DEPOIS DO CAOS, O DERBY...
Foi assustador. O temporal da última segunda–feira, que só permitiu a realização de dois páreos, e cancelou a reunião do dia seguinte, devastou o Hipódromo da Gávea. Por sorte, quando a chuva começou, eu já estava em casa. Com o V. Gil suspenso, assinei as suas montarias em quatro provas clássicas e peguei a estrada para Copacabana. Mas acompanhar a angústia dos amigos, profissionais e empregados, a todo instante, pelo telefone, foi desesperador. As pessoas ficaram ilhadas, sem alternativa para tentar chegar em casa. As cocheiras foram inundando gradativamente. E a violência da tempestade era por demais impactante para quem estava num local aberto e descampado, como o prado carioca. Depois de um certo tempo, não se via mais a divisão entre as raias. Boa parte da pista de areia havia passado para a grama. Os dois tratores, que a princípio, podiam ser vistos do alto da Comissão de Corridas, em pouco tempo, ficaram submersos. O túnel, embaixo da entrada da social, também. Já não podia ser avistado. Estava coberto pela água.
Os mais tranquilos se resignaram. O óbvio ululante era que permanecer no prado seria a opção mais segura. Afinal, pelo desenho da tormenta, era impossível prever o que poderia se encontrar pela frente numa tentativa impulsiva de chegar em casa. E assim, fez a maioria. Dormiu no hipódromo. Porém tem a turma dos estressados, que ficam impacientes com a alteração de suas rotinas. E estes se puseram em empreitadas solitárias pela madrugada em busca do aconchego do lar. Caronas daqui e outras dali. Pelo que puder constatar, entre mortos e feridos, todos estão salvos, embora um pouco molhados depois da aventura aquática noturna.
Já passou da hora de uma parceria entre o Jockey Club e a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro para a construção de uma bacia acumulativa de água. Um reservatório subterrâneo. Este estudo já foi feito, em 1995, pelo conceituado arquiteto e turfista, Dr. Edmundo Cesaro Musa, quando foi levantada a ideia da construção de um shopping subterrâneo embaixo da pista do hipódromo carioca. O projeto do shopping não foi para frente devido ao protesto das instituições ambientais e de preservação da natureza que votaram contra. Mas a bacia gigante para acumular a agua das chuvas e evitar transtornos e riscos aos moradores do Jardim Botânico, onde está localizado o Jockey Club, poderia ser reestudada com 24 anos de atraso.
A META É O DERBY
Nos meus tempos de iniciante no jornalismo turfístico, na semana de Derby, era comum caminhando nos matinais da Gávea em busca de notícias para o Jornal do Brasil, passar pelo saudoso freio Adail Oliveira. E ele, com o dedo em riste dizer. “A meta de todos é o Derby, Paulo Gama”. Era curioso, mas no ano seguinte, lá estava o Adail Oliveira com aquela frase e outra que ele proferia para todo mundo. “Será que vai chover? A meta é o Derby”, repetia o memorável piloto do Haras Santa Ana do Rio Grande. Na minha ingenuidade dos meus pouco mais de 20 anos eu pensava. “Este cara é um gozador. Ele está sempre de sacanagem”.
Agora, 40 anos depois, posso entender a sábia frase de Adail Oliveira. O quanto representa para um criador, proprietário, treinador e jóquei vencer a prova mais importante para os três anos em todo o mundo. Os jóqueis capricham no peso, levam semana regrada para estar no auge da forma. Os treinadores se preocupam com cada detalhe do seu pensionista. Deixam os seus segundos–gerentes de prontidão, chamam a atenção dos seus cavalariços. Enfim, é uma semana diferente. Todo mundo em absoluto estado de alerta. Os criadores e proprietários colocam de plantão suas superstições. Não passam perto do cara que julgam ser pé–frio. Escolhem a camisa que dá sorte. O paletó mais vitorioso. Vale tudo para ganhar um Derby. O campo da prova tem grandes nomes. Difícil dizer quem será o derby–winner de 2.019.
Taksim, de Carlos dos Santos, deu demonstração magnífica em seu triunfo na 2ª prova. Tem em seu dorso o recordista mundial, Jorge Ricardo. Tanto Riso, do Stud São Francisco da Serra, teve campanha traçada por seu treinador, Júlio César Sampaio, para ganhar este páreo. Nenhum competidor está tão preparado no percurso. O seu jóquei, V. Gil, até acendeu menos cigarros nos últimos a 15 dias. Leviatan, do Stud Eternamente Rio, tem classe, consistência e pode levar o Derby. Luiz Esteves, o seu treinador, atravessa o melhor momento de sua carreira. E, escondido, no campo da prova, está Flash Olímpico, do Stud Felipe Pelanda, Victor Correa& Versiani, um atropelador extraordinário, que trouxe da Argentina Altair Domingos, um destes jóqueis fantásticos, que quanto mais um páreo é importante, proporcionalmente aumenta também o seu desempenho. Este me parece o quarteto de ferro. Porém, no Derby, nunca se sabe. Surpresas acontecem...
