Hoje, às 11h05, no horário de Brasília, a TV Turfe, do Jockey Club Brasileiro, vai transmitir a histórica 100ª edição do Grande Prêmio Arco do Triunfo, no Hipódromo de Longchamp, em Paris. Talvez seja a mais tradicional prova do turfe mundial. Com certeza, ela é a mais famosa. A história do páreo foi escrita por puros–sangues tão lendários, que mais parecem saídos de contos de fadas. E, também, por jóqueis e treinadores consagrados por seus feitos inesquecíveis nas pistas internacionais. Os favoritos nesta edição comemorativa do 100º Prix L’Arc de Triomphe, são Adayar, Tarnawa, Hurricane Lane, Love e Snow Fall. Eles são os astros desta maravilhosa festa, que reúne toda a comunidade turfística mundial, num desfile de elegância, paixão, poder, tradição e riqueza. Tudo regado a champanhe nacional. E convenhamos, do servido na França ninguém se queixa.
Só tive a oportunidade de estar presente numa única edição do Arco do Triunfo. Foi em 1994, quando a caravana do Stud TNT, se aventurou e teve a ousadia de inscrever Much Better na prova mais importante do planeta. Numa temporada em que o filho de Baynoun e Charming Doll, de criação do Haras J. B. Barros ganhou tudo o que era possível na América do Sul, Latino–americano, em La Plata, GP São Paulo, em Cidade Jardim, GP Brasil, na Gávea, e GP Carlos Pellegrini, em San Isidro. Mas, logo aprendi, que em Paris, o buraco é bem mais embaixo.
Para começar a minha jornada no hipódromo, subi as arquibancadas sociais de escada rolante. Para mim, que detesto andar de elevador, foi sensacional. Logo a seguir, dei de cara com um gigantesco Telão, no peão do prado. Olhei para o lado e notei um casal de namorados, elegantemente vestidos, e sentados diante de um balde com duas garrafas de champanhe em plena tribuna. Que luxo! Nos guichês uma movimentação de apostas nunca vista por mim anteriormente. Eram avalanches de dinheiro dos frenéticos apostadores árabes e japoneses. Tinha placê até terceiro. E acertei um placê do Jorge Ricardo com rateio de 3 por 1. Algo impossível de acontecer na Gávea naquela época em que ele ganhava 300 páreos por ano.
Porém, duas coisas me marcaram para sempre naquele lugar tão civilizado. As pessoas fazendo piquenique nos gramados, a caminho do hipódromo. As crianças corriam na relva e brincavam despreocupadas. Os adultos sorriam e se confraternizavam. Enfim, o Arco do Triunfo era um acontecimento na cidade. E, esta cidade, era Paris. Depois do páreo, um momento inesquecível. Assim que cruzou o disco, com a vitória de Carnegie, montado por Thierry Jarnet, líder da estatística, que ganhava o páreo pela primeira vez, treinado por Andre Fabre, um mito do turfe francês, e a vitória, até então inédita, do proprietário, o sheik Mohamed, a referência do locutor oficial não foi para nenhum deles. E sim para nós, os brasileiros, em três idiomas. O francês, depois o inglês, e por fim, em português.
"Queríamos agradecer a delegação brasileira, que veio de tão longe e trouxe Much Better, o seu campeão. Não fiquem decepcionados com a corrida. Ele foi guerreiro. O que vale é a coragem de inscrever o cavalo, numa pista no sentido contrário do quele está acostumado a competir. Com a repentina mudança de hemisfério, e contra os melhores puros–sangues do mundo. Ficamos gratos por terem vindo. E desejamos que voltem outra vez.". Ao meu lado, as lágrimas corriam nos rostos de quase todos membros da imensa delegação de Gonçalo Borges Torrealba. Para mim, um exemplo para toda a vida. De educação, civilidade e fraternidade. E no fundo, era possível ouvir o inconfundível som da Marselhesa.
Por Paulo Gama