AS CHAMAS AMARGAS DA DECADÊNCIA
Não! Eu não vou escrever sobre o desastroso incêndio do Museu Nacional, sem dúvida, um dos dias mais tristes da história do Brasil. Afinal, o assunto aqui neste espaço é o turfe. Mas, ao reler a brilhante matéria do dia 29 de agosto, publicada aqui no Raia Leve, e assinada pelo notório criador José Carlos Fragoso Pires Júnior, fiquei preocupado. A decadência do estado, as mazelas de uma sociedade corroída pela corrupção, a falta de governabilidade e o descaso com o patrimônio público, causaram as chamas que destruíram parte expressiva da nossa história. Incendiaram a nossa memória. E consequentemente, nos envergonharam diante do mundo.
A matéria de José Carlos Fragoso Pires Júnior, “Os números da Criação Nacional”, são um alerta sobre a possibilidade de o turfe nacional ser incinerado, de forma gradativa e silenciosa, sem que nenhuma providência seja tomada, a exemplo do que aconteceu com o Museu. De 1970 até 2.017, a roda–viva dos números é assustadora. Em 1970, tínhamos na criação 5.001 éguas, e agora, 47 anos depois, a criação possui apenas 2.239. Os 643 garanhões daquela época caíram para apenas 163. E de 2.648 produtos nascidos, em 1970, tivemos agora, só 1.734. E o número de criadores caiu de 593 para 298. Uma lástima! Os reflexos desta dolorosa estatística saltam aos olhos de qualquer turfista.
Em Cidade Jardim, foram disputadas duas provas de Grupo I esta semana, com número minguado de concorrentes. Há alguns anos, os campos destas provas tinham até puros–sangues suplentes. A briga era feia para participar do evento. Hoje em dia, os outros clubes hípicos coirmãos nem mandam representantes por que o prêmio, em caso de vitória ou colocação, não é pago. As quatro reuniões semanais da década de 80, com páreos cheios e atrativos, deram lugar a páreos de cavalos árabes e outros de puros–sangues, com meia dúzia de gatos pingados. No Sul, os gaúchos e paranaenses tentam resistir. Mas o reduzido número de cavalos que vitimou São Paulo, também impede que esta reação se cristalize de forma plena.
O fato do turfe carioca viver melhor momento mascara enormes problemas estruturais. O Movimento Geral de Apostas despenca a olhos vistos. No tempo em que trabalhei na televisão do Jockey Club, há alguns anos, raramente não batia R$ 1 milhão. Agora, este valor oscila entre R$ 600 mil e R$ 750 mil, nos sábados e domingos, e algumas vezes bate R$ 800 mil, nas reuniões noturnas. Muito pouco. A relação entre o prêmio pago aos proprietários e a expressiva despesa com o trato mensal dos cavalos está cada vez mais desigual. Alguns criadores tradicionais, com fardas pesadas, jogaram a toalha. Enfim, estamos à beira do caos.
Por estes e por outros motivos, me solidarizo com a corajosa e lúcida matéria de pesquisa de José Carlos Fragoso Pires Júnior. Estes números precisam funcionar como um alerta contra a silenciosa e lenta caminhada para a extinção. Aliás, por estes números, estes passos decadentes já nem são tão vagarosos assim. Não temos força política para lutar pela liberação do jogo no país. O nosso prestígio em Brasília perde de goleada para outros segmentos preconceituosos e reacionários.
Antes que a casa caia e tudo desabe, os apaixonados pelo esporte têm que se unir e se organizar. Esta sensação, típica do ser humano, de que as balas perdidas, os acidentes de trânsito e as doenças graves só atingem os vizinhos e os desconhecidos, fez desabar o Museu Nacional. E foram feitos vários alertas. Não podemos deixar, portanto, que aconteça o mesmo com o turfe. Este esporte é a paixão e o amor de nossas vidas. Não podemos permitir que as chamas do descaso o transforme apenas em cinzas. O turfe brasileiro não pode virar apenas escombros, depois de tanta gente importante ter ajudado a escrever a sua gloriosa história.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Christiano Oliveira brilhou intensamente no Grande Prêmio Duque De Caxias. Fez ponta e dupla om Future Queen e Fanciful. Belíssimas no galope de apresentação desfrutaram de tática de corrida perfeita. Future Queen com Marcelo Gonçalves galopou solta na frente sem ser incomodada. Enquanto isso, Fanciful, com o piloto titular da coudelaria, Valdinei Gil, ficou na expectativa, e atraiu a atenção das rivais, com os jóqueis tomando conta. A estratégia permitiu que as duas brigassem pelo triunfo. Parabéns ao jovem treinador, filho do saudoso Adail Oliveira.
JOQUEADA DA SEMANA
No dorso de Little Bad Girl, de criação e propriedade do Haras Figueira do Lago, Vagner Borges deu a joqueada da semana. Bem apresentada por Dulcino Guignoni, a filha de Agnes Gold foi corrida no fundo do lote por seu piloto. Borges aproveitou cada centímetro do percurso, junto à cerca interna, e numa manobra espetacular, saiu de último para disputar a ponta, numa passagem bastante ousada. Espetacular!
