A RENOVADA EMOÇÃO COM AS TRÍPLICES–COROAS
Por 12 vezes, na história do turfe carioca, um potro de três anos conquistou a glória eterna de ser tríplice–coroado. Talvez, em 1940, foi o primeiro. Depois vieram, Criolan, no ano seguinte (1941), Quiproquó (1952), Timão (1955), Escorial (1959), African Boy (1979), Old Master (1984), Itajara, (1987), Groove (1996), Super Power (2000), Plenty of Kicks (2012), e Bal A Bali (2014). De African Boy, até Bal A Bali, pude ser testemunha ocular de sete membros desta gloriosa galeria de craques. No triunfo de Escorial, em 1959, eu tinha apenas 1 ano de idade. Portanto, estava fora do páreo.
Há um traço em comum nos sete tríplices–coroados que tive o privilégio de ver em ação. A incrível capacidade de aceleração. A versatilidade de todos estes potros para abordar os diferentes percursos. A competência de seus treinadores no seu preparo atlético, no curto espaço de tempo entre uma prova e outra. E, além disso, o talento, a estrela e a capacidade de concentração dos seus jóqueis. Afinal, num momento mágico para os criadores e proprietários destes craques, se faz necessário ter no comando das rédeas profissionais de gabarito e de coragem para resistir à pressão pelo triunfo, que vem de todos os lados.
African Boy pertenceu a uma geração mágica dos Haras São José e Expedictus, da família Paula Machado. No mesmo lote nasceram Aporé, Amazon, Aragonais, Aporema, Anglicano e a fantástica Apple Honey. Todos ganhadores clássicos. Era um animal de incrível velocidade inicial e resistência hercúlea nos momentos decisivos, depois de ter imprimido ritmo forte e com parciais expressivos. Sentia–se muito à vontade na raia pesada, e construiu, de ponta a ponta, a sua inesquecível caminhada rumo a tríplice–coroa. O freio Edson Ferreira era o seu piloto.
Old Master, do Haras Santa Maria de Araras, foi devolvido num dos leilões da coudelaria, e acabou ficando em casa, com a farda da importante coudelaria. De mero refugo, no início de campanha, transformou– se num ícone de sua geração. Francisco Pereira Filho era o seu jóquei e o saudoso, Wilson Pereira Lavor, treinador de mão cheia, responsável por seu preparo. Além das três provas da coroa, levantou o Clássico Latino–americano de Jockeys Clubs, disputado na Gávea. No meu início de carreira, como repórter do Jornal do Brasil, recebi de presente uma de suas ferraduras utilizadas na prova, gentilmente cedidas por Wilson, emocionado com a crônica escrita por mim no JB. Bons tempos aqueles. Tínhamos uma página de turfe diariamente. Há 36 anos atrás. Como era bom ter apenas 26 anos...
Em 1987, surgiu o fenômeno Itajara. O melhor de todos. Jamais tive a oportunidade de ver um puro–sangue correr tanto. Nos matinais da Gávea, todos paravam para vê–lo trabalhar. E ele não decepcionava a ninguém. Fazia 60s nos 1000 metros, 1m38s nos 1600, 1m19s, nos 1300, e por aí a fora. Sempre de galope. Não fazia força para correr. Era mera formalidade. Nas corridas, esmagava os rivais como se brincasse de correr. Uma força da natureza. A mídia da época abriu espaço generoso para ele. Os jornais escreviam sobre Itajara. As televisões mostravam as suas vitórias históricas, sempre por vários corpos. O saudoso locutor, Ernani Pires Ferreira, deitava e rolava, nos domingos à noite, no Programa "Fantástico", da Rede Globo. "Itajara tirou uma avenida na frente! Um fenômeno! Um craque extraordinário! ", berrava a plenos pulmões. E saía gente de tudo que era canto da cidade para conhecer o tal Itajara. As crianças queriam tocar nele. Saber se ele era mesmo de verdade. Tríplice–coroado, ele foi o maior garoto–propaganda do esporte no Brasil em todos os tempos.
