NOITE GRANDE, O ATO HERÓICO DO APRENDIZ BRUNO QUEIROZ
Inacreditável? Inusitado? Incrível? Inédito? Todas estas quatro palavras podem ser consideradas corretas, ou talvez seja melhor dizer cabíveis, para descrever o desenrolar do quinto páreo, de ontem à noite, no Hipódromo da Gávea. Pessoalmente, me veio à cabeça a letra I. Porém, os prezados turfistas que acompanham a nossa crônica semanal, tem todo o direito de procurar outra letra do alfabeto. E, com certeza, encontrarão melhores vocábulos. Alguma forma mais impactante para descrever a epopeia, a autêntica batalha que se transformou o percurso de Noite Grande, do Stud Laila A., e treinado por Venâncio Nahid, para alcançar triunfo apoteótico. Sem dúvida, foi um dos páreos mais emocionantes de todos os tempos no tradicional prado carioca.
Bruno Queiroz, a maior revelação da Escola de Aprendizes do Jockey Club Brasileiro nos últimos anos, teve a responsabilidade de montar o favorito. E todos sabem como é árdua esta missão de defender as pules do cavalo predileto do público apostador. A tolerância diminui quando há muito dinheiro em jogo. Crava do Pick 7, peão da maioria das acumuladas, etc. e tal. O “Pequeno Juquinha”, como é carinhosamente chamado Bruno Queiroz, entretanto, já aprendeu a lidar com esta situação desconfortável. Ganhador de 100 páreos, nos seus seis primeiros meses de carreira, Bruno se acostumou, ao entrar na raia para o cânter, a ver os seus conduzidos sempre entre os mais cotados na pedra de apostas. Montar favoritos deixou de ser novidade para ele. Virou lugar comum.
Depois de largar baliza um, Bruno posicionou Noite Grande no bloco intermediário, entre a quarta e a quinta posição. Aproximou–se aos poucos com o seu conduzido. Ficou meio espremido, junto à cerca interna. Entrou na reta atrás dos dois mais ligeiros e ficou encaixotado pelo competidor Imperador Acteon. Um partido até então técnico e válido. Daí para frente, tudo mudou. O que se viu foram três prejuízos consecutivos, e embaraços, que pareciam intransponíveis. No último capítulo da caçada, Noite Grande chegou a ficar de lado, e Bruno em pé nos estribos para não cair. Por fora, Balança Comercial se aproveitou da confusão entre os concorrentes por dentro, e dominou a corrida com absoluta firmeza.
De repente, a enorme surpresa. Para espanto de todos os turfistas presentes ao hipódromo, e também para àqueles que acompanhavam o páreo pela televisão dos agentes credenciados ou em suas próprias residências, Noite Grande reapareceu. Por fora, bem aberto, e numa atropelada avassaladora. No seu dorso, o menino prodígio em pé, nos estribos, a dois galões do disco. Comemorava à vitória mais emocionante de sua curtíssima carreira profissional. Se alguém ainda tinha dúvida, que o “Pequeno Juquinha” havia chegado para ficar, ela acabou por completo na noite, do dia 16 de julho de 2.018.
Só faltou mesmo, depois da pesagem, Bruno saltar do cavalo, na foto da vitória, e fazer o famoso gesto de Cristiano Ronaldo, depois do cada gol marcado. O tal gesto do portuga, o melhor jogador de futebol do mundo na atualidade, significa: “Eu estou aqui!”. Bruno Queiroz, pode–se dizer, fez a mesma mímica ontem à noite. De maneira diferente porém. Mais respeitosa. Porém, bem mais contundente. Alguns jóqueis mais experientes teriam abandonado a corrida. Bruno fez o contrário. Depois de levar tantas trombadas, ainda deu um jeito de vencer. O recado do menino para os outros jóqueis me pareceu bem claro, alto e em bom som. “Eu sou casca grossa! Eu vim para ficar! E quem quiser chegar na minha frente vai ter de ralar!”. Eu juro que escutei isso. Não em palavras. Mas na atitude positiva e arrojada do garoto.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Guerreiro Josef, do Stud Yatasto, e criado no Haras Fronteira, obteve esta semana a quarta vitória consecutiva em curto espaço de tempo. Mais uma vez, o mestre Dulcino Guignoni esbanjou categoria na arte de preparar puros–sangues para atuar em distância de fundo. O filho de Jeune–Turc fez galope lindíssimo. Mas, a subida de turma parecia inacessível. Que nada! O pensionista de Guignoni tomou a ponta e galopou livre, leve e solto até o disco, montado por Bruno Queiroz.
JOQUEADA DA SEMANA
Carlos Lavor esteve impecável no dorso de Isola Di Fiori, do Haras do Morro, e criação do Haras Palmerini, na Prova Especial Hernani Azevedo Silva. Um craque das rédeas, como o Lavor, faz parecer fácil montar um puro–sangue de corrida numa raia com cerca móvel de 12 metros, na reta final, depois de largar do prolongamento. Driblou a maldita cerca e os rivais para conquistar belo triunfo com a pupila de Zenílton Barbosa, em grande fase.
TV ENGUIÇADA
Os frequentadores da varanda debaixo, na Tribuna Social, pedem com urgência que algum funcionário do JCB concerte o aparelho de televisão, ou troque este monitor por outro, o mais breve possível. A varanda, que durante longos anos possuía quatro televisões, agora tinha apenas duas. Com o enguiço da televisão de frente para a mesa do Helinho Magro, a turma da varanda tem de se aglomerar para ver os páreos em apenas uma. Fica desconfortável. Reiterados pedidos já foram feitos e nada.