O ÍNCRÍVEL DERBY DA PULE DE SEISCENTOS
Jet Lag, criado no Haras Palmerini, e defensor da farda de Alberto Juarez Tiellet Miorim, não superou apenas um lote de potros de categoria. O filho de Public Speaker e Emissora Regional, por Trempolino, teve obstáculos heroicos pela frente, nos dias que antecederam a sua corrida gloriosa. O pensionista de Valter dos Santos Lopes, era o único puro–sangue no campo do Grande Prêmio Cruzeiro do Sul alojado no Hipódromo da Gávea. E por isso, literalmente, foi uma das vítimas de uma das maiores tempestades da história da cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, enquanto os seus rivais usufruíram do conforto do clima ameno da serra, das mordomias de beber água mineral da fonte, do silêncio nas noites serranas e da pista particular de cada centro de treinamento, ele ficou no tumulto das vilas hípicas cariocas, alagadas, com as raias em petição de miséria e com as incertezas que qualquer calamidade traz, para homens e animais.
Portador de três vitórias, em 12 saídas, o veloz Jet Lag encontrou no sábado, dia 20 de abril, o Derby de sua existência. Era o cenário perfeito para as suas qualidades. Os favoritos da competição Tanto Riso, do Stud São Francisco da Serra, e Taksim, de Carlos dos Santos, preferem correr atrás, para atropelar. A corrida não teve ritmo. As deserções de Leviatan, do Stud Eternamente Rio, antes da corrida, por contratempo, e de Star Wars, do Stud Duplo L do Rio, no alinhamento, por ter levado um coice de um concorrente, foi um fator a delinear o seu quarto e consagrador triunfo. Eram animais velozes, voluntariosos, e que certamente não o deixariam respirar. Acionado para a ponta por este ótimo bridão, Henderson Fernandes, que corre na frente como poucos, tanto que ganhou o GP Brasil, ainda saindo das fraldas da escolinha de aprendizes, Jet Lag galopou livre, leve e solto, num train de pique–pique. E assim veio a conquista. E assim, a pule acima de 600 por 10 alcançou a glória. Como diria o brilhante locutor, Thiago Guedes, num dos seus bordões: “Como se não houvesse amanhã”.
ZÉLIA GONZAGA PEIXORO DE CASTRO
Se o primeiro Grupo 1 da tarde carioca aconteceu sob o signo da surpresa, o segundo Grupo 1, GP Zélia Gonzaga Peixoto de Castro, teve desfecho dos mais acidentados. Tremenda confusão. Tudo transcorria dentro do esperado. Grandeza, ganhadora da primeira prova da tríplice–coroa, imprimia ritmo forte a prova, ao contrário do páreo dos machos. A sua companheira de farda, a bela Gaivina, a campeã do GP Diana, a segunda etapa da coroa, corria atrás, para atropelar. Naomi Broadway, do Haras do Morro, se posicionou atrás dela, ou seja, na frente apenas da última colocada. Na reta, Grandeza seguiu firme na frente. Com certeza iria brigar pelo triunfo. Gaivina começou a avançar por fora, enquanto Naomi Broadway, ganhou terreno por dentro, atrás de Grandeza. Quando a dobrada do treinador Christiano Oliveira parecia líquida e certa, Valdinei Gil, num movimento imprudente, passou o chicote para a mão direita. Gaivina então se atirou para dentro de forma brusca e chocou–se com Naomi Broadway.
No disco Gaivina foi a primeira, Grandeza a segunda e Naomi Broadway, a terceira. Diante do movimento desastroso de Gaivina, a Comissão de Corridas a desclassificou acertadamente. E Grandeza, cujo piloto nada fez de errado, pagou o pato por envergar a mesma farda, e também foi desclassificada. Gaivina tinha aceleração suficiente para vencer se o prejuízo fosse evitado. Entretanto, dentro das circunstâncias, Grandeza seria a ganhadora, se defendesse outra farda. Mas, o Código de Corridas é claro. E por isso, a valente Naomi Broadway subiu do terceiro para o primeiro lugar e foi a justa ganhadora. Simples assim.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Parabéns a Valter dos Santos Lopes, que teve de superar enormes obstáculos, circunstâncias nada favoráveis e trouxe o seu potro Jet Lag em plenas condições de ganhar o GP Cruzeiro do Sul, de ponta a ponta. Profissional experiente e com currículo de destaque, merece todos os elogios num triunfo tão importante para qualquer profissional de turfe. Nos páreos de turma, vale fazer menção honrosa para Ivan Jerônimo, na apresentação de Fênix de Ícaro, de Rodolfo Oliveira Melo, no quarto páreo de domingo à tarde. Fez cânter magnífico, e na corrida só fez confirmar a bela apresentação do seu treinador. Não se poderia esperar menos competência do filho do saudoso Olavo Jerônimo. Quem sai aos seus não degenera a raça. Parabéns.
JOQUEDA DA SEMANA
Em grande forma física e técnica, Leandro Henrique esteve estupendo no dorso de Per Piacere, do Haras Rio Iguassu, e criação do modelar Haras San Francesco. Apresentada em forma soberba por Ronaldo Lima, a filha de Plenty of Kicks, foi corrida atrás, como aprecia, para uma partida bem curta de 400 metros. Leandrinho, a cada temporada mais experiente, foi preciso como um relógio suíço e levantou o Clássico Marcos Ribas de Faria, um dos jornalistas de turfe mais importantes da história.
PERSONAGEM DA SEMANA
Acedenir Gulart é um guerreiro. Gaúcho de Carazinho, filho do treinador Nego Zé, especialista em canchas retas, desde de menino começou a lidar com puros–sangues de corrida. Nesta semana, ele esteve bem no dorso de Galaxy Runner, do Haras Sweet Carol, e por pouco não consegue ganhar o Derby. Reclamou, correu atrás, mas teve que se contentar o segundo posto. Veio o GP Zélia Gonzaga. Outra prova de grupo I. Mais uma oportunidade com Naomi Broadway, do Haras do Morro. Chegou em terceiro, sofreu prejuízos e correu atrás deles. Foi na Comissão de Corridas, reclamou, se explicou e levou.
A. Gulart é do ramo. Podem falar que ele bate muito nos cavalos. Que ele pega pesado, algumas vezes. Tudo bem. Mas ninguém pode acusa–lo de ser omisso. De fazer corpo mole. Ao assinar um compromisso de montaria, A. Gulart defende com unhas e dentes este compromisso. Para o proprietário, ele é garantia de luta e de briga pelo melhor lugar possível. De vez em quando, ele perde a luta contra a balança. Vai para o sul ajudar o pai no interior. Desiste de tudo. Alto, pesado, ele tem que fazer muito sacrifício para montar. Então, ele é dado como morto pela turma da cidade grande. Cai no esquecimento por algum tempo. Mas, ele sempre volta. Ressurge das cinzas. E traz com que, a mesma volúpia, o amor e a dedicação a sua profissão. Parabéns!