Em 1996, a dupla Jorge Leme e Cosme Morgado Neto, jóquei e treinador de Groove, de criação e propriedade de Gilberto Luiz Koppe, brilhou intensamente e teve importância fundamental para que o castanho, filho de Emmson e Boa Moça, chegasse a tríplice–coroa. Veloz, valente e resistente, Groove era osso duro de roer quando assumia a dianteira. E foi nesse estilo, aceitando a briga com tudo e com todos, que chegou lá, numa geração de bons corredores.
Super Power, do Stud Rio Aventura, montaria do lendário, Juvenal Machado da Silva, Plenty of Kicks, do Stud São Francisco da Serra, e Bal A Bali, do Stud Alvarenga, foram os últimos tríplices–coroados do turfe no Rio de Janeiro, em 2000, 2012 e 2014, respectivamente. Nelson Marinho, treinador de Super Power, há muito tempo não exerce a profissão. Juvenal se aposentou. Jorge Ricardo, jóquei de Plenty of Kicks, já estava radicado no turfe argentino, quando obteve a sua primeira tríplice–coroa, no dorso do craque treinado por Júlio César Sampaio. Dulcino Guignoni, ganhador de duas tríplices–coroas de potrancas, com Virginie e Be Fair, brilhou no preparo de Bal A Bali, na sua primeira coroa com a ala masculina. Vagner Borges, o seu piloto, hoje está radicado no turfe de Hong Kong. No próximo domingo, a festa continua. E o tempo passa. E o tempo voa...
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Logan Acteon, do Stud HRN, foi apresentado em forma exuberante por Dulcino Guignoni. Dominou com estilo a Prova Especial Falcon Jet, com direção precisa de Valdinei Gil. Fez lindo galope de apresentação e se impôs com belo esforço final. Deve ser observado com atenção nos próximos compromissos em distancias de fundo. O treinador é um especialista e o piloto também.
JOQUEADA DA SEMANA
Valdinei Gil esteve impecável no dorso de Non Merci, de criação e propriedade do Haras Figueira do lago, na Prova Especial Virginie. Acompanhou de perto o ritmo das mais velozes e se fingiu de morto. Dominou o páreo, aos poucos, de menos para mais. Tipo, na conta do chá. Bem levada por Dulcino Guignoni, a pequenina Non Merci comprovou ter coração grande e vocação para correr. Está em nítida evolução.
PERSONAGEM
Bruno Queiroz é o profissional mais comentado do momento. Uns elogiam. Outros não se conformam com o seu sucesso. O certo mesmo é que ele veio para ficar. Na semana em que recebeu rigorosa suspensão de 30 dias, por imprudência, o que pode lhe custar a estatística, ele deitou e rolou nas pistas da Gávea. Bom menino. Bom jóquei. Trabalhador. Educado. Tem os arroubos da juventude. Coisa normal, todos nós os cometemos. Uns são seus fãs. Outros torcem contra ele, por que preferem Leandro Henrique. Tudo normal. A vida é assim. Nos tempos de Juvenal e Ricardinho era a mesma coisa. As torcidas se odiavam. Eles eram amigos.
Os fãs têm certeza que precisam optar. Ou um ou outro. Tremenda bobagem. Coisa tipo Flamengo ou Vasco. Fora da raia, Juvenal e Jorge Ricardo se falam por telefone até hoje. Se preocupam se o outro está bem. A rivalidade sempre foi apenas esportiva. Na verdade, Bruno e Leandro são profissionais. Vivem e ajudam as suas famílias com o trabalho. Com o tempo vão amadurecer. E aí, param de cometer estes deslizes. Imprudências, atitudes inconvenientes, enfim, estes delitos da juventude. Insuficientes para embaçar o tremendo talento que os dois jovens pilotos possuem. Parabéns Bruno Queiroz. A resposta do profissional sempre tem de ser dada na raia. Tititi é para a galera. Nas pistas, nenhum turfista pode lhe ignorar. Parabéns também a Leandro Henrique, "O braço de mola". Discreto, calado e limpo para correr. Não sou eu que digo isso. São os próprios colegas de profissão.
