Era apenas um páreo de turma. Para éguas de 4 anos, com 1 vitória. Não deveria ter tanta importância para um jóquei que tem no currículo, três GPs Carlos Pellegrini, dois GPs Brasil, três GPs São Paulo, sete GPs Cruzeiro do Sul (Derby), e um recorde mundial de vitórias inalcançável para qualquer indivíduo, que decida abraçar a profissão de jóquei. Mas, Jorge Antônio Ricardo não é assim. Para ele, todo páreo é importante. Todo cavalo de corrida tem o seu valor. Todos os sonhos do proprietário de um puro–sangue merecem ser respeitados. E, por isso, ele vê os filmes das suas montarias, com chance ou não, E dos adversários também. Quer sempre entrar na raia para fazer o melhor possível.
Ontem de manhã, como a gente sempre faz, fizemos uma resenha das corridas. Ricardinho tinha uma única montaria, Magic Glory USA, do Stud São Francisco da Serra, no oitavo páreo da noturna. Gosto de provoca–lo. De esticar a corda. É uma maneira de medir a temperatura da sua perseverança, obstinação e amor pela profissão. Sinceramente, são três coisas não têm limite neste cara. "Quem diria campeão? Jorge Ricardo, na Gávea, onde ele sempre montou todos os páreos, cinco ou seis favoritos no mesmo dia. E dava as cartas. Agora vai sair de casa para montar um único páreo de turma", falei mansamente para colocar a pilha, e esperei a resposta do outro lado da linha.
"É verdade. A turma está me testando para ver se eu enjoo a ração. Eles querem que eu saia logo de cena. Mas você já viu de quem é esta égua? É do Tony Ribeiro Pinto. Ganhei uma tríplice–coroa para ele, com Plenty of KIcks. É um cara que respeito muito. Gosta de mim. Tem respeito pela minha pessoa. Se ele me pedir para montar um cavalo dele, no fim do mundo, eu vou. Estávamos juntos nos momentos de alegria, também vamos ficar juntos nas adversidades. Já vi os filmes. O meu rival é o Leandro Henrique. Esta égua que ele monta vai gostar de largar por fora. Ele vai vir de menos para mais e logo tomar a ponta para colar na cerca e galopar na frente. Vou colocar em segundo, acompanhar o ritmo dele, e fazer a partida mais curta possível. Ele tem muito rigor. Se eu vier cedo, ele volta para cima de mim".
Após a vitória, sorridente, aquele senhor de 60 anos, cabelos grisalhos, entrou na Repesagem para fazer o peso. Ao seu lado, o treinador, Júlio César Sampaio, parecia uma criança, de felicidade. Tinha vontade de chorar, de frente para aquele homem de pequena estatura, e franzino, que jogava beijos pela televisão para as suas filhas, mais novas Giovana e Luana. Talvez o treinador não soubesse. Mas estava diante de um gigante. Um homem de caráter, honesto, correto, quase uma força da natureza. Um ídolo absoluto e inexpugnável, que teve a má sorte de nascer num país, onde os caras como ele, não são reverenciados. São vítimas de inveja e, considerados um incômodo. O último jóquei de sua geração que ainda está nas pistas. Na luta por espaço, dignidade, e direito, de aos 60 anos, sem privilégios, apenas exercer o direito de trabalhar e curtir o amor incondicional por montar um cavalo de corrida.
Por Paulo Gama