O triunfo de In Copa, do Stud Ilse, no nono páreo de ontem a tarde, na Gávea, teve simbolismo especial, e comoveu toda a comunidade turfística. No programa oficial estava estampado o nome do treinador Marcos Ferreira, falecido 24 horas antes. Entre lágrimas e abraços de solidariedade dos amigos e parentes, aconteceu a foto da vitória. Muitas estranhas coincidências. A farda do Stud Ilse, que sempre apoiou o profissional. No dorso do puro–sangue vencedor, In Copa, Valdinei Gil, o jóquei predileto de Marquinhos. Gil esteve afastado das competições por algumas semanas para uma intervenção cirúrgica. Por aquelas inexplicáveis ironias do destino, voltou a tempo de homenagear o amigo.
Impossível não vir a minha mente naquele segundo, a extraordinária história de El Cid, o herói espanhol das Cruzadas. No cinema, no filme estrelado por Charlton Heston e Sofia Loren, o exército, comandado por El Cid, está concentrado numa planície, pronto para a última e decisiva batalha. A superioridade bélica e de guerreiros é absurdamente favorável. Apenas a noite os separa do triunfo inexorável. Mas, o que nenhum soldado sabe, é que o comandante carismático está ferido mortalmente. E ele, num gesto de generosidade e valentia, em conversa com a mulher e o imediato, seu braço direito, ordenou.
"A vitória é nossa. Mas a notícia da minha morte pode abater a moral da tropa pela manhã. E aí, o impossível pode acontecer, a nossa derrota. Se o meu coração parar de bater, durante a madrugada, vocês colocam o meu corpo dentro da armadura, fecham o elmo, amarram a minha espada no meu braço. E aí, me colocam em cima do cavalo. A euforia será tanta, que os soldados nem vão perceber que o comandante está morto", determinou. E foi o que aconteceu. Diante dos gritos histéricos dos soldados, em busca da vitória, o exército de El Cid marchou para o triunfo comandado por um herói sem vida. Porém, com a valentia, a galhardia e a imortalidade inerentes aos homens que ajudam a escrever a história da humanidade.
Com certeza, ontem à tarde, no hipódromo carioca, durante a reta final do nono páreo, Marcos Ferreira estava invisível para nós, ao contrário de El Cid, para os seus soldados. Ele era visto, mas não estava mais ali, em vida. Com Marcos Ferreira foi diferente. A gente não conseguia vê–lo. Entretanto, não tenho a menor dúvida, de que ele estava ao lado de V. Gil. E marchou com ele, no dorso de In Copa, rumo a imortalidade...
Por Paulo Gama