Recordar é viver. Em semana de Grande Prêmio Brasil sempre vale a pena lembrar do recordista de vitórias na mais importante prova do turfe nacional, Juvenal Machado da Silva. O alagoano de Delmiro Gouvêa, hoje aposentado e cuidando da lavoura e de seus bois na divisa do seu estado com a Bahia, é o único jóquei da história a ter vencido a prova cinco vezes. E foram cinco obras de arte desta lenda do turfe brasileiro. Dono de incrível sensibilidade, talento e intuição no dorso dos cavalos de corridas, Juvenal marcou época no turfe nacional, levou ao delírio as multidões presentes ao Hipódromo da Gávea nas décadas de 70, 80 e 90, e escreveu com paixão algumas das mais belas páginas da tradicional corrida carioca.
A sua trajetória de sucesso no Grande Prêmio Brasil começou em 1979. No dorso de Aporé, com a tradicional farda ouro com costuras azuis e boné ouro, dos Haras São José e Expedictus, ele ganhou de ponta a ponta. O jóquei titular, o chileno Gabriel Meneses preferiu montra Amazon, da mesma geração, que havia dominado com facilidade o Grande Prêmio 16 de Julho, prova preparatória. Aporé sobrou para o alagoano, que se aproveitou da pista seca, de preferência do craque, e também do fato de pilotado de Gabriel correr atrás para atropelar. Enquanto os demais pilotos esperavam por Amazon, Juvenal fez um ritmo de corrida falso e ganhou disparado.
Em 1982, com Gourmet, do Haras Ipiranga, Juvenal repetiria a mesma tática do primeiro triunfo. Depois de perder a prova preparatória, em Cidade Jardim, para Clackson, recordista da distância na época, Juvenal não teve dúvida de barra outras montarias oferecidas e ficar com Gourmet. Havia um grande favorito na prova. O argentino New Dandy, considerado o melhor cavalo da América do Sul depois de vencer disparado o GP 25 de Mayo, em Buenos Aires. Juvenal não quis saber de nada. Confiante em seu pilotado foi resoluto para frente e deixou os demais jóqueis persistissem numa grande dúvida. Ir atrás de Gourmet e perder as pernas quando o craque argentino atropelasse, ou esperar por ele. Juvenal aproveitou–se desta indecisão e fugiu para o espelho num triunfo consagrador.
Em 1986, no dorso de Grimaldi, de Delmar Biazolli Martins, Juvenal ganhou o seu terceiro Grande Prêmio Brasil. Desta vez, num duelo espetacular com o seu maior oponente nas pistas, Jorge Ricardo, que montou Bowling, do Haras Santa Ana do Rio Grande. Foram os 100 metros finais mais eletrizantes da história do clássico. Bowling, corrido nas últimas colocações por Ricardinho, atropelou forte e dominou a prova. O triunfo do tordilho treinado pelo saudoso Alcides Morales, parecia consumado. Nos 50 metros finais, como último recurso para tentar fazer o seu pilotado trocar de mão, Juvenal passou o chicote para a canhota. Grimaldi, imediatamente reagiu e ainda teve tempo de livrar pescoço. As tribunas aplaudiram de pé a joqueada do alagoano.
No ano seguinte, 1987, Bowling teria a sua forra. Desta vez, montado por Juvenal, que havia sido o seu algoz no ano anterior. Depois do triunfo fácil de Bat Masterson, também do Haras Santa Ana do Rio Grande, no GP 16 de julho, Ricardinho decidiu ficar com ele. E aí cometeu o maior erro de sua carreira profissional. Deixou o tordilho Bowling para Juvenal. Bat Masterson correu abaixo do esperado. Corrido na última posição pelo alagoano, o tordilho atropelou violentamente para vencer. O quarto triunfo de Juvenal na magna prova.
O quinto e último sucesso de Juvenal no Grande Prêmio Brasil aconteceu em 1990, no dorso de cavalo que ele mais gostava, Flying Finn, do Stud Numy. Juvenal possui até hoje, um pôster enorme do craque no seu quarto, em Delmiro Gouvêa. Flying Finn tinha um rival temível, Falcon Jet, do Haras Santa Ana do Rio Grande, montado por Jorge Ricardo. Os dois cavalos dominaram a sua geração e se revezaram em importantes triunfos. Mais uma vez era dia de Juvenal. Numa tarde de hipódromo superlotado, o alagoano aparou a atropelada tardia de Falcon Jet. E o placar ficou 5 a 0 para Juvenal. Na revanche, em 1992, Falcon Jet foi à forra e Ricardinho ganhou o seu primeiro Grande Prêmio Brasil. Porém, esta outra história reviveremos depois.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Daniel Peres reapareceu Pat O’Brien, de Maurício Mota Peres, em grande forma, e proporcionou um triunfo em belo estilo, e de ponta a ponta, ao aprendiz E. Nunes, em semana proveitosa. Não é de hoje que o treinador gaúcho realiza bom trabalho. Profissional de sucesso no Rio Grande do Sul, Peres, aos poucos, conquista o seu espaço no turfe carioca. Pat O’Brien foi adquirido pelo Stud Teljumafer, cujo titular está sempre atento a boas oportunidades.
JOQUEADA DA SEMANA
Carlos Lavor e Leandro Henrique proporcionaram um duelo de gigantes no último páreo de domingo. No dorso de Liliana Porter, do Stud Red Rafa, Lavor derrotou o líder da estatística naquilo que ele tem de melhor, o rigor. Manteve a sua conduzida junto à cerca interna, não deixou que Leandro o cobrisse com Kshow do Iguassu, e a reta final entre os dois pilotos foi antológica. Lavor baixou a biblioteca e, aos 49 anos, comprovou que todo atleta que se cuida o aspecto físico, tem maior longevidade. Manteve meia cabeça de vantagem e derrotou o jovem de 21 anos. Espetacular!
PERSONAGEM
Vagner Borges é um craque na arte de montar puros–sangues de corrida. E, bastante experiente, apesar da pouca idade. Teve semana sensacional. E, particularmente da segunda–feira, quando a pista encharcada deu nítido favorecimento aos cavalos ligeiros. Logo depois de corridos os primeiros páreos, Borges percebeu a possibilidade de correr os seus pilotados na frente e colar na cerca. Desta forma levou ao sucesso Virmond, Roma Girl e Uhland. Depois que ele descobriu e mostrou o caminho das pedras ficou fácil para os colegas ganharem os páreos seguintes de ponta a ponta com os animais velozes. Um trilho maravilhoso na raia de areia carioca que mudou o resultado normal das corridas.