JOÃO DA JANDINHA, HOMENAGEM A UM TURFISTA APAIXONADO
O potro de dois anos, João da Jandinha, propriedade do Stud J. Lírio Aguiar, e criado no modelar Haras Santa Rita da Serra, mostrou ter aptidão para o ofício ao vencer o sexto páreo, de ontem à tarde na Gávea. Direção tranquila de W. Xavier, e apresentação perfeita do campeão da estatística, Leonardo José Reis. O nome de batismo do filho de Agnes Gold foi dado pelo próprio criador, Afonso Burlamaqui, para homenagear João, um saudoso turfista da década de 60, que possuía uma égua razoável chamada Jandinha. João gostava tanto dela, que semanalmente batia o ponto na cocheira de Guilherme Ulloa, o seu treinador. Perguntava se ela havia comido toda a ração, se os aprontos tinham sido bons. Enfim, nutria enorme carinho por ela.
Turfista assíduo do hipódromo carioca e bastante popular, João era também boêmio inveterado e fazia parte de uma roda famosa na Zona Sul do Rio de Janeiro, frequentadora fiel do restaurante Degrau, um do mais tradicionais do Leblon, até os dias de hoje. Além do próprio João, o grupo era formado pelo treinador Gonçalino Feijó, o jornalista Haroldo Barbosa, o inesquecível "Pangaré", que tinha coluna sobre turfe no jornal "O Globo", e os turfistas Ronaldo Niterói e Eduardo Manhães. Era uma turma barulhenta, alegre e espirituosa, que amava as corridas de cavalos.
Jandinha era uma égua de pequeno porte, sem muito talento para corrida, mas João gostava dela como se fosse um membro de sua família. A turma o zoava bastante quando ela aparecia no programa para correr. Mas João nem dava bola. E sempre demonstrava alguma confiança na sua vitória. João da Jandinha faleceu há alguns anos. A maioria da turma, a exceção de Ronaldo Niterói, também. Mas ele deixou de herança, para os três filhos, Fernando, Sérgio e João, a mesma paixão pelo turfe. Por causa do nome do potro, homenagem singela ao seu pai, eles tentaram arrematá–lo no leilão do Haras Santa Rita da Serra. Não foi possível. Perderam o último lance para o Comendador J. Lírio Aguiar.
Apesar disso, acompanharam com interesse a sua estreia, em que finalizou na segunda colocação. E ontem, em Niterói, vibraram com o seu triunfo, como se ele os pertencesse. Ao cruzar o disco, W. Xavier deixou que João da Jandinha corresse até a seta dos 1.600 metros. Era uma nítida demonstração de que a próxima atuação será num percurso maior. Talvez, quem sabe? Numa prova de grupo 1, daqui a um mês, contra os melhores da geração. Ousadia? Com certeza. Mas o saudoso João da Jandinha, que lhe emprestou o nome, tinha como referência no turfe uma frase famosa, de Heitor de Lima e Silva, o Bolonha, "A história não fala dos covardes! ".
DESTAQUES NA GÁVEA
PERSONAGEM – Christiano Oliveira repetiu a série de vitórias da semana anterior, em que somou pontos com Hi Butterfly, In Your Dreams e Idle Ways. Desta vez, o treinador conseguiu brilhar I Believe That, If Looks Like, no GP Adayr Eyras de Araújo, In Essence, no domingo, e Permiso Roman, na segunda–feira. Com maturidade, competência e simplicidade, Christiano tem construído carreira profissional a ser respeitada. Uma pena que o meu saudoso amigo, Adail Oliveira, tenha partido tão cedo e não esteja podendo testemunhar e desfrutar do sucesso do filho talentoso.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO – O experiente e consagrado, Dulcino Guignoni, deu um show na apresentação dos seus potros no Grande Prêmio Conde de Herzberg. Nepal, do Haras Figueira do Lago, foi o ganhador, numa exibição de gala. Porém, não deve ser subestimada a estreia de I Saw Everything, do Stud H&R, o quarto colocado. O galope de apresentação dos seus dois pensionistas não deixou dúvida de que estavam prontos para o combate. E foi o que se viu na raia. É bom ficar de olho também em Playa Los Ingleses e Illeso, outros nomes promissores no placar.
JOQUEADA DA SEMANA – Nas idas e vindas do bridão Waldomiro Blandi, com a farda do Haras Figueira do Lago, sempre acontecem coisas boas e vitórias sensacionais. O veterano piloto parece melhorar a cada ano que passa. Fez percurso impecável, frio e calculado. E, depois de tantas vitórias importantes no seu currículo, deu gosto de ver o entusiasmo e a sua alegria incontida com o triunfo. Um profissional de alto gabarito, que merece o reconhecimento por parte de toda classe turfística. A sua alegria e prazer de montar é contagiante. Deve servir de exemplo aos garotos, que se iniciam nesta difícil, árdua e perigosa profissão.
STUD EMBALAGEM – Muito querido no meio turfístico, Chicão, titular do Stud Embalagem, pode vibrar no último sábado com duas vitórias de puros–sangues de sua criação e propriedade. Intergaláctico mostrou ser de corrida e obteve bela vitória. E mais tarde, foi a vez de Hamit Bey, outro produto de seus primeiros passos na criação.
FESTIVAL ABCPCC – Sábado, no Hipódromo de Cidade Jardim, em São Paulo, teremos o Festival da Associação Brasileira de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida (ABCPCC), um evento magnífico, que reúne anualmente a nata do turfe, e conta com a presença dos principais criadores e proprietários do país. Uma pena, que pela primeira vez na história, será realizado com os portões fechados. Porém, a indiscutível qualidade dos campos das provas e, principalmente, a excepcional premiação, compensarão, em parte, os tempos difíceis enfrentados por toda classe turfística. Nota 10 para o arrojo e a competência da Associação.
DESTAQUES DE SÃO PAULO
Royal Forestry, do Stud Fenômeno, contou com apresentação de luxo do treinador, J. César (PR). Deu um vareio no GP Júlio César Ferreira de Mesquita. Entre aa direções dadas pelos pilotos agradou bastante a personalidade e a precisão da joqueta Jeane Alves, no dorso de Intergaláctico, do Stud Embalagem. É uma profissional de indiscutível valor e deveria ter mais e melhores montarias. O personagem da semana paulista foi Afonso Flório Barbosa como preparo sensacional de Nhoquin, do Haras Phillipson, no GP General do Couto Magalhães. É um especialista em preparar cavalos de fundo. Por isso, apresentou o novo Rei da raia paulista.
TIZ THE LAW – Impossível não escrever pelo menos umas poucas mal traçadas linhas sobre este craque chamado Tiz The Law, ganhador do Belmont Stakes. Que facilidade para correr! Que aceleração fantástica! Um privilégio para o mais exigente turfista vê–lo correr. Se tudo correr bem, o turfe americano terá um tríplice–coroado em 2020.
