O telefone tocou a meia hora atrás. Do outro lado da linha, a voz embargada de Serginho, titular do Stud Best Friends, deixava claro que a notícia não seria nada boa. O meu querido amigo me pedia um favor. Para escrever algumas linhas sobre um outro grande amigo, Dr. José Roberto Taranto. Sérgio preferiu falar muito mais do parceiro, de tantas jornadas turfísticas gloriosas, do que sobre o consagrado profissional. E que profissional! José Roberto Taranto, com certeza, foi um dos maiores papas da veterinária equina de todos os tempos. Influenciou diversas gerações de profissionais com a sua competência, sensibilidade, conhecimento prático e teórico. E, acima disso tudo, com o seu imenso amor, ou talvez seja melhor dizer paixão, pelos puros–sangues de corrida. Salvou a vida de vários deles, alguns dados como condenados, e outros desacreditados para voltar a competir. Um mestre na sua atividade. Unanimidade!
O grande veterinário as vezes se confundia com o apaixonado turfista. Taranto gostava de corridas, apreciava apostar e torcer como qualquer aficionado comum faz nas arquibancadas dos hipódromos. Tive o privilégio de compartilhar com ele momentos mágicos pelo mundo afora, e também, na simples rotina das cocheiras do prado carioca e dos centros de treinamento da região serrana. Taranto foi um gênio em sua profissão, mas sempre conciliou este fato com enorme humildade para tratar as pessoas mais simples do meio turfístico. Era exigente com os cavalariços, mas sempre os tratava bem e gostava de jogar conversa fora com eles.
Os assistentes de José Roberto Taranto babavam com os seus conselhos, dicas e improvisações nos momentos mais difíceis. Era de emocionar como aquele homem calvo, fluente nas palavras, didático nas explicações e preciso nas cirurgias, trazia consigo surpreendente simplicidade e generosidade no trato do dia a dia. Taranto deixa como legado profissionais de enorme respeito que começaram as suas carreiras ao seu lado. Posso citar Flávio Carneiro e o xará Flávio Geo, que tiveram o privilégio de trabalhar com o mestre. Em 1984, estive com ele no antigo Haras Mondesir, em Bagé, que havia sido negociado com o Haras Santa Ana do Rio Grande. Taranto foi um cicerone maravilhoso. Me acompanhou ao pavilhão dos garanhões, das matrizes, dos potros iniciantes, permitiu que presenciasse o parto de uma das éguas do haras. E ainda me mostrou o túmulo do extraordinário Waldmeister. Enfim, uma aula de conhecimento turfístico. E o melhor de tudo, três dias depois, a tordilha Anilité, montada por Adail Oliveira, ganhou o Grande Prêmio Brasil.
Imagino a tristeza da família Fragoso Pires. O desconsolo dos filhos, da família e de tantos fãs e admiradores. Depois da morte de sua mulher, Terezinha, doutor Taranto admitia que a sua vida tinha perdido o colorido. Refugiou– se na leitura, na companhia dos filhos. Mas, o coração estava triste. Foram momentos de glória, cuidando e assistindo a craques inesquecíveis tais como, Asola, Falcon Jet, Vida Mansa, Último Macho, Belle Valley, Bowling, Bat Masterson, entre tantos outros. Agora, resta apenas o silêncio. E, o consolo de ter deixado enorme legado para o turfe brasileiro.
por Paulo Gama