DO ALTO DA TRIBUNA DOS PROFISSIONAIS...
No sábado, pela manhã, revivi um antigo hábito, que fez parte da minha rotina durante longos anos em que fui repórter de turfe do Jornal do Brasil. A manhã estava ensolarada. De céu azul, mas com temperatura baixa, e o sol iluminava os matinais no Hipódromo da Gávea. Sentei no alto da Tribuna dos Profissionais, bem abaixo da Sala da Comissão de Corridas e das antigas cabines de transmissão. Diferente de outrora, quando o local ficava lotado de treinadores e de cronometristas. Desta vez estavam apenas os titulares do Stud Nunes de Miranda e do Stud Caballus, acompanhados por seu treinador, Marcelo Borioni. A atenção deles estava toda voltada para os exercícios matinais dos seus cavalos. De vez em quando, entretanto, era possível conversar sobre o assunto preferido de todos: os cavalos e as corridas.
Impossível não viajar no tempo sentado naquele lugar. Lembrei–me dos saudosos cronometristas, Oscar Griffith e Gil Moniz Viana. Dali eles apertavam os seus cronômetros de maneira frenética para dar os aprontos e os trabalhos de distância nas suas colunas dos jornais, “O Globo” e “Última Hora”. Com eles consegui aprender o suficiente para escrever as minhas linhas sobre o assunto no JB. Ao lado, na Tribuna Social, ficava Luiz Alberto Rodrigues de Souza, o catedrático Beto, o mais eficiente marcador de corridas de cavalo que tive a oportunidade de conhecer na minha existência turfística. Eram grandes mestres. Beto ainda está conosco. Mas se afastou das corridas. Hoje, recluso, nos deixou o seu herdeiro, o comentarista André Rodrigues, excelente profissional, que pude conhecer ainda menino, no prado, seguindo os passos e a paixão do pai.
Os tempos eram outros. Haviam poucos centros de treinamento na Serra. A maioria dos puros–sangues ficavam alojados no hipódromo. Era possível mapear os cavalos, conhecer os cavalariços, e também os hábitos e os horários dos treinadores. Havia uma guerra particular entre os cronometristas e os treinadores em busca das barbadas. Para despistar os cronômetros, os profissionais mudavam os escovadores, os horários e tentavam esconder os cavalos na raia. Os chamados corujas, como eram conhecidos os cronometristas, que chegavam no prado na penumbra da madrugada, antes dos primeiros raios de sol, também tinham as suas táticas. Conseguiam desvendar aonde estavam os cavalos que desejavam marcar e quem eram eles. Uma luta incessante pela informação.
Hoje, a maioria da população de equinos se encontra na região serrana, longe destes dedos–duros, que entregavam os melhores exercícios e aprontos nas páginas dos jornais. Os turfistas tinham mais chance nas corridas do que agora. Os melhores cavalos estão longe dos seus olhos e dos olhos dos seus anjos da guarda, que eram os tais corujas. Como saber, entre os estreantes quem trabalhou bem? Difícil. Só com a chamada informação de cocheira. Debaixo daquele agradável sol de outono, olhei saudoso para o Bar do Padoque. Durante décadas era o ponto de encontro dos barbadeiros. O café da manhã dos proprietários com os seus jóqueis e treinadores. As corridas da tarde começavam ali. Um aquecimento fantástico, que depois do café da manhã era reaquecido pela cerveja nos bares da Praça Santos Dumont, pela feijoada do sábado no antigo, Bar Sagres. Que saudade.
Tudo isto se perdeu pelo caminho. O hipódromo lotado. Os aplausos ensurdecedores para as joquedas. As vaias não menos barulhentas para as direções suspeitas. O turfe saiu da mídia de fininho. Perdemos espaço sem sentir. E agora? Como recuperar os velhos tempos? O prado deixou de ser um ponto de encontro dos amigos e das famílias. O Lugar para se dividir juntos, com os amigos e com os ilustres desconhecidos, embalados na mesma paixão pelas corridas de cavalos. O mesmo lugar, a mesma paisagem e o mesmo amor pelo esporte. E, no entanto, não existe o mesmo calor, o mesmo acolhimento. A mesma vontade insubstituível de estar ali. Mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Antigamente, as coisas eram assim.
