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Agosto | 2021

Páreo Corrido, por Paulo Gama
17/08/2021 - 13h38min

UM GP BRASIL REGADO COM LÁGRIMAS DE PAIXÃO

A história do Grande Prêmio Brasil de 2021 pode ser resumida em dois momentos simbólicos. Como se fosse uma peça de teatro, com apenas dois atos. No primeiro ato, alguns poucos segundos antes da largada da prova, o microfone do majestoso Hipódromo da Gávea foi liberado para o senhor Antonioni Pagoto. Emocionado, ele resumiu sua emoção em poucas palavras. O proprietário de Deep End, do Haras do Vale, um cavalo de 9 anos, aos cuidados do treinador Vítor Paim, foi inscrito na maior prova do turfe nacional. Ele falou do seu amor, desde os tempos de criança em Goiás, por cavalos de corrida e corridas de cavalos. Deixou bem claro, que o resultado da prova era o que menos importava naquele momento. O seu sonho de menino já estava realizado. 

Como um Don Quixote, a enfrentar Moinhos de Ventos imaginários, Antonioni tinha vindo de longe para realizar a façanha de ter um cavalo de sua propriedade no campo do GP Brasil. E ali, despido de qualquer vaidade, diante da alta sociedade carioca, com palavras simples, inundadas de paixão, ele deixou vazar em lágrimas contidas toda a sua emoção. As arquibancadas bateram palmas generosas para o ilustre desconhecido. Ele já era o vencedor do GP Brasil de 2021. Embora o seu cavalo não tivesse mínima chance de lhe proporcionar o troféu, de certa forma já o havia arrebatado. E o hipódromo, inundado de turfistas, compreendeu muito bem as suas palavras. No meio daquela multidão estavam outros com o mesmo sonho íntimo de Antonioni Pagoto, porém sem a mesma audácia do cidadão de Goiás. Deep End correu bem, e apesar de ter sangrado, chegou na 12ª posição, a frente de três competidores.

O segundo ato deste inesquecível Grande Prêmio Brasil foi escrito na raia de grama pesada do Hipódromo da Gávea pelo bicampeão, George Washington, um filho do extraordinário corredor e reprodutor Redattore, desaparecido recentemente. Um dos mais ilustres representantes da criação do Stud TNT, de Gonçalo Borges Torrealba. "Jorjão", como o craque do Stud Happy Again, é carinhosamente chamado por redeadores, cavalariços e a sua veterinária, Adriana Lioi, no Centro de Treinamento Vale do Marmelo, jamais nega fogo na hora da verdade. Nos exercícios matinais ou nas competições, o negócio dele é correr. Correr feito um louco, sem respeitar os cronômetros. Mais uma vez, George Washington acelerou rumo ao infinito para escrever o seu nome na história do turfe nacional. E foi assim que conquistou dois Grandes Prêmios Brasil e um Grande Prêmio São Paulo. Em desabalada carreira em direção à glória.

No pódio, ao receber a taça, Maurício Teles, deixou extravasar em lágrimas, a mesma emoção turfística do bravo Antonioni Pagoto, proprietário de Deep End, um coadjuvante do espetáculo. Só mesmo quem ama o turfe de paixão pode ter o entendimento das coisas. Maurício perdeu num acidente um irmão querido, e, alguns meses depois, outro irmão e a cunhada, para a Covid 19. Pensou em largar tudo, deixar os cavalos de lado e assumir a tristeza da fatalidade. Mas ele tinha na alma o amor incondicional por George Washington, que ele carinhosamente repete a plenos pulmões. "É a máquina mundial!".  Maurício sentiu–se acolhido pela comunidade turfística em meio a sua inconsolável tristeza. Juntou os cacos, seguiu em frente. Levantou a poeira e deu a volta por cima. Dedicou o triunfo conquistado aos saudosos irmãos, também turfistas, feito ele. Agora Maurício pode bater no peito. Afinal, ele é bicampeão do Grande Prêmio Brasil!

