As pistas dos hipódromos brasileiros estarão vazias neste primeiro domingo de agosto. Logo hoje. Durante longos anos, estes domingos proporcionaram incontáveis emoções aos turfistas brasileiros. A data era sinônimo do dia da realização do Grande Prêmio Brasil. Ao contrário de hoje, em que o Hipódromo da Gávea estará silencioso, inóspito, sem emoção, e sem o alarido das multidões. Naqueles tempos, haviam lindas mulheres de vestido longo, com chapéus extravagantes, perfume francês e cabelos cuidadosamente cacheados, ao sabor do vento nas arquibancadas. E, os homens, com ternos cuidadosamente cortados por alfaiates talentosos. As gravatas novas, escondidas por meses nos armários, saiam de lá direto para estrear na Tribuna Social. Pela manhã, de frente ao espelho, só então eram resgatadas e finalmente colocadas no pescoço para entrar em ação no primeiro domingo de agosto.
Os personagens ilustres e os famosos, se acotovelavam nas arquibancadas, ao lado dos heróis anônimos, frequentadores habituais, acostumados a rotina das corridas de cavalos. Este primeiro domingo de agosto tinha o seu próprio ritual. E cada turfista levava muito a sério a sua presença no hipódromo. A expectativa de estar no evento e dividir espaço com os aficionados exigia religioso ritual de preparação. O primeiro domingo de agosto não era um dia qualquer. Claro que não! Era o dia mais importante do ano para toda aquele brasileiro que tem no peito o amor incontestável pelo puro–sangue de corrida. Aquele turfista com plena consciência do espaço que este esporte ocupa em sua própria vida. O indivíduo que sente orgulho de amar os cavalos e de saber como seria bem menos feliz se eles não existissem.
No dia 1º de agosto de 1982, eu completava 24 anos. Gourmet, do Haras Ipiranga, ganhou a prova, de ponta a ponta, montado por Juvenal Machado da Silva. Para mim foi um domingo glorioso. O meu casamento seria um mês depois, em setembro, e meu primeiro filho já estava encomendado. Fiz a maior aposta num cavalo de corrida de toda a minha vida. Tinha certeza da vitória. Tudo deu certo. Gourmet ganhou disparado montado pelo mestre Juvenal. Hoje, 39 anos depois, só haverá silêncio naquela imensidão do prado carioca. No mesmo lugar em que dei aqueles gritos eufóricos, embalados pela voz do saudoso locutor, Ernani Pires Ferreira, e do seu mais famoso bordão: "E lá vem o Juvenal!
No próximo dia 15 de agosto, também um domingo, estarei apenas 15 dias mais velho. Porém, com o mesmo otimismo e a esperança de que seja possível resgatar toda a magia, o encantamento e a paixão turfística pelo Grande Prêmio Brasil. Que venha um domingo barulhento e acolhedor. Sem a saudade inexorável de hoje, este melancólico 1º de agosto de 2021...
Por Paulo Gama