TURFE CARIOCA SE DESPEDE DE 2.018 EM GRANDE ESTILO
Rio de Janeiro, 40 graus. Escrevo esta crônica antes da realização da última das cinco reuniões já disputadas no Hipódromo da Gávea. Porém, já aconteceu tanta coisa boa na sexta, sábado, domingo e segunda–feira, que nem preciso esperar a reunião noturna de terça–feira. O dia mais quente do ano, segundo a previsão da meteorologia. O tempo ajudou bastante durante a semana. O sol não arredou o pé. Tivemos seis provas do calendário clássico com desenlaces espetaculares. Alguns potros deixaram impressão magnífica em suas estreias. O prado carioca recebeu bom público. Os Foodtrucks foram campeões de audiência. A criançada correu e brincou. Teve cachorro–quente com preço salgado. Teve pastel saboroso, mas que também poderia ser mais barato. As cervejas artesanais desciam redondas goelas abaixo numa tabelinha perfeita com a temperatura alta do início de verão. Até sinuca teve na Tribuna Social para quem não conseguia dar tacada nos guichês. Houve a opção de apelar e tentar acertar a caçapa em outros cantos.
De olho no lado bom da vida, sempre bem representado pelo bom humor, a paixão, o amor e o trabalho, o balanço do turfe carioca neste final de 2.018, foi dos mais positivos. Temos problemas? Claro que sim. E quem não os têm? Os prêmios dos páreos poderiam ser melhores? Não há dúvida quanto a isso. O rebanho de equinos tem diminuído de forma assustadora? Sim. Os criadores precisam cuidar disso. Existem falhas para serem concertadas? Ninguém pode negar que precisamos melhorar sempre. Entretanto, a gente precisa ficar de olho no lado bom das coisas.
Em meio à crise sem precedentes na história da cidade do Rio de Janeiro, com a Saúde no CTI, a Segurança Pública caótica, os salários dos servidores públicos atrasados, a Educação à deriva e o Museu Histórico Nacional transformado em escombros, o turfe carioca conseguiu formar cinco programas. Num momento em que os clubes hípicos coirmãos, como Jockey Club de São Paulo e Jockey Club do Rio Grande do Sul têm um programa semanal, e o Jockey Club do Paraná, de 15 em 15 dias, o JCB formou cinco reuniões. É claro alguns turfistas mal–humorados reclamam de tudo e de todos. A grana está curta. O cara quer jogar R$ 100,00, mas no bolso ele só tem R$ 20,00 disponível. Fica frustrado. Em tempo de vacas magras, a família fica de olho nele. E o cara é monitorado, vigiado, todo mundo marcando em cima. Não pode deixar ele dar derrame nas patas dos cavalos. Vai falta o do feijão. Muita pressão. Então, o cara perde nas corridas. Aí, ele se desespera e todo mundo é ladrão. Todo páreo tem armação. Existe sempre uma conspiração dos dirigentes, dos comissários de corrida, treinadores e dos jóqueis. Todos estão contra ele. Nem tanto, amigos turfistas.
PURO–SANGUE MELHOR APREENTADO
Numa semana turfística com seis provas do calendário clássico e, consequentemente, de corredores de excelência nas raias cariocas, não foi nada fácil escalar apenas um deles como o melhor apresentado. Entretanto, em homenagem ao gigantesco desempenho das inscrições do treinador Luís Esteves, Leviatan, do Stud Eternamente Rio, ganhador do Grande Prêmio Frederico Lundgren, pode ser apontado como tal. Fez vistoso galope de apresentação. E, na corrida confirmou sua classe, imponência e capacidade de aceleração para manter a liderança de sua geração. Parabéns ao treinador, que lidera a estatística com alto padrão de qualidade e um índice de aproveitamento que não deve ser menosprezado.
JOQUEADAS DA SEMANA
No aspecto de performance dos jóqueis não há como deixar de decretar coluna do meio, ou seja, empate, para duas joqueadas que decidiram páreos clássicos. Anderson Paiva saiu do anonimato com direção notável no dorso de Ray Grass, do Stud Best Friends, no Grande Prêmio Mariano Procópio. Fez percurso principesco e aproveitou cada centímetro a favor de sua conduzida. E no momento de decidir teve arrojo, coragem e técnica para aproveitar espaço milimétrico e conquistar vitória inesquecível para a tradicional e bela farda da coudelaria. Paiva já demonstrava evolução na carreira profissional nos últimos meses e agora vai engrenar de vez por ser um jóquei bem leve e com bons recursos técnicos.
Valdinei Gil dispensa maiores comentários. Desconcertante, intuitivo, técnico e virtuoso, de vez em quando ele brinda os turfistas com direções que fazem lembrar jóqueis históricos do turfe brasileiro. O popular “Dragão” estava inspirado no dorso de Tanto Riso, do Stud São Francisco da Serra, o Grande Prêmio Almirante Tamandaré. Tão inspirado quanto o sambista Zé Kéti, interprete de “Máscara Negra”, marcha de carnaval que começa com os versos “Tanto Riso, oh! Quanta alegria! Mais de mil palhaços no salão. Arlequim está chorando pelo amor da colombina, no meio da multidão”. No dorso do pensionista do excepcional treinador Júlio César Sampaio, Valdinei Gil parecia estar na Avenida. E desfilou sem a menor cerimônia um percurso irrepreensível e com a frieza que só os grandes craques das rédeas possuem. Vitória sensacional do filho de Agnes Gold e Tanta Honra.
PERSONAGEM
O que dizer ou escrever sobre um treinador que vence três das seis provas clássicas disputadas durante a semana, com Leviatan, do Stud Eternamente Rio, Ghoul, do Stud Verde e Tiro ao Alvo, do Stud O Nacional? Quais adjetivos utilizar para um profissional que vence quase todas as provas de potros de três anos, com puros–sangues já corridos ou estreantes? Luís Esteves cumpre temporada extraordinária e ganhou páreos e mais páreos por toda a semana, num ritmo avassalador, e sem dar chance aos concorrentes. Que fase maravilhosa! Que preparo atlético excepcional dos seus pensionistas. Do passeio no padoque, passando pelo cânter, antes da prova, até chegar no alinhamento, o aspecto dos cavalos por ele treinador transmite confiança absoluta aos apostadores. Seus cavalos atemorizam os rivais. E como ganham os cavalos treinados por Luís Esteves...
