam. Eles se recusavam a acreditar. Uns diziam, "esta geração é fraca". "Ainda não ganhou de ninguém", argumentavam outros. Itajara se foi. E nem assim, invicto, carismático, ele foi unanimidade.
Benditos sejam, aqueles que respeitam as exceções desta vida. As forças da maravilhosa natureza. Os seres vivos, homens ou cavalos, vieram e ainda virão a Terra para comprovar que o mundo gira em torno dos privilegiados de Deus. Daqueles que aparecem por aqui para deixar mais prazerosos e felizes os dias da nossa existência. É preciso aceitar, com humildade ser um cidadão comum. E não sofrer com o sucesso dos privilegiados. Cada um tem o seu papel no curso da vida. Flightline, no seu papel de cavalo de corrida, veio para alegrar a vida dos turfistas. Oscar Schimidt para fazer cestas do meio da quadra, a ponto de o Brasil derrotar os Estados Unidos no basquete, em plena Terra de Tio Sam. E assim, será sempre o curso da vida. É preciso, durante a caminhada, aceitar com resignação o seu papel. O nosso, como turfista, é aceitar que Flightline, em 2022, é o melhor puro–sangue de corrida do planeta. Em Keeneland, na China, Dubai, e até na Groelândia, ele sempre ganhará por vários corpos. A palavra é simples: exceção.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
O treinador, Luiz Esteves, brilhou na apresentação de Online, do Stud Verde, e ele se impôs com autoridade, num campo de bons corredores, no tradicional GP Antônio Joaquim Peixoto de Castro Jr. Direção competente e precisa de Henderson Fernandes, em momento único de sua carreira. No mesmo padrão de qualidade foi o preparo de Christiano Oliveira na potranca Luminosidad, do Haras Santa Maria de Araras, no Clássico Octávio Dupont. Corrida no fundo do lote por Waldomiro Blandi, atropelou com vistosa aceleração para vencer bela carreira. A raia estava pesada. Deve mostrar ainda mais numa pista seca. Irmã inteira de Jet Class, do Stud Instante Mágico, talvez ele também tivesse se saído bem no mesmo terreno. Jamais vamos ter certeza disso.
JOQUEADA DA SEMANA
Waldomiro Blandi, em tarde inspirada, esteve impecável no dorso de Pleasant Prize, do Haras Nacional, e treinamento de Edson Ricardo, no GP João e José e José Carlos de Figueiredo. Correu na expectativa, aproveitou com inteligência cada centímetro do percurso, fez manobra habilidosa na reta final, e encontrou com perspicácia o caminho da vitória. Um jóquei experiente, frio e meticuloso, com quem tive o privilégio de trabalhar como agente de montarias. Bom profissional, o chamado Manivela, apelido herdado do seu tempo, em Cidade Jardim.
PERSONAGEM
É bem legal quando um profissional vive momento em estado de graça. Henderson Fernandes adquiriu maturidade, e, no turfe carioca atual, nenhum piloto esbanja tanta confiança no dorso de um cavalo de corrida. É claro que o fato de ter a sua disposição o plantel de potros e de corredores do treinador Luiz Esteves, o favorece. Mas, ele tem lidado muito bem com a responsabilidade de montar favoritos em profusão. Os outros profissionais, antes rivais, tem requisitado o seu serviço, e, ele tem correspondido plenamente com muitas direções precisas. Tem acumulado pontos, e mesmo ainda longe do final da estatística, pode ficar distante da alça de mira de Leandro Henrique, quando o atual campeão estiver de volta às pistas.
