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Setembro | 2021

Jorge Ricardo, 60 anos. "Eu sigo montando por amor"
30/09/2021 - 07h31min

Internet

Nas pistas dos hipódromos mundo afora, desde 1976, Jorge Antônio Ricardo, completa 60 anos hoje, dia 30 de setembro de 2021. Nestes 45 anos de profissão, ele construiu um currículo extraordinário, em que consta o recorde mundial, de 13.127 vitórias, o recorde sul–americano numa mesma temporada, 477 vitórias, o recorde argentino, 467 vitórias no mesmo ano, o recorde semanal na Gávea, 16 vitórias, o recorde de vitórias numa mesma programação na Gávea, 7 vitórias, o recorde de conquistas de estatísticas na Gávea, 24 anos consecutivos, de 1982 a 2006, e quatro estatísticas na Argentina, 2007, 2008, 2011 e 2012.

Ricardinho ainda ganhou o Latino–americano cinco vezes, o Grande Prêmio Carlos Pellegrini, 3 vezes, o Grande Prêmio Brasil, 2 vezes, o Grande Prêmio São Paulo, 3 vezes, e o Grande Prêmio Cruzeiro do Sul, 7 vezes. Uma pesquisa realizada na Argentina, por especialistas em estatísticas, revelou que Jorge Ricardo passou a maior parte do tempo de sua vida montado em cavalos de corrida. Segundo eles, quase toda a sua existência aconteceu no dorso dos puros–sangues. Ou seja, ele ficou menos tempo a pé, para caminhar, ou deitado, para dormir. Por estas e outras, o Raia Leve, bateu um papo com o campeão e fez algumas perguntas ao maior ídolo do turfe brasileiro de todos os tempos. Jorge Ricardo, um carioca, agora sexagenário, nascido no Leblon e torcedor do Botafogo.

RAIA LEVE – Você imaginava montar até os 60 anos?

J. RICARDO – Não. A vida de jóquei é muito dura e cansativa. Tem a luta constante para manter o peso. Enfim, eu cogitava montar até os 50 anos, no máximo. Além disso, sofri acidentes graves nas pistas. E aí, o tempo foi passando, e me senti ainda um atleta saudável. Por isso fui em frente. Hoje, sinceramente, eu sigo montando por amor. Eu tenho paixão pelo que faço.

RAIA LEVE – Qual a importância do seu pai, Antônio Ricardo, na sua vida profissional?

J. RICARDO – Meu pai foi fundamental para eu ter ido tão longe. Ele me ensinou a montar, me orientou e tudo que sei, na parte técnica, foi através dos seus ensinamentos. Devo tudo a ele. Ele é parte integrante das minhas conquistas. Tenho saudade dos meus temos de garoto, sempre ao seu lado, para aprender os segredos da profissão. Ele foi um grande jóquei e, com certeza, o meu maior amigo.

 

RAIA LEVE – Dona Maria, a sua mãe, e Jucilei, sua irmã, também lhe deram apoio na retaguarda? 

J. RICARDO – Minha mãe, a princípio, foi contra. Ela acompanhava o meu pai e sabia dos riscos e das dificuldades da profissão. Mas, depois de perceber que não haveria jeito de mudar a minha cabeça, sempre me apoiou. Cuidava do meu material, lavava as minhas coisas e mantinha todo o meu equipamento arrumado, para que eu não me preocupasse. Jucilei também sempre me deu apoio. Recortava as reportagens e as fotos que falavam de mim, guardava as entrevistas e fazia os álbuns com as minhas conquistas. Enfim, a família sempre me deu respaldo.

RAIA LEVE – Qual foi o melhor cavalo que você montou?

JORGE RICARDO – Much Better, do Stud TNT. Ele me proporcionou triunfos em todas as provas mais importantes do turfe sul–americano. Era uma máquina de correr. Além disso, tive a oportunidade de correr com ele o Arco do Triunfo, em Paris, uma das provas mais famosas do mundo. A minha carreira, que já era vitoriosa, subiu ainda mais de patamar por causa dele. Mas, também montei outros craques como Falcon Jet, Jimwaki e Gorylla, entre tantos outros.

RAIA LEVE – Qual o melhor jóquei que você enfrentou na raia?

J. RICARDO – No turfe brasileiro, sem dúvida, foi Juvenal Machado da Silva. E na Argentina, o uruguaio, Pablo Falero. Juvenal era desconcertante. Técnico, frio e intuitivo. E, fora da raia, um grande sujeito. Falero também era um jóquei espetacular. Dominou durante anos o turfe argentino. Porém, ainda tive o privilégio de montar com outros grandes jóqueis, como Gabriel Meneses, Goncinha (Gonçalino Feijó de Almeida), Albênzio Barroso, e Edson Ferreira.

RAIA LEVE – Quem foi o melhor treinador para quem você montou?

J. RICARDO – João Luiz Maciel. Além do talento para a profissão, ele tinha inteligência rara. Fizemos uma dupla sensacional, com muitas vitórias inesquecíveis. Além dele, destaco Alcides Morales, Alberto Nahid, Artur Araújo, no início de carreira, e, posteriormente, Venâncio e Roberto Nahid, Dulcino Guignoni, entre outros. Na Argentina, Juan Carlos Etchechoury, Roberto Pellegata e Juan Carlos Maldotti.

RAIA LEVE – Quando você vai parar de montar? 

J. RICARDO – Vou parar quando sentir que o corpo e a cabeça não estão me ajudando mais. Não tenho data e nem prazo. Porém, sei que este dia está próximo de chegar. Não estipulei nada para o futuro. No momento me sinto bem. E os resultados comprovam isto. Fui quarto colocado na estatística da Gávea, bastante competitiva, e só comecei a montar em setembro, quando voltei da Argentina.

