NO DORSO DE GARBO TALKS, AS LÁGRIMAS DE UM CAMPEÃO
Garbo Talks, defensor da farda do Haras do Morro, não deu chance aos adversários no Grande Prêmio Estado do Rio de Janeiro, 1ª prova da tríplice–coroa de produtos. Luís Esteves, mais uma vez, apresentou o seu pensionista em forma atlética exuberante. Porém, o que mais chamou a atenção dos turfistas, aficionados e observadores lúcidos e imparciais, como escreveria se fosse vivo, o colunista Marcos Ribas de Faria (Escorial), foi a emoção do jóquei Vagner Borges no dorso do filho de Put It Back. O triunfo de Garbo Talks levou o gaúcho de Rio Grande às lágrimas.
Na condição, de quem já foi no passado, o seu agente de montarias tive o privilégio de acompanhar sua difícil trajetória, desde os primeiros passos, na escolinha de aprendizes até conquistar vitórias consagradoras e estatísticas. E por isso posso entender bem a sua emoção. Vagner Borges, garoto do interior, deixou para trás os pais, os irmãos, enfim, a família e os amigos, para se aventurar na cidade grande. Muitas vezes, sozinho no alojamento da escolinha, pensou em desistir. Foram longas noites de insônia e de incertezas. Sentia–se muito só. A agitação de uma cidade enorme, como o Rio de Janeiro, era bem diferente e estranha para ele, acostumado a vida pacata, de ritmo lento, melancólico e simples do interior.
Mas a família contava com ele. A esperança de dias melhores dependia do seu talento. Os sonhos de uma existência mais confortável, sem atropelos e carências, estavam depositados na sua incrível capacidade para montar puros–sangues de corrida. Franzino, esmirrado e leve como uma pluma, Borges tinha a força de vontade de um gigante, perseverança de um titã e amor pela profissão. Apareceu o Stud Cafelândia e o contratou ainda aprendiz. Nas primeiras seis inscrições aconteceram incríveis seis vitórias. O garoto parecia ser um menino prodígio e foi em frente. Contratado pelo Stud Alvarenga, enorme potência do turfe nacional, abriu–se um leque de possibilidades. Predestinado, Borges foi apresentado ao supercraque Bal A Bali. E com ele, escreveu os primeiros capítulos de uma carreira espetacular.
Depois de conquistar o seu primeiro Derby, com Mojito, veio o segundo com Bal A Bali, a tríplice–coroa, o Grande Prêmio Brasil, e uma infinidade de vitórias clássicas, no GP São Paulo, no GP Bento Gonçalves, três estatísticas e a consagração. Mas, quando o sucesso acontece muito rápido na vida de um jovem, a mudança da maré parece ser algo inevitável. E Vagner Borges sofreu surpreendente recaída logo depois da morte do seu então maior rival na raia carioca, o saudoso Dalto Duarte. Não que uma coisa justifique a outra. Porém, como seu amigo pessoal, e parceiro na profissão naquele momento, sei bem o quanto ele sentiu a partida precoce do colega de profissão. Eram amigos, se respeitavam, apesar da enorme rivalidade dentro da raia. Borges perdeu a referência, se entristeceu profundamente e quase se sentiu culpado, por ter levado a melhor na queda de braço contra Dalto, pouco antes do acidente fatal de moto que o vitimou.
