Alguns fantasmas assombram a gente pela vida afora. Mas, eles parecem tão distantes da realidade, que a opção é seguir em frente. E aí, colocamos estes maus pensamentos de lado. Um dia, eles deixam de ser meros fantasmas. E se transformam em pura realidade. Nos últimos cinco anos percebi que a corrida dos sábados à tarde estava fadada a extinção. Arquibancadas e guichês vazios. Movimento de apostas fechando a raia no faturamento semanal. Enfim. Ladeira abaixo. "Não é possível", eu pensava. E hoje em dia, o mau presságio virou fato consumado. Durante os meus anos dourados de turfista, a corrida de sábado, na Gávea, era a minha preferida. Por vários motivos. Em primeiro lugar, por ser a segunda da semana. Os páreos de sexta–feira não tinham glamour. E quase nenhum encantamento no aspecto técnico. O sábado, por ser véspera do domingo, o dia de gala dos grandes clássicos, acelerava a adrenalina. Começava a contagem regressiva para os grandes momentos. A enorme expectativa de ver os grandes cavalos em ação.
O turfe tem o ritmo parecido com o amor bem feito com a mulher amada. Na maioria das vezes, as preliminares são bem mais interessantes do que a explosão do orgasmo. No sábado havia a redoblona do Valmir, o saudoso "Espada". Para ter chance era preciso acertar muitos páreos, entre o sábado e do domingo, para fazer mais pontos e chegar na frente de tantos bons marcadores. Uma pedreira! Na hora pegar o mapa na Tribuna Social com o Valmir. "Você fez o bolo do Valmir?", uns perguntavam aos outros. Era um pecado ficar de fora da redoblona do Espada.
Ali, naquele mapa, estavam as marcações de todos os caras mais bem informados. Os mais estudiosos. Enfim, a nata da malandragem. Beto, o Espada, Jorge Delírio, Miguel Leão, o Papeleiro, Fred, o Freduro, Jacques Eskinase, o homem da Coca–Cola, o cara que ganhou a primeira Quinexata, o tricolor, Valtinho, com seus gritos "Esta era imperdível", após os páreos, e o Seu Raul, pai do hoje presidente do Jockey Club. Uma constelação de bons marcadores, todos disfarçados por pseudônimos. Quem era quem? Só o Valmir sabia e procurava guardar esta informação a sete chaves. "O mapa já chegou?", perguntam uns aos outros, até que o Valmir despontava na Social com eles debaixo do braço.
Na última tribuna, perto da entrada da reta final, onde anos depois ficaria a Feira–Hype, era servido um angu maravilhoso. Tinha o aluguel dos binóculos. A bomboniere dentro da Tribuna Especial A. Nas grades da entrada popular, a chamada geral, tão generosa quanto a do Maracanã, ficava a baiana, com seu delicioso sanduiche de carne assada. O público lotava as tribunas. As joqueadas eram aplaudidas de pé. As direções suspeitas recebidas com sonoras e furiosas vaias. E quando corria o último páreo de sábado, tudo bem. Se as corridas tivessem sido boas, já estávamos com pólvora inglesa para o domingo, o dia de gala.
Por outro lado, se a sorte não houvesse sorrido, sem problemas. Havia os melhores páreos, no dia seguinte, e, de quebra, a noturna se segunda–feira, com as barbadas de cocheira para salvar. E o melhor de tudo, os turfistas tinham para onde ir, depois das corridas. Quem tinha ganho pagava o chope e a picanha fatiada no El Cid, em Copacabana. Quem perdeu dava a forra depois. Hoje, dia 19 de março de 2022, não tem corrida. O El Cid fechou, o Petisco da Vila, também. O tradicional Alcazar, nos Posto Seis, não existe há mais de 10 anos. E o pior, de tudo isso, é que aqueles sábados de outrora, com Francisco Esteves, sempre correndo na ponta, Juvenal, com a farda do Stud Numy, Goncinha, com a do Mondesir, e Gabriel Meneses, com a dos Haras São José e Expedictus, não voltam mais. Nunca mais.
Por Paulo Gama