PERSONAGEM

Mais uma vez brilhou a estrela do treinador Luiz Esteves, ganhador de quatro, dos últimos cinco Grandes Prêmios Brasil disputados. Voador Magee, em 2017, Quarteto de Cordas, em 2018, e George Washington, em 2019 e 2021. Com o seu jeitão rústico e palavras diretas, o cearense nem sempre é líder de audiência e agrada a gregos e troianos. Agora, discutir a sua competência e o seu resultado é algo muito difícil. Na última temporada, depois de ganhar inúmeras provas de Grupo 1, e conquistar a tríplice–coroa com Janelle Monae, do Haras Santa Rita da Serra, ele começa o novo ano hípico, com uma trifeta no Grande Prêmio Brasil, George Washington, do Stud Happy Again, e Jackson Pollock e Mem Cade Ce, ambos de propriedade do Stud Verde. Ganhou também, os dois clássicos, Octavio Dupont e Ernani de Freitas, com Pura Plata e Impiedoso. Contra fatos não existe argumentos.

JOQUEADA DA SEMANA

Henderson Fernandes obteve a sua segunda vitória na maior prova do turfe brasileiro. A primeira aconteceu logo depois de passar a categoria de jóquei, recém saído da Escola de Aprendizes, com Belo Acteon, do Stud H & R, e preparo de Dulcino Guignoni, em 2011. O seu desempenho no dorso de George Washington foi impecável. Correu na expectativa, sempre aberto, como o seu pilotado aprecia, e, aos poucos foi se aproximando do pelotão de frente sem sofrer um prejuízo sequer. Parecia estar invisível aos demais, como se fosse um concorrente sem chance. Mas, na verdade, era o contrário. Na raia pesada, George Washington corre com desenvoltura absurda. Fernandes, um jóquei enérgico e ótimo largador, tem agregado as suas qualidades, um melhor percurso e mais serenidade. Nota 10 para ele no GP Brasil.

PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO

A apresentação da velocista In Essence, do Haras Santa Maria de Araras, no Grande Prêmio major Suckow, foi um esculacho. Brilhou a estrela e a competência de Christiano Oliveira, visivelmente emocionado depois do páreo. Num lote de ótimos especialistas das provas de velocidade, a craque reinou absoluta e não deu a menor chance aos adversários. Um dos pontos altos da semana máxima foi a exibição da corredora, bem conduzida pelo Bruno Queiroz, ganhador do Troféu Mossoró.

MENÇÕES HONROSAS

Cherie Vi, de criação e propriedade do modelar Haras Old Friends, teve apresentação de luxo do veterano Selmar Lobo. Ícone de sua profissão, Selmar trouxe em forma extraordinária a sua pensionista. José Aparecido, um jóquei com todas as armas, esteve impecável em seu dorso. Frio, meticuloso e preciso, esperou a passagem aparecer para sua conduzida, que já sobrava nas patas das rivais. Qualquer precipitação ou ansiedade poderia pôr tudo a perder. 

Olívio Zantedeschi brilhou na apresentação de Dashing Court, do Haras Cima. Depois de um início de campanha avassaladora, o filho de Courtier sofreu com problemas de hemorragia. O tempo levado para recuperar todo o seu potencial provocou amnésia nos turfistas. Pela volúpia e desenvoltura nas primeiras vitórias, jamais poderia conquistar a milha internacional com rateio tão elevado. Alexandre Correia o conduziu com serenidade. Zantedeschi é profissional de alto gabarito. 

Mário André apresentou Fiona do Jaguaretê, do Stud Jaguaretê, em perfeito estado atlético. Fez inscrição inteligente na Prova Especial Tirolesa, quando sua pensionista havia chegado agarrada em Cidade Jardim, com Cherie Vi e Muguruza, que optaram pela prova de Grupo 1. Barbada na grama, a chuva provocou mudança de pista. E lá foi ela correr na lama, onde rende muito menos. Jorge Ricardo baixou a biblioteca e ela passou na frente. Muito justo.

Wil Myers, do Stud Ajato, e criação do Haras LLC, não tomou conhecimento dos adversários no GP Cidade Maravilhosa, Grupo 3. D. Antunes trouxe o filho de Kodiak Kowboy em forma magnífica, e André Luís Silva teve pouco trabalho para obter o triunfo mais fácil da semana do Grande Prêmio Brasil. Pela exibição dada, em breve, Wil Myers pode enfrentar a turma da pesada com chance de derrota–los. Um show!

Amanhã falaremos dos clássicos da segunda–feira gorda.



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