O DERBY DO SÁBADO DE ALELUIA
Nos meus tempos de menino, em Laranjeiras, era comum a criançada malhar o “Judas”, no sábado de aleluia. A tradição cristã era seguida à risca pelos garotos de calça–curta, que confeccionavam, cada um, os seus próprios bonecos de pano. Depois de chutar e despedaçar a figura bíblica representativa de Judas Iscariotes, o discípulo que traiu Jesus, cada um tomava a sua decisão preferida. Uns garotos decidiam enforcar numa árvore, o que havia sobrado do pobre boneco de pano. Outros, debaixo de tremenda algazarra, preferiam queimá–lo, aos berros, numa fogueira. Comer carne era pecado. Então, o melhor negócio era ir fazer uma visita a Copacabana para saborear o peixe cozido, geralmente “Namorado”, da minha vovó Zuleida, com pirão, e croquetes de camarão, de acompanhamento. Até hoje posso sentir o aroma daquela comida deliciosa da mãe do meu pai.
O domingo, Dia de Páscoa, era mesmo em Laranjeiras, na Rua Professor Estelita Lins, paralela a mais famosa, a Rua General Glicério. Ali ficava a casa de minha outra avó, Dona Joana Emília, chamada por toda a família de Dona Noca. Primeira mulher a dirigir automóvel em João Pessoa, era uma paraibana arretada, de vanguarda, com gênio forte, olhar austero e palavra final de qualquer discussão familiar. A grande matriarca de uma enorme família nordestina. Na cozinha, ela também dava show. O bacalhau de Dona Noca era regado a azeite de oliva, de forma generosa, com bastante pimentão, cebola, tomate e batatas cozidas.
Mas a sobremesa dela era um problema de encarar. O tal doce de laranja era tão amargo como o próprio temperamento da mãe da minha mãe. E, por isso, para me livrar do tal doce, eu sempre dizia para ela que já estava de barriga cheia de tanto comer bacalhau. Vaidosa, ela me liberava do doce, depois de ouvir elogios ao seu almoço. “Estava bem melhor do que o de ontem, na casa da avó Zuleida.”, eu mentia descaradamente. Dona Zuza era imbatível na cozinha. Mas aquele duelo de avós, bem manipulado, funcionava as maravilhas para mim. A Páscoa, com as preces fervorosas da minha mãe, Lindalva, das minhas tias, Laurides, Linda e Didiu e os bombons e ovos de chocolate das minhas primaras Gilda e Jane, forjaram momentos inesquecíveis na minha vida. Até hoje lembro com saudade daquelas semanas santas. E posso sentir no ar um cheiro de chocolate puro, genuíno e mágico. Porém, os anos passaram, e aqueles tempos, embalados pela inocência da juventude, não voltam mais.
Mas, agora, em 2.019, mais de 50 anos depois daquelas iluminadas semanas santas da minha infância, temos um Derby. E em dia de Derby, tudo pode acontecer. A mística da principal prova para os puros–sangues de três anos em todo o mundo, supera tragédias, temporais, alagamentos, incertezas no relacionamento entre os amantes, como a PMU e o JCB, etc. e tal. Tanto Riso, Taksim, Flash Olímpico, Leviatan, Stars Wars, Pallito, Olympic Icecream, Olympic Ipswich, Miracle Mile, George Washington, Garrison, Jet Lag, Medjugorje e Galaxy Runner são os astros da festa. Um deles vai se consagrar como o derby winner de 2.019. E isto vai acontecer num sábado de aleluia. O primeiro dia depois da crucificação e morte de Jesus Cristo. Durante o Círio Pascal, a grande vela, que representa a Luz de Cristo, estará acesa. E, nela estarão gravadas as letras Alfa e Ômega, que significam:” Deus é o início e o fim de tudo”. Portanto, que venha o Grande Prêmio Cruzeiro do Sul! Que venha o DERBY”.