A cidade do Rio de Janeiro perdeu um dos seus cidadãos mais ilustres. E, o Jockey Club Brasileiro ficou sem um pouco da sua alma e paixão. Aos 104 anos, morreu o turfista, Dagoberto Midosi, o querido Dagô. A nossa cidade e o nosso clube perdem o seu espírito carioca de ser, e de viver. A partir deste dia 19 de novembro de 2021 estamos órfãos da sua generosidade, da sua elegância, do seu bom humor e das inesquecíveis lições de como levar a vida de forma mais leve, solidária e produtiva. O advogado Dagoberto Midosi foi um homem eclético, culto e carismático. O atleta foi um campeão sul–americano e mundial do Tenis de Mesa, defendendo o Brasil e o Fluminense, clube que amava com paixão. O amigo Dagoberto, a cada dia de corrida, nos brindou com incansáveis lições de como viver em sociedade. E até os arrogantes, pretenciosos e mau humorados puderam viver bons momentos ao seu lado, nas incontáveis reuniões das tardes e noites de corridas na Gavea.
No aspecto geográfico, nós nunca sentamos no mesmo lugar, dentro das dependências da Tribuna Social do Hipódromo da Gávea. Por questão profissional, eu sempre fiquei no andar debaixo, na varanda, perto do padoque, junto ao passeio dos cavalos. E, o seu Dagô, reinava absoluto, no alto da Tribuna, perto dos presidentes do clube, e dos grandes criadores e proprietários. Ali, durante muito tempo, dividia o espaço, num Fla–Flu quase eterno, com Fernandinho Botelho, primeiro goleiro do Flamengo. Os dois centenários frequentadores do prado. Este duelo, entre o mesa–tenista e o jogador de futebol, iluminou e divertiu a turma da elite do Jockey Club durante décadas. Afinal, os dois eram imortais. Fernandinho, mais apressado para mudar de ares, foi embora primeiro, há alguns poucos anos, e, agora, a partir de ontem, esta rivalidade de dois grandes amigos será revivida no céu.
Dagoberto gostava de mim e do meu texto. Acompanhou o meu trabalho no Jornal do Brasil, durante os 19 anos em que trabalhei por lá. Era uma época de espaço na mídia, e, posteriormente quando fui parar na TV Turfe, ele anotava os meus palpites. Dagô sabia agradar e ser gentil. Tinha, por natureza, coração generoso e acolhedor. "Bom dia garoto. A sua escrita estava ferina esta semana. As suas críticas foram precisas e coerentes. Mas acho que a turma não vai gostar muito". Aí, eu dizia a ele que estava longe de ser um menino. E, ele, com aquele sorriso acolhedor, respondia. "Meu filho você deve ter uns 60 anos, não é? Para mim ainda é um bebê. Eu estou com 103, mas estou dirigindo, e venho para o Jóquei sozinho. Mas Papai do Céu teima em me deixar por aqui".
Em outros dias o assunto era o futebol. Tricolor de coração, recordava os áureos tempos do Fluminense, de Castilho, Orlando Pingo de Ouro, Pinheiro e da Máquina com Rivelino. Repetia sempre, que o nosso time, hoje em dia, só tinha jogadores pernas de pau. Estava certo. Quando o assunto passava para o turfe, Dagoberto Midosi dava um show. Memória extraordinária, ele era a enciclopédia viva do turfe. Luiz Rigoni era o seu ídolo maior, mas sempre ressaltava os jóqueis chilenos, que montaram na Gávea, na era do "homem do violino". Tinha também, enorme admiração por Juvenal, Jorge Ricardo, e Gonçalino Feijó de Almeida. O último por causa do estilo de freio, e por usar o chicote como se fosse um violino, à moda Rigoni, na orelha dos puros–sangues.
Nos últimos tempos seu Dagoberto sentiu um pouco o avanço da idade. Já não conseguia dirigir e contratou uma taxista, chamada no estacionamento pelos colegas, de Dona Jô. Era fiel escudeira. Nas ocasiões em que eu saía mais cedo, e ela estava no estacionamento à disposição do seu Dagô até o último páreo, ela me levava até Copacabana. Durante toda a viagem falava das histórias do seu mais ilustre cliente. O mesa–tenista campeão, Dagoberto Midosi. "Seu Dagoberto não é fácil. Ele tem sempre uma história para contar. Este tal de Rigoni. Ele sempre fala deste sujeito e conta as suas façanhas nos tempos em que ele montava", dizia Dona Jô. É isso aí, meu amigo. Espero que o senhor possa ler esta singela homenagem do seu eterno admirador. Aonde o senhor estiver tenho certeza que já conquistou a simpatia, o respeito e a admiração de todos. Boa viagem...
Por Paulo Gama