Qual a melhor solução para voltarem os velhos tempos? Com certeza, a resposta está em encontrar dispositivos para trazer o turfista de volta a estas arquibancadas, tombadas como patrimônio da humanidade. Tornar o ambiente caloroso para as famílias se reunirem. Promover o reencontro das gerações. Os pais torcerem pelos cavalos junto com os seus filhos, os avós com os seus netos, os tios, com os sobrinhos. Do alto das tribunas, todos juntos poderem olhar a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Jardim Botânico, o Cristo Redentor e os prédios da Selva de Pedra. Toda esta legião de turfistas lotar, quatro vezes por semana, a gigantesca arena de emoções que é o Hipódromo da Gávea. Um pecado mortal, as arquibancadas estarem vazias no mais belo palco do mundo para se ver uma corrida de cavalos.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Wind Of Change, de propriedade do Stud Pixote, e com o selo de qualidade na criação, do Haras São José da Serra, deu um show na pista de areia do Hipódromo da Gávea. O pensionista de Júlio César Sampaio, atual líder da estatística carioca, neste início de ano hípico, esbanjou categoria e fulminou os adversários. O belo filho de Forestry deixou a nítida impressão de que, em breve, terá pela frente voos mais altos, provavelmente no exterior. Um craque! Parabéns ao treinador pela categoria na apresentação do seu pensionista. Um espetáculo à parte na semana. Menção honrosa para Venâncio Nahid, na apresentação da potranca estreante, Ava Gardner, de criação do Stud TNT, e propriedade do Haras Santa Rita da Serra. Estrear no percurso de 1.600 metros, dar uma manteiga na partida e ainda vencer, é para poucos.
JOQUEADA DA SEMANA
Entre tantas direções inspiradas da semana, gostaria de destacar duas. Valdinei Gil esteve impecável no dorso de Really Baby, do Stud Interbúzios, e treinamento de Victor Paim, de volta ao winner–circle para alegria dos seus fãs. Gil correu sua pilotada na expectativa, bem ao seu estilo, e fez partida curta de 400 metros, depois de encontrar caminho livre na reta. Muriel Silva Machado deu aula, na noturna de segunda–feira, no dorso de Mom Petit Mendel, do Stud J. Lírio Aguiar. Num páreo de ritmo forte para a enturmação, ele ficou no último posto, sempre junto a cerca interna. Se aproximou dos rivais aos poucos e fez partida curta e seca para vencer com autoridade. Evolui a cada dia na profissão.
PERSONAGENS
Suspenso desde a semana do Grande Prêmio Brasil, Marcelo Gonçalves estará de volta aos páreos de turma dos programas oficiais do Hipódromo da Gávea, a partir do próximo domingo. Invicto no atual ano hípico, com duas vitórias clássicas com Gaivina e o próprio George Washington, com quem levantou a mais importante prova do turfe nacional em junho, Marcelo é mais um reforço para o ótimo quadro de jóqueis do turfe carioca.
Vagner Borges, depois de curta temporada no exterior, mais precisamente, em Hong Kong, deu boas direções esta semana nas pistas cariocas. A sua entrevista na televisão do Jockey Club Brasileiro foi bastante interessante. Parece amadurecido, focado e mostrou–se otimista para a temporada que se inicia. O seu retorno ao turfe internacional parece ser questão de tempo, por ser um piloto leve e de alta classe. Porém, após assinar contrato com o Haras Figueira do Lago, ficou evidente que ele permanecerá por aqui, pelo menos, por mais um ano.
F. LEANDRO
Francisco Leandro continua a reinar absoluto nas pistas argentinas. O jóquei brasileiro, que monta todos os dias, alternadamente, nos Hipódromos de Palermo, San Isidro e La Plata, soma incríveis 225 vitórias, em 2.019. Vale lembrar, que o ano hípico na Argentina é de janeiro a dezembro. Portanto, até o final do ano, o piloto tem muito tempo para ampliar esta marca, que com certeza chegará perto dos 400 triunfos, ou mais. Altair Domingos está na sétima posição do ranking, enquanto José Aparecido e Jorge Ricardo continuam afastados das competições por contusão.
JORGE RICARDO
Ricardinho esteve ontem à noite na Gávea para rever os amigos e fãs. Bem–humorado, e dizendo–se a cada dia melhor das contusões sofridas há 45 dias, o recordista mundial confirmou que fica no Brasil até o próximo dia 29 de julho. Depois volta para a Argentina, onde passará por reavaliação do seu estado de saúde com os médicos. Ricardinho deverá voltar definitivamente ao Brasil em 2.020. O que falta decidir é se será para se aposentar ou para cumprir uma temporada de despedida no turfe carioca. Façam as duas apostas!
MONTARIAS
Carlos Lavor tem participação confirmada no Festival ABCPCC, no dia 3 de agosto, no Hipódromo de Cidade Jardim. Nas provas de Grupo I conduzirá Leviatan, do Stud Eternamente Rio, no GP Mathias Machilini, Bavaro Beach, do Stud Quintella, na Taça de Prata dos Potros, e Maisquebonita, do Stud Eternamente Rio, na Taça de Prata de Potrancas. O piloto ainda participará de outras provas clássicas no mesmo dia.