OS PROTAGONISTAS DO PRIMEIRO SEMESTRE NA GÁVEA
O turfe carioca teve o seu primeiro semestre do ano hípico concluído na reunião de ontem à noite, no Hipódromo da Gávea. Foram meses turbulentos. Afinal, os dirigentes do Jockey Club Brasileiro tiverem que lidar com o divórcio amigável com a PMU. Separação é sempre difícil, mesmo quando ela não é litigiosa. A transição aconteceu de forma gradativa e silenciosa. Porém, apesar do pouco burburinho, a nova realidade trouxe mudanças nas apostas, com o nascimento da Seguidinha, acumulada de três páreos consecutivos, a extinção da tradicional Acumulada de Vencedor, e a alteração nas comissões das apostas, a mais significativa, a diminuição de 100% para 80% no Pick 3, a modalidade favorita dos apostadores.
O turfe, entretanto, é um esporte apaixonante, e os seus aficionados, principalmente os proprietários de PSI, enfrentam com bravura as maiores dificuldades, que são, sem dúvida, o alto preço do Trato Mensal de manutenção dos cavalos, a diminuição do rebanho de equinos, que dificulta a formação dos programas e a baixa dotação dos prêmios dos páreos. O espetáculo tem que continuar. E alguns protagonistas brilharam intensamente. Em primeiro lugar, os puros–sangues. Eles sempre serão a parte mais importante do esporte. Os grandes astros, que brilham nas raias, preparados por treinadores competentes, e conduzidos por jóqueis talentosos.
OS CAVALOS E AS ÉGUAS – Mondragon, do Haras Figueira do Lago, e Hard Boiled, do Stud Monte Parnaso/Quintella, deixaram impressão magnífica. São os favoritos para a disputa das provas de distância da tríplice–coroa, sobretudo o Derby. No percurso de 1.600 metros, Royal Ship, do Stud Happy Again, enfileirou uma série de triunfos e parece que será um tremendo osso duro de roer nas futuras provas de 1.600 metros. Nice Lady, também do Stud Happy Again, está invicta depois de quatro atuações no tiro curto. E, por enquanto, reina absoluta nas provas de velocidade. Mais Que Bonita, do Stud Eternamente Rio, possui velocidade inicial espantosa e arremata correndo. Pelo que tem mostrado é a mais forte candidata a tríplice–coroa das potrancas, até o momento.
OS TREINADORES – Leonardo José Reis lidera com impressionante regularidade a estatística de treinadores. Leo vive o melhor momento de sua carreira. Ele tem dado bastante trabalho, mesmo com os seus puros–sangues alojados na Gávea, a consagrados colegas de profissão, cujos corredores dispõe do conforto e das vantagens dos centros de treinamento na região serrana. Dulcino Guignoni, Júlio César Sampaio, Luís Esteves e Adélcio Menegolo, têm tido dificuldade de acompanhar o seu ritmo alucinante de vitórias. Na esfera clássica, Luís Esteves continua a dar as cartas, em termos regionais. Possui time bastante forte para os principais páreos do calendário clássico de 2.020. Roberto Solanês, Guignoni e Venâncio Nahid, a seguir.
OS JÓQUEIS – Bruno Queiroz amadureceu uma barbaridade na profissão. Se mantiver o ritmo de trabalho e de desempenho poderá comemorar, no final de junho de 2.020, o título da estatística. Vagner Borges, Leandro Henrique e Will Xavier, são fortes adversários. Bruno é profissional bastante focado. Entra na raia preparado. Para o observador lúcido e imparcial, como escreveria, se fosse vivo, o colunista Marcos Ribas de Faria, o Escorial, é possível perceber que ele estudou os rivais, concluiu o ritmo que a prova terá, e, portanto, dificilmente é surpreendido com alguma anormalidade no percurso. Carlos Lavor brilhou demais fora da Gávea, com triunfos no Carlos Pellegrini e Derby Paulista no dorso de Não Dá Mais. Porém, ainda teve tempo de dar aula, com Hard Boiled, no GP Francisco Eduardo de Paula Machado. Vagner Borges também deitou e rolou com alguma das mais belas direções do semestre.
PERSONAGEM DA SEMANA – As lágrimas da joqueta Victória Mota, no dorso de Esplendor, de Luiz Cláudio de Arruda Jr, treinado por seu avô, o veterano Odyr Jorge Meneses Dias, o popular “Cai Cai”, foi um dos momentos emocionantes deste primeiro semestre. Atleta apaixonada pelo seu trabalho, a sorridente Victória enfrenta um dia a dia difícil, para quem nasceu mulher, na profissão de jóquei. Num ambiente temperado pelo preconceito, a jovem esbarra também na difícil situação do seu próprio avô, um treinador de mão cheia, que enfrenta um outro tipo de tabu. Aquele que aflige os profissionais da terceira idade. Poucas ou raras oportunidades de mostrar o seu valor.
A exemplo do que acontece com o sexo feminino, os idosos também recebem apenas chances minguadas de mostrar o seu valor. Esplendor, o único cavalo treinado por este profissional de mão cheia que ainda é o Cai Cai, correu livre, leve e solto, e, de ponta a ponta, lavou a alma da família Dias. Tudo o que acontece no esporte é apenas questão de talento e de competência. Não importa a idade ou gênero. Na última corrida da temporada, Victória, com dois triunfos, comprovou que merece melhores oportunidades. E, o veterano Odyr Jorge Meneses Dias, que sempre telefona para os seus amigos na data dos aniversários e no “Dia do Amigo”, que tem competência para ter mais cavalos alojados em sua cocheira.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO – José Ferreira Reis brilhou na apresentação do estreante Medo de Avião, do Stud Enfant Gate, de criação do Stud Eternamente Rio. Fez galope de apresentação esplêndido com ngelo Márcio Souza e na competição não deu a menor chance aos adversários, num dos triunfos mais fáceis e instigantes da semana. Pela demonstração dado, o sucesso parece ser carimbo certo na segunda apresentação. Um show de poderio locomotor na raia carioca.
JOQUEADA DA SEMANA – Vagner Borges deu bela joqueada no dorso de King Xênon, de Giovanni Giuseppe Pompeu Magi, na corrida noturna. Embora o seu conduzido seja muito veloz, ele percebeu de imediato, com 200 metros de carreira, que o ritmo de Flocos de Amor e de Golden Cat estava forte demais. Encostou o seu conduzido junto à cerca interna, onde o terreno estava muito melhor do que as outras partes da raia, e esperou a reta final. Entrou derrapando na reta, e arrancou o seu pilotado, entre os dois concorrentes da frente, para dominar a prova sem luta nos metros finais. Tudo muito simples, ao estilo dos grandes bridões. Preparo perfeito de Adélcio Menegolo.
F. LEANDRO CAMPEÃO – Com 377 pontos, Francisco Leandro conquistou disparado a estatística geral de jóqueis do turfe argentino. O piloto brasileiro ainda vai montar nas últimas corridas até o final da temporada, mas não pode ser mais alcançado. A marca, por enquanto, está 100 vitórias a menos, do que o recorde sul–americano de Jorge Ricardo, 477. Leandro promete se concentrar bastante, em 2.020, para tentar, outra vez, bater a marca do campeão.
