O TURFE E A INEXORÁVEL HERANÇA DE SANGUE
O protagonista no turfe é sempre o puro–sangue inglês. E tudo gira em torno da herança sanguínea transmitida pelos reprodutores e matrizes aos seus descendentes. Baseado nesta genealogia básica, o rumo individual de cada produto é programado pelos criadores e proprietários. E, com raras exceções, os filhos apresentam as mesmas características de correr e preferência de raia comuns as demonstradas anteriormente por seus pais nas pistas dos hipódromos. Por incrível que pareça, através dos anos de militância turfística, pude perceber que o mesmo acontece com relação aos profissionais de turfe, sejam jóqueis, treinadores ou cavalariços. Os filhos destes trabalhadores, muitas vezes recebem o legado dos seus pais, dentro de casa, nos primeiros anos de vida, e dão continuidade aquele serviço particularmente ligado ao cavalo de corrida. Assim temos a descendência ratificada.
O saudoso Antônio Ricardo, um dos melhores de todos os tempos, desde cedo passou para Jorge Ricardo os segredos da arte de montar. O mesmo aconteceu com várias famílias de treinadores. Os clãs dos Morgado, Feijó, Ulloa, Paim, Coutinho, etc. No segundo páreo, de ontem à tarde, no prado carioca, este fenômeno cultural, e também social, aconteceu diante dos meus olhos. Dona Vera, esposa de Luiz Arthur Fernandes, e mãe de Luiz Felipe Fernandes e de Luiz Artur Fernandes Filho, ambos treinadores, estava ao lado deles, no hipódromo. Na raia, o potro Ile Au Tresor, criado no Haras Santa Maria de Araras, e de propriedade de Luiz Henrique Flores dos Santos, fazia o galope de apresentação. O filho de Put It Back estava lindo de morrer, porém um pouco nervoso.
Arturzinho, ansioso, esfregava as mãos com ansiedade. Dona Vera justificava para mim a enorme expectativa do filho. "É muita responsabilidade treinar um potro tão bom como este". Luiz Felipe sumiu de repente. Foi assistir o páreo em outro lugar. Talvez na Tribuna. Não sei. Ile Au Tresor largou bem e acompanhou o páreo aos saltos. Jorge Ricardo assumiu a dianteira e o triunfo veio com autoridade. Os amigos berravam e se abraçavam a Arturzinho. Luiz Felipe apareceu aos berros em direção a balança, na Repesagem. Não pude evitar a imediata viagem no tempo. Quantas vezes eu já tinha visto aquela mesma euforia e gritaria protagonizada, há 30 anos atrás, pelo pai destes jovens, que eram então apenas crianças. Agora, eles estão ali. Adultos, casados, e com a mesma paixão do pai. Um treinador que passou para eles não apenas este dom maravilhoso de cuidar de cavalos. Mas, acima de tudo, a paixão e alegria incontroláveis de todos nós turfistas. A sensação indescritível de acertar um páreo. Parabéns, amigo Luiz Artur. Os garotos, fique tranquilo, vão muito bem, obrigado.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
José Ferreira dos Reis brilhou na apresentação de Jersey Cat, do Stud Guararapes. Ninguém passou mais bonito do que ele no galope de apresentação. Na raia um passeio na parceirada do filho de Discreet Cat. Reizinho tem amadurecido cada vez mais na profissão e os seus cavalos estão sempre muito bonitos. Jorge Ricardo teve muito pouco trabalho para marcar mais um ponto.
JOQUEADA DA SEMANA
Bruno Queiroz esteve frio, preciso e sóbrio no dorso de Raquel’s Story, do Stud Eternamente Rio e bem apresentada por Marcos Ferreira. Ciente do perfeito estado atlético de sua conduzida, Bruninho não se preocupou com a disparada dos mais velozes. Trouxe a sua pilotada na hora certa e comemorou mais uma taça na prateleira de sua casa. Apesar da pouca idade, ele demonstra amadurecimento rápido, ou talvez seja melhor dizer precoce, para um profissional tão jovem. Este vai longe...
PERSONAGEM
O que dizer deste incansável atleta, que aos 59 anos, e 13.024 vitórias, novo recorde mundial, comparece a todos os matinais da Gávea, sempre o primeiro a chegar e o último a sair? Jorge Antônio Ricardo é um ídolo do turfe incomparável. Amor incondicional pela profissão. Exemplo para os aprendizes e alunos da escolinha. Orgulho para todos nós turfistas, que temos o privilégio de presenciar as suas intermináveis façanhas. Um mito do esporte nacional.
SÃO PAULO
Muito boa a programação clássica desta semana, no Hipódromo de Cidade Jardim. Destaque para o Grande Prêmio Governador do Estado, em 1.600 metros, na grama, e para a Copa Japão de Turfe, no mesmo percurso, para éguas de 3 anos e mais idade. Na programação do dia 28 de novembro ainda serão corridos o Clássico Luiz e José Vieira de Carvalho Mesquita, em 2000 metros, na grama, e a Prova Especial Northon, em 2.200 metros, na areia, para produtos de 3 anos e mais.