Vagner Borges passou então por um período obscuro, desmotivado e não teve forças para impedir as estatísticas conquistadas por Leandro Henrique e, no ano seguinte, por Valdinei Gil, posteriormente. Em 2.018, tudo mudou. Aconselhado por alguns amigos, sobretudo pelo ex–jóquei, Luiz Duarte, por coincidência, tio de Dalto, Vagner Borges voltou ao topo do ranking, numa arrancada espetacular para recuperar a estatística. Na virada do semestre, quando ele engrenou, do pelotão intermediário, para encostar nos líderes, me lembro de ter dito aos meus amigos mais íntimos. “O campeão voltou. Ninguém vai conseguir impedir a sua arrancada. Eu o conheço bem. Está com aquele olhar de predador do tempo em que conquistamos juntos três estatísticas. O garoto que trabalha com ele, Antônio Henrique Morgado, é muito bom. Esta estatística está no papo”. E, a minha profecia, feita cinco meses antes do final do ano hípico se concretizou. Por isso, entendo bem as lágrimas de Vagner Borges no último domingo. Não foi apenas a emoção pelo grandioso triunfo de Garbo Talks na abertura da tríplice–coroa. E sim, aquele sentimento de redenção. O alívio de ter acordado de um pesadelo. Aquela sensação de quem esteve longe de casa, perdeu o foco e os objetivos. E, enfim, depois da tempestade, tem plena consciência que reencontrou o rumo em sua vida. Agora, ele sabe que está pronto para voar e ser feliz.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Grandeza foi apresentada em forma atlética exuberante pelo jovem treinador Christiano Oliveira. Num final de semana de competentes e belas apresentações na raia carioca, nenhum puro–sangue estava tão lindo como a ganhadora do Grande Prêmio Henrique Possolo. Para quem aprecia olhar os animais rodando no Padoque antes do cânter. E eu me sento diariamente naquela varanda na social, pertinho do passeio dos competidores, não havia dúvida que seria muito pouco provável a sua derrota. Marcelo Gonçalves, um jóquei que faz um feijão com arroz para lá de bem temperado, esteve impecável no dorso da candidata a tríplice–coroa das potrancas. E vai ser parada indigesta impedir que a filha de Put It Back complete a sua missão.
JOQUEADA DA SEMANA
No dorso de Easiest Way, no Clássico Antônio Carlos Amorim, o bridão Valdinei Gil comprovou mais uma vez que guarda todos os seus predicados e recursos para as grandes ocasiões. O seu cálculo de corrida, frieza e calma para fazer partida curta e seca, de apenas 400 metros, na sua conduzida chegou a irritar, fazer sofrer e até gemer todos aqueles que haviam apostado nela e na sua classe. E quando o desespero já tomava conta de todos, ele então, finalmente fez correr a filha de Adriano e Smile Jenny. E como se ele se divertisse com a agonia de todos os presentes ao prado, dominou a companheira de farda, Fly First Class, em cima do disco. Fumante, gozador, irreverente e gaiato, V. Gil pode ser até um cara esquisito e incompreendido pelas pessoas comuns que não privam da sua intimidade. Mas a facilidade e o talento que possui para montar um cavalo de corrida é um fato indiscutível e consumado. Vida longa ao “Dragão”!
PERSONAGEM
Luís Esteves brinca de treinar cavalos de corrida. O cearense é confiante, competente e faz fé no seu taco. Apresentou Garbo Talks em forma magnífica e levou a primeira etapa da coroa. Porém a apresentação que mais me chamou a atenção foi da potranca Next Kowboy, da parceria Haras Fronteira/Stud Embalagem. De frente para o público, na televisão, ele afirmou com absoluta convicção que a filha de Kodiak Kowboy não perderia. E, apesar do peso favorável, era um desafio em turma bem mais encorpada. E não é que ele estava certo. A velocista tomou a ponta logo e floreou como se não houvessem rivais para ela. Merecida alegria para o Chicão, titular do Stud Embalagem, investidor apaixonado pelos cavalos e pelas corridas.
FOR YOU TOO, JUSTIÇA EM DOBRO
Para quem acompanha o dia a dia dos profissionais é gratificante quando a justiça para eles vem através de um puro–sangue. No caso do craque For You Too, do Stud Coral Gables, ele premiou dois profissionais de gabarito. Cosme Morgado Neto sempre foi íntimo do pódio, onde inclusive esteve por três vezes na inesquecível tríplice–coroa do craque Groove. Sem milho não se faz pipoca. Bastou aparecer um corredor de gabarito em sua cocheira e a resposta foi imediata. O mesmo raciocínio vale para César Gustavo Netto, Recebeu a oportunidade de montar um cavalo de absoluta exceção. A sua resposta também veio na Prova Especial João Vieira. Um momento de rara justiça a estes dois ótimos profissionais. Justiça em dobro.