RAIA LEVE – E qual o motivo de você estar assinando poucas montarias?

J. RICARDO – Puro preconceito. É o estigma da idade. Acontece em todas as partes do mundo. Se eu ganho um páreo, a explicação é que fiz a minha obrigação, pois o cavalo era uma barbada. E, se perco, é por que não sou mais o mesmo. As pessoas deveriam me comparar com os jóqueis da atualidade. E não com o Ricardinho de 40 anos atrás. Aí, é covardia. Não posso ter o rigor dos meus 20 anos. Nenhum atleta de outra modalidade esportiva tem. Porém, não cometo os erros daquele tempo. E a experiência e a malícia adquiridas pela estrada afora? Não contam?

RAIA LEVE – Você tem tido ótima receptividade no turfe paulista. Esperava por isso?

J. RICARDO – Sinceramente não. Tenho muitos amigos em São Paulo, mas eu sempre montei no Rio de Janeiro. Só estava lá, em Cidade Jardim, nas ocasiões especiais, nas provas importantes, como todos os outros jóqueis. O treinador Mário André foi um grande amigo que fiz por lá. Me recebeu de braços abertos, tem me dado ótimas oportunidades e tenho procurado retribuir da melhor maneira. Ganhamos várias provas de grupo, com Head Office e Homer Screen, com a farda do Stud Aléssio & Naela, do craque Guerrero. A diretoria também me deu respaldo e, não posso deixar de citar o jornalista Jair Bala, pessoa elegante, generosa e meu amigo há longos anos. Eles me valorizam demais e procuro marcar presença todas as semanas em que os compromissos do Rio me permitem.

RAIA LEVE Você tem saudade do turfe argentino?

J. RICARDO – Tenho bastante. Fiz muitos amigos por lá. Minhas duas filhas mais novas nasceram em Buenos Aires. E sempre recebi carinho dos argentinos, nos bons e nos maus momentos. É um país lindo, e, apesar das dificuldades sociais e políticas do momento, eu poderia voltar a morar lá.

RAIA LEVE – Quais são os maiores sacrifícios da profissão de jóquei?

J. RICARDO – Sem dúvida, manter o peso. Não é nada fácil a luta constante contra a balança. Além disso, os riscos diários com a velocidade atingida pelos cavalos nas corridas. Qualquer descuido e você sofre lesão grave. São os dois fantasmas que a gente convive durante toda a carreira de jóquei. A balança e o risco de vida.

RAIA LEVE – Fale um pouco sobre o documentário que será lançado em breve sobre a sua vida.

J. RICARDO – É motivo de muita alegria. O Richard Ávila, do Stud Blue Mountain, tocou o projeto e ele se concretiza até o final do ano. Eu só vi as mesmas partes do filme que os turfistas acompanharam nas chamadas da televisão. As entrevistas estão ótimas, com pessoas importantes, e têm os filmes das minhas vitórias mais expressivas. Ter a minha vida e o meu legado imortalizado me enche de orgulho e realização.

RAIA LEVE – Quem é o melhor jóquei brasileiro na atualidade?

J. RICARDO – Vou citar dois nomes. Silvestre de Souza e João Moreira. O Silvestre saiu daqui do Brasil desconhecido e hoje faz sucesso na Europa. Enfrenta a todo instante, alguns dos melhores jóqueis do mundo, e até a rainha da Inglaterra vai aos hipódromos para vê–lo montar. O Moreira, o nosso Fantasma de Cidade Jardim, desbravou o oriente e ganhou corrida por onde passou. Singapura, Hong Kong, Dubai, Australia, em todo canto deixa a marca do Magic Moreira. Eles dois são motivo de orgulho para nós brasileiros. Francisco Leandro também é muito bom e domina o turfe argentino. Mas, o Silvestre e o Moreira enfrentam jóqueis do mais alto patamar.

RAIA LEVE – O que precisa melhorar no turfe brasileiro?

J. RICARDO – Em primeiro lugar, a divulgação. Por ser um esporte de elite, o turfe encontra maiores dificuldades para se popularizar. Na época em que o meu pai montava, e eu era menino, os jornais só falavam de futebol e turfe. Com o passar do tempo surgiram muitos outros esportes e as coisas se dividiram. Além disso, outra coisa importante é renovar os aficionados em corrida de cavalos. Temos poucas crianças e adolescentes nos hipódromos. É preciso resgatar a juventude e manter acesa a chama do esporte. E, finalmente, melhorar os prêmios, mola mestra que faz girar toda a indústria do cavalo de corrida.

RAIA LEVE – O turfe brasileiro, no futuro, pode ter esperança de ver surgir nas pistas um outro Jorge Ricardo?

J. RICARDO – Esperança a gente sempre deve ter. Mas, este jovem terá que estar pronto para grandes desafios e sacrifícios. Jóqueis de boa qualidade técnica, toda temporada aparece. O problema é ter atitude positiva diante das dificuldades da profissão e da vida. Ser jóquei não requer apenas saber usar o chicote, largar bem, ter boa posição no dorso dos cavalos e fazer um bom percurso. O jovem aprendiz deve saber respeitar os colegas, os instrutores, os proprietários, e os treinadores. Não pode deixar o sucesso prematuro subir à cabeça. Deve cuidar do corpo, da mente, do peso, e da família. Chegar ao sucesso é muito difícil. Porém, você descobre, com o passar do tempo, que se manter lá no topo é uma tarefa ainda mais árdua. Por isso, não existe ainda um substituto para o Pelé, o Oscar Schimdt e o Ayrton Senna. Mas, ter outro Ricardinho, talvez seja um pouco mais fácil.

Por Paulo Gama



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