CIDADE JARDIM SERÁ O CENTRO DAS ATENÇÕES NA SEMANA
No próximo sábado, dia 4 de setembro, no Hipódromo de Cidade Jardim, estarão concentradas as atenções turfísticas nacionais da semana que se inicia. Os tradicionais Grandes Prêmios Ipiranga, para potros de 3 anos, e Barão de Piracicaba, para potrancas, da mesma idade, serão os pontos de partida para as Quádruplas–Coroas do turfe paulista. É sempre um momento mágico para criadores e proprietários. Os puros–sangues promissores, machos e fêmeas, começam a caminhada que poderá, ou não, colocar os seus nomes na história. Pequenos detalhes na preparação, nos treinos de distância, e aprontos decidirão a sorte e os sonhos de todas as equipes envolvidas nos primeiros compromissos de alta responsabilidade e expectativa dos jovens corredores.
Nos meus primeiros anos de paixão turfística, quando não tinha qualquer envolvimento profissional ou jornalístico nestes eventos, tinha o hábito de sair do Rio de Janeiro em direção a São Paulo, com amigos adolescentes para acompanhar estas provas tão tradicionais. Torcia para os potros e potrancas do Rio é claro. Pude presenciar inúmeros craques paulistas e cariocas em ação nestas experiências. Entre os cariocas, o que mais me marcou foi Boticão de Ouro. Treinado pelo saudoso João Assis Limeira, o filho de Locris teve duas experiências distintas na raia de grama paulista. O momento de glória, no triunfo em um dos mais fortes GPs Ipiranga da história, montado por Jorge Pinto. E o dia trágico, em que mancou definitivamente. Até hoje, tenho em minha mente a imagem do freio, Edson Ferreira, que substituiu Jorge Pinto, ajoelhado, chorando, ao lado de Boticão de Ouro, estirado na raia de grama. Posteriormente, foi feito enorme esforço para recuperá–lo para reprodução. Não foi possível.
Entre as experiências com craques paulistas, uma delas ficou para sempre nas minhas lembranças de garoto. Foram as exibições da poderosa craque, tríplice–coroada, Emerald Hill, do Haras Rosa do Sul, e os seus triunfos inigualáveis. Serena, cabeça baixa, e sem a mínima demonstração de ansiedade no galope de apresentação, Emerald Hill nem parecia estar ali, na raia do tradicional hipódromo paulistano, com uma multidão se acotovelando nas tribunas para vê–la em ação. Ela era a estrela absoluta do espetáculo. Mas, não parecia estar nem aí para isso. Correr, para a craque paulista, era mera formalidade. E assim aconteciam as suas vitórias. Invicta, ela ainda fez duas visitas à Gávea. Na primeira derrotou os melhores potros da nossa geração. Na outra, obteve o triunfo na 1ª prova da tríplice–coroa. Depois, foi para os Estados Unidos, para brilhar longe de nós, sem nunca ter sido derrotada aqui no Brasil nas suas nove saídas nas pistas.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
O potro tordilho, Regal Euros, da Coudelaria Monte Parnaso, foi apresentado em exuberante forma atlética por Roberto Morgado Neto. Lindo de morrer no galope de apresentação. E, na corrida, trazido com absoluta tranquilidade por Wesley Silva Cardoso demonstrou ter futuro promissor nas pistas. Mais um produto deste magnífico reprodutor, Agnes Gold, responsável por maravilhoso legado. Numa semana de boas apresentações, ninguém chamou mais a atenção dos observadores lúcidos e imparciais, como escreveria, se fosse vivo, Marcos Ribas de Faria, o eterno, "Escorial".
JOQUEADA DA SEMANA
Nas corridas cariocas tivemos bons momentos de vários jóqueis. Porém, nada parecido com o que o nosso Alex Mota resolveu aprontar na sua solitária visita ao Hipódromo de Cidade Jardim. Apelidado de "Borboleta" pelo colega recordista mundial, Jorge Ricardo, ele decidiu dar o ar de sua graça e flutuar graciosamente no dorso de Jobson, de criação do Haras Cifra, e propriedade do Stud Vale dos Reis, na Prova Especial Duque de Caxias. No campo da competição havia um único rival, Mañana Poderosa, do Haras Tuta. Alex ficou na última colocação, bem ao seu estilo, apreciando de forma privilegiada, e de camarote, o que se passa na raia. A cada passo do rival, ele fazia o mesmo com o seu pilotado. Isso aconteceu até os 800 metros finais. Neste segundo imediato, em que o jóquei rival acelerou, ele meteu a mão no freio, e pensou, "Calma amigo, ainda está cedo demais".
Mota estava com sono. Havia montado no dia anterior no Paraná. E, ainda por cima, tinha sofrido uma queda, do dorso da potranca, Kiki Eterna. Agora, em São Paulo, nos 400 metros finais do clássico, decidiu que era a hora de conquistar a vitória. Afinal, tinha passado em branco no Tarumã, e sentido muito frio atoa. Na hora de trocar o chicote de mão, entretanto, ele o deixou cair. Aí pensou. "Ainda bem que nem vou precisar dele. O meu cavalo ainda está inteiro e os outros devem estar cansados. Tiveram pressa demais".
E assim foi. Jobson dominou a prova sem luta, enquanto Roberto Casela narrava com emoção o desfecho da carreira, e, o comentarista, Lucas Meneses, se desmanchava em elogios ao piloto gaúcho, e embargava a voz, ao presenciar o momento mágico e genial. Mota limitou–se a pedir desculpas ao treinador, F. A. Loezer, que o olhou surpreso. "Me desculpe. O cavalo estava lindo. E eu dei bobeira e deixei o chicote cair. Quase jogo uma tremenda barbada fora". Um craque!
Na Gávea, a melhor direção da semana foi de Leandro Henrique, no dorso de Cantalona, do Haras Ereporã, e preparo de Adélcio Menegolo, na Prova Especial João Goulart. Simplesmente impecável. Enquanto o professor, Marcelo Cardoso, está de licença, o Alex Mota, que está temporariamente no seu lugar, pode passar os dois filmes para os alunos. O da Cantalona, e o do Jobson. Se ele omitir a perda do chicote, os aprendizes não vão nem perceber...
PERSONAGEM
O titular do Stud Happy Again, Maurício Teles, teve olho clínico ao convocar Muriel Silva Machado para montar os seus puros–sangues durante a suspensão rigorosa imposta ao seu piloto contratado, Henderson Fernandes. Muriel é um rapaz de boa família, lá do Rio Grande do Sul, sofre com problemas de peso, por sua grande compleição física para a profissão, mas possui talento e rigor para ter sucesso na carreira. Teve semana proveitosa com três vitórias, em direções precisas. Ice Chocolate e Jade Power somaram pontos para a coudelaria do craque George Washington, e, com Regal Hesperus, de Henrique Menegotto Lorea, foi preciso no percurso, feito um relógio suíço, e enérgico nos momentos decisivos da carreira.
