Aconteceu na semana passada. Pela manhã tocou o meu telefone celular. Era um número desconhecido. Eu pensei que fosse assim. Afinal, o número não constava na minha lista telefônica. Não atendi. Estava enrolado entre a coluna de toda as terças–feiras no site Raia Leve e alguns compromissos de montaria, de última hora, para o jóquei Valdinei Gil. Deixei para lá. Segui no serviço por mais meia hora. O dono da outra linha havia deixado recado em minha caixa postal. Por curiosidade decidi ouvir do que se tratava. Para minha surpresa era a voz para lá de conhecida do meu querido e estimado amigo Zilmar Guedes. Com a voz embargada, ele disse simplesmente. “Paulinho, aqui é o Zilmar. Não é nada demais. Só liguei para conversar contigo. Para saber das novidades e colocar o papo em dia. Depois a gente se fala”.
Olhei na minha lista de números e o telefone que eu tinha do Zilmar havia mudado. Ontem, quando o locutor Thiago Guedes deu a notícia da morte do Zilmar na televisão, antes da largada do último páreo, me entristeci profundamente. Por uma fatalidade eu não pude me despedir de um grande amigo. Talvez até, por intuição, o Zilmar tenha telefonado para isso. Para se despedir. A matrícula profissional de Zilmar Duarte Guedes data de 1958, ano em que nasci. Na minha carreira profissional, ele esteve presente em vários momentos, com sua voz tranquila, amigável, inteligente e sempre esclarecedora. Sabia tudo de turfe. Sabia tudo de cavalos de corrida. Sabia tudo de corridas de cavalo. E a sua sabedoria era generosa e compartilhada com os mais jovens com enorme prazer.
Zilmar Guedes teve carreira vitoriosa e o Jockey Club Brasileiro lhe presenteou com a matrícula de “Treinador Emérito”. Ele ficou muito orgulhoso naquele momento e me disse com aquela simplicidade, que lhe era peculiar. ”Paulinho, este reconhecimento vale mais do que o dinheiro que nunca consegui ganhar nesta profissão. A vida da gente tem altos e baixos. Mas, a maior frustração que um indivíduo pode ter é investir numa profissão, fazer boas coisas e ninguém notar”.
Zilmar foi treinador pioneiro do Brasil no turfe norte–americano. Com o cavalo Eécio ele deixou para a posteridade a primeira vitória de um puro–sangue nacional na terra do Tio Sam. Zilmar ganhou estatísticas, clássicos e glórias. Vai embora desta vida deixando um rastro de grandes conquistas, grandes ensinamentos e um sarcástico bom humor que caracterizada este torcedor do Flamengo. Adeus Zilmar! Me arrependo profundamente de não ter atendido a sua última ligação. A última oportunidade de me despedir do amigo que tanto admirei nesta vida.
por Paulo Gama