A PAIXÃO REPRIMIDA NOS TEMPOS DO VÍRUS
Na rotina de todo o ser humano existe um fator primordial para ser feliz: deixar fluir a paixão interior. Trata–se de uma energia especial que vem do fundo do coração. Algo parecido com um fluxo inexorável de um rio. Da nascente até o desaguar, o último destino, ele possui um curso bastante pessoal. Às vezes, este curso é acidentado pelas escolhas do livre arbítrio. Em outros momentos precisa ser resignado, devido a necessidade de superar obstáculos. Porém, este trajeto sinuoso de cada alma esta absolutamente convicto da missão de sua existencia.
Os turfista cariocas navegavam em águas tranquilas. Cada um no desempenho do seu papel na engrenagem das corridas. De repente, sem pedir licença, surgiu o coronavírus. O equilíbrio do sistema turístico do Rio sofreu um abalo sísmico. Um terremoto na vida dos proprietários de cavalos. Sem prêmios por vitórias e colocações, mas com o compromisso de pagar o trato no final do mês. Um desastre para jóqueis e treinadores, sem as comissões para o sustento das suas famílias. E um tremendo desalento para os turfistas, órfãos das carreiras, a sua grande alegria do dia a dia. Vale lembrar, que a maior parte desses turfistas, possuem alta faixa etária. Portanto, estão na reta final de suas vidas. Alguns trocaram o estudo do retrospecto por palavras cruzadas. Outros por ver filmes no telecine e no netflix. Eles passaram a viver sem a adrenalina das corridas.
A quarentena tem sido impiedosa na rotina do turfista. De uma hora para a outra foi preciso abrir mão da expectativa pela largada dos páreos. Da tensão de procurar o cavalo apostado no percurso. De viver a ansiedade da espera pelo resultado de um photochart. Enfim, ficar sozinho em casa conformado em trocar ideias com as paredes. Com certeza, para o turfista carioca, este é um período dos mais sofridos de sua vida. Por telefone, o veterano turfista, Armando Bastos, o popular "gravatinha", resumiu para mim, na sabedoria dos seus 84 anos, o sentimento sombrio das últimas semanas sem corridas.
"Este é o momento mais triste desde que me entendo por gente. Perdi a minha maior alegria de ir à Gávea para ver as corridas ao lado dos meus amigos. Não vejo a hora desse pesadelo chegar ao fim", desabafou com a autoridade de quem frequenta o hipódromo há mais de 70 anos.
