Nota da redação – Em abril de 2012, o Raia Leve publicou um comentário de Sergio Barcellos sobre os problemas do movimento geral de apostas (MGA) do turfe brasileiro. Muita coisa aconteceu nesses últimos sete anos. Uma delas foi a assinatura, em novembro de 2015, do contrato de parceria com o PMU, França, fato que, entre outros, possibilitou, pela primeira vez, o envio das imagens das corridas da Gávea para o exterior, pela primeira vez na história do turfe do Rio de Janeiro e do país. E, em março, deste ano, o começo do envio dessas imagens, agora para a Europa.
Outras, porém – indispensáveis à criação de escala nos MGA’s do turfe do país – ainda estão pendentes de uma solução. Como contribuição à análise da questão, o Raia Leve julga importante republicar o citado artigo.
Diante da atual realidade do turfe nacional, o Raia Leve acha extremamente pertinente sua republicação.
Segue o Artigo publicado em abril de 2012:
Dois são hoje os pilares do turfe mundial:
(1) o uso intensivo da INTERNET na captação de apostas, aliado à telefonia celular de última geração; e (2) a busca permanente de ganhos de escala em relação ao movimento geral de apostas (MGA).
Sem INTERNET e sem ganhos de escala do MGA, pouca coisa funciona em termos de turfe moderno. Na verdade, quase nada.
Em ambos os casos, estamos falando de investimento em tecnologia da informação (TI), isto é, de sistemas mecanizados. Onde há um turfe moderno e organizado, os dois pressupostos acima estão cada vez mais presentes.
É claro que se contam às dezenas as variáveis que compõem o arcabouço da gerência de qualquer turfe desenvolvido. Da correção dos hipódromos, passando pela formação racional dos programas de corrida, a perfeição das pistas, o investimento em marketing, etc, etc, etc.
Entretanto, sem escala no MGA nada disso é possível. Simplesmente porque falta o elemento fundamental que garante o sucesso de qualquer empreendimento humano: a geração de renda.
Portanto, a ênfase de todos os turfes desenvolvidos do mundo se concentra hoje na ampliação de seus respectivos MGA’s. É esta a grande prioridade, o norte, se quiserem, em torno do qual gira toda a indústria internacional do cavalo de corridas neste começo de século XXI.
Instrumentos de ganhos de escala
Aumentar gradualmente o volume geral de apostas de qualquer sociedade promotora de corridas, implica, entretanto, priorizar determinados instrumentos e práticas, e não se deixar desviar pelo que é acessório neste processo.
Apenas como exemplo, é inútil bradar por investimentos maciços em certos segmentos da atividade, sem antes ter criado o "ambiente" propício que a permita transformar tais investimentos em renda. E este ambiente só se cria quando, de saída e previamente, existe:
(i) uma eficiente rede nacional de captação de apostas (leia–se, o aumento dos pontos de venda);
(ii) a possibilidade de se poder ver, e eventualmente jogar, em corridas de cavalo onde quer que o espectador esteja no instante em que elas ocorrem;
(iii) finalmente, mas não menos importante, é mandatória a integração do hipódromo local à grande rede mundial do "simulcasting internacional pari–mutuel" (aquele "simulcasting" em que a quantia jogada pelos apostadores do exterior é convertida na moeda local, e expressa no totalizador do hipódromo gerador da imagem).
Aliás, o único "simulcasting internacional" digno deste nome. O único realmente capaz de gerar ganhos de escala do MGA local.
Fora da pré–existência dessas três condições, todo o esforço de qualquer sociedade promotora de corridas para aumentar seu MGA é doloroso. Quando não frustrante. E como frustração gera ansiedade, começam exatamente aí as iniciativas heterodoxas de geração de renda que nada têm a ver diretamente com o turfe.
Hipódromo e público
No passado, quem quisesse ver e apostar em corridas de cavalo tinha que ir ao hipódromo. Hoje em dia, não mais. Hoje em dia – e isso ocorre em todo o mundo desenvolvido –, hipódromo só enche nos dias de grandes eventos do turfe. Aliás, como no futebol, onde os estádios são cada vez menores.
