ALBÊNZIO BARROSO, O FEITICEIRO, NOS DEIXOU...
Lamentavelmente, esta semana, o turfe brasileiro perdeu um dos seus maiores astros das rédeas, Albênzio Barroso, cujo apelido entre os turfistas de Cidade Jardim, era "O Feiticeiro". Para quem acompanhou a sua trajetória nas pistas nacionais, sobretudo, no hipódromo paulistano, onde reinou absoluto por longos anos, era difícil imaginar a sua derrota em algum páreo. Infelizmente, depois de muita luta, ele perdeu a corrida contra o câncer. Barroso começou a sua carreira na Gávea, onde foi um dos melhores alunos da Escola de Aprendizes. Porém, surgiu a oportunidade de se transferir, ainda garoto, para o turfe paulista. Começava uma gloriosa e insuperável carreira no Hipódromo de Cidade Jardim.
No prado paulista, ele ganhou ao todo 19 estatísticas, montou para todos as principais coudelarias do turfe nacional e escreveu o seu nome na galeria das provas mais importantes do calendário clássico. Era um jóquei de características singulares. Fácil de explicar. Barroso não era o melhor em nenhum dos principais fundamentos, mas dominava todos eles muito bem. Conheci jóqueis que batiam melhor de canhota do que ele, outros que eram mais espertos na largada, alguns com o percurso mais perfeito, outros ainda, com maior rigor. Porém, o Feiticeiro fazia tudo isso bem, e ainda possuía uma estrela para ganhar corridas do tamanho de um bonde.
Barroso sempre foi um indivíduo discreto, correto e dono de cativante bom humor. O povão gostava dele. Principalmente, depois de se popularizar com incontáveis triunfos, e ser convidado para fazer uma propaganda do conhaque Dreher na televisão. No anúncio, ele entrava na pista montado num tordilho muito feio e de cabeça baixa. Autêntico matungo. Na cerca, antes do galope de apresentação, um turfista, dirigia a ele uma frase famosa, que assegurou o sucesso do reclame na mídia; "Quero ver você ganhar com esse Barroso? ", numa alusão a sua incrível capacidade de vencer a maioria dos páreos em que montava. Até mesmo com os pangarés.
Albênzio Barroso montou craques inesquecíveis como Off The Way, Heracleon, Kenético e Ramirito, entre outros. Lembro de uma deliciosa passagem, que vivi com ele, numa edição da Copa ANPC, em que venceu com Ramirito, do Stud José Adamian. Na véspera da corrida, saímos para jantar com os proprietários do cavalo, o treinador João Luís Maciel, e Jorge Ricardo, que montava o maior adversário na prova, Falcon Jet, do Haras Santa Ana do Rio Grande. Fomos a um restaurante de massa, do próprio hotel. Maciel, que treinava os dois cavalos, eu, e os dois proprietários de Ramirito, Levon e João Ceciliano, todos jantamos. Os jóqueis não. Ricardinho pediu apenas um Carpaccio e um guaraná diet. Barroso, ao meu lado, não quis comer, mas logo engrenou uma série de nove doses de uísque.
Lá pelas tantas, interrompi sem jeito a sua escalada etílica, e observei. "Barroso. Este cavalo, Ramirito, é muito bom. Mas, ele é muito bravo, e alguns jóqueis lá da Gávea já passaram maus momentos por que ele dispara. Acho melhor você maneirar no scotch", falei baixinho para ele. Ricardinho ouviu e olhou de cara amarrada para mim, como se dissesse. "Fica quieto. Este cara monta o meu adversário. Deixa ele beber todas ". Barroso percebeu que eu estava com boa intenção e não falei por mal, e respondeu. "Garotão. Eu vi todas as corridas do cavalo. Ele é uma máquina. Vou largar e deixar ele andar. Amanhã, eu acordo cedo, tomo uma ducha bem gelada e, já no primeiro páreo, vou estar tinindo".
Não deu outra. Logo no primeiro páreo, Barroso montava um cavalo veloz e largava na baliza 1. Dada a partida, ele tomou a frente, num páreo de campo numeroso, brigou com deus e o mundo, e venceu com uma pule alta. Não acreditei no que vi e pensei. "Este cara tomou nove doses no jantar, depois ainda bebeu mais seis delas no Café Photo (melhor casa de strip–tease em São Paulo da época), e ganha um páreo desse! ". Nada demais. O melhor estava por vir. Mais tarde, na Copa ANPC, ele tomou a ponta, Ramirito parecia um cordeiro com sua competente mão de e rédea e conseguiu aparar a atropelada violenta de Falcon Jet e vencer por pescoço. Ao fundo, eu podia ouvir a voz de João Maciel na Tribuna dos Profissionais, "E faz correr Barroso, que é ponta e dupla da casa".
GÁVEA
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO – No GP Doutor Frontin, Luís Esteves trouxe em forma espetacular o ganhador do Grande Prêmio Brasil, George Washington, do Stud Happy Again, que foi abandonado nas apostas. Direção impecável de Marcelo Gonçalves, que vive a melhor fase de sua carreira. O treinador vem de três vitórias consecutivas na maior prova do turfe nacional com Voador Magee, Quarteto de Cordas e o próprio George Washington. Parece estar disposto a obter o tetracampeonato.
JOQUEADA DA SEMANA – Waldomiro Blandi esteve impecável no dorso de Olympic Icecream, do Stud BL/Regina, no Clássico Eurico Solanês. Aproveitou cada centímetro do percurso para alcançar o favorito Dark Bobby, do Stud Stabile/Quintela, mais uma vez, em cima do disco. Preparo como sempre perfeito de Roberto Solanês, neto do patrono da prova, no percurso onde é o maior especialista do turfe nacional, a milha.
CIDADE JARDIM
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO – Hevea, de Telmo Nunes Estrella, nunca correu tanto em sua campanha como tem feito nas suas últimas carreiras em Cidade Jardim. Preparo perfeito de Valter Santos Lopes, e direção inspirada de Nelson Alexandre Santos. Uma linda vitória, num páreo com alto grau de dificuldade.
JOQUEADA DA SEMANA – Fernando Larroque, o campeão da estatística do turfe paulistano, baixou a biblioteca no dorso de Mañana Poderosa, do Stud Tuta, e preparo de S.S. Leite. Confiança é a palavra chave na profissão de jóquei. E, hoje em dia, ninguém possui tanto este predicado como o campeão do ranking.
BELMONT PARK – O que este porto–riquenho, Irad Ortiz Jr, faz no dorso de um cavalo de corrida é inimaginável. No sábado à tarde, 4 de julho, dia da Independência dos Estados Unidos, ele decidiu comemorar a data e brindar a boa acolhida que recebeu em Nova Iorque. Foram quatro triunfos, através de Charlotte Webley, Fortin Hill, Dante’s Fire e Instilled Regard, a última delas antológica, sob fervorosos aplausos do exigente público turfista norte–americano. Recomendo a todo turfista acompanhar os seus passos, semanalmente, no simulcasting internacional. É mais ou menos, como ver os jogos do Barcelona, por causa do Messi.
