O turfe brasileiro hoje amanhece mais pobre de talento. O jóquei gaúcho, Alexander de Barros Mota, 43 anos, decidiu parar de montar. Desde o seu desembarque na Gávea, no final da década de 90, ele brindou os fãs e aficionados com a mais pura arte de pilotar um puro–sangue de corrida. Porém, nesta vitoriosa trajetória, precisou conviver, no dia a dia, com a incansável luta com a balança. Ele mesmo declarou, numa recente entrevista, que viveu na carreira uma montanha russa de constantes altos e baixos, por causa do inimigo público número um da profissão: o peso. Foi apelidado de "Borboleta", pelo colega, Jorge Ricardo, por causa da sua mania de combinar as cores do equipamento de montaria, chicote, bota, óculos, etc., com a cor da farda do cavalo em que entraria na raia. E, por coincidência do destino, foi justamente o recordista mundial a vencer o último páreo de sua vida profissional. No dorso do azarão Guri D’Anafer, do Stud São José dos Bastiões, e preparo de Vítor Lahass. Agora, nós turfistas ficaremos órfãos do talento, da criatividade, da classe e do encanto da Borboleta. Porém, depois de tanto sacrifício, esta Borboleta pode finalmente ter paz. E, a indispensável liberdade para voar.
A despedida de Alex Mota foi bem ao seu estilo. Discreta, inesperada e desconcertante. Instrutor da Escola de Aprendizes, e já apalavrado para ser Comissário de Corridas remunerado do Jockey Club, a partir de dezembro, ele não avisou a ninguém de que Ottoman, do Stud Bossa Rio, e treinamento de Roberto Soares Silva, seria a montaria de despedida de sua carreira. Subiu a reta final, e deu a volta para o cânter anônimo, num páreo de claiming, para animais de 4 anos, com uma vitória. Era como se nada estivesse acontecendo. Nem aplausos, nem incentivos e nem abraços. Só tinha avisado a filha, Victória Mota, e a ex–mulher, Juliana Dias, coordenadora da escolinha. Ela, também comentarista da TV, chegou a comentar, "En passant", o fato no programa "Resenha do Turfe". Talvez fosse tarde para organizar a homenagem, convidar a sua legião de fãs para vir ao hipódromo. Enfim, fazer a merecida reverência que um astro tão talentoso merecia. Muito, por culpa dele, ao que parece.
Apesar disso, talvez desse tempo para localizar e passar os filmes, com algumas vitórias inesquecíveis, antes da última montaria de sua vida profissional. Quick Gipsy, do Stud Palura, na sua memorável vitória, na milha internacional. Thingnon Boy, do Haras Valente, em sua consagração no Grande Prêmio Brasil. A bela voz do locutor Thiago Guedes, anunciando que estávamos vivendo, pela última vez, o prazer de ver em ação um monstro sagrado das rédeas nacionais. Poderiam até escolher a dedo uma música de fundo. Se fosse na Argentina, com certeza seria entoado um tango. Passou batido. Acontece. O Jockey Club Brasileiro optou por fazer a homenagem ao Mota com o hipódromo lotado, num domingo, dia 19 de dezembro, no meeting do final de ano, quando serão disputados os Grandes Prêmios Frederico Lundgren, Mariano Procópio, Almirante Tamandaré e Júlio Cápua. Neste dia, pretendo sair de casa e estar lá para bater palmas de pé para ele. Gente. Este cara fez muita coisa bonita nas pistas dos hipódromos nacionais. Um craque para a eternidade!
por Paulo Gama