Não há nada de essencialmente ruim nisso. Desde que todos os instrumentos de geração de imagens e captação de apostas estejam funcionando plenamente durante a realização normal das corridas.
É um anacronismo supor que para haver MGA, há que haver, necessariamente, presença física de público e apostadores nos hipódromos. Isso não é verdade. MGA de século XXI não depende mais somente disso. Um hipódromo, aqui ou em qualquer outro lugar, pode estar relativamente vazio, sem que o MGA da reunião deixe de ser expressivo e altamente rentável.
Mas tudo depende, sim, de sistemas modernos de geração de imagens, do funcionamento da INTERNET, da transferência dessas imagens para os smart–phones, e da existência do simulcasting internacional pari–mutuel em sistema de “commingly”, como acima descrito.
Hipódromo é importante? Claro que é! Bons hipódromos – aqueles cujas instalações oferecem conforto ao espectador –, funcionam como efetiva “porta de entrada” de novos adeptos do esporte. Mas não mais como origem e único pilar do MGA.
MGA e pedra única
Admitir que o turfe nacional vai deixar para trás a atual indigência de seus MGA’s sem a possibilidade de uma pedra única no "simulcasting nacional", é de um otimismo delirante. Quase patológico. Simplesmente, porque sem uma totalização que integre todos os hipódromos do país, não há a menor e mais remota possibilidade de ampliação desses MGA’s. E nenhum deles se aproveita dessa ausência. Muito menos, conseguirá crescer sozinho.
Quem duvida, experimente arriscar–se a jogar um pouco mais em algum animal do hipódromo de origem do "simulcasting", para vê–lo imediatamente transformado em favorito na pedra local. Por outras palavras, sem pedra única falta a condição sine qua non que permite o aumento de qualquer aposta: falta escala. E é sabido que ausência de escala inibe qualquer apostador.
Todas essas considerações, seja sobre o "simulcasting internacional pari–mutuel" em regime de “commingly”, seja sobre o "simulcasting nacional", seja sobre o papel fundamental da informática no turfe moderno, seja sobre a necessidade de introdução da pedra única entre nós, parecem óbvias.
E se são, aí mesmo é que não se entende como o turfe brasileiro chegou ao atual estado de anomia, onde o que é óbvio aparece sempre envolto na névoa da dúvida e da teimosia. Um enigma, dentro de um mistério, cercado pelo desconhecimento do que seja um turfe moderno.
Alguns números
Na última reunião do Conselho Diretor da OSAF, realizada em Santiago, Chile, quando da realização do GP Latino–Americano, no mês de março, o presidente da Federação Internacional das Autoridades Hípicas (FIAH), Louis Romanet, deu a conhecer os números das corridas de alguns países do continente – já integrados ao "simulcasting internacional pari–mutuel" da Europa.
Durante o ano de 2012, 29 corridas sul–americanas tiveram suas imagens transmitidas para o exterior, nas quais foram apostados, lá fora, nada menos que 47 milhões de euros (algo parecido com cerca de 50% de todo o MGA do JCB em 2012). E o processo está apenas no começo.
Pudera, somente os franceses apostam cerca de euros 9,8 bilhões por ano nas corridas de cavalo, sejam rasas, sejam de trote, sejam sobre obstáculos. Os chineses (de Hong Kong) e japoneses, mais ainda.
Algumas conclusões
De tudo o que foi exposto, parece razoável admitir que a ênfase do turfe brasileiro deveria hoje estar 100% concentrada – e não importa de que sociedade promotora de corridas se trate – em dois aspectos:
Na criação dos instrumentos que permitam o acesso do turfe do país ao “simulcasting internacional pari–mutuel” e sua integração à rede internacional desse tipo de “simulcasting.”
Na retomada imediata do projeto da pedra única em relação ao “simulcasting nacional.”
Não é pedir muito. É pedir o essencial, sem o qual jamais conseguiremos fazer com que o MGA do turfe brasileiro ganhe escala e, afinal, decole. Com os inevitáveis desencantos e dissabores para todos que dele dependem.
Artigo escrito em 10 de abril de 2012