O AGENCIAMENTO DE MONTARIAS NO BRASIL
A história dos agentes de montaria no turfe brasileiro começou em 1997. Luiz Duarte transferiu–se para o turfe carioca, no ano anterior, contratado pelo Haras Anderson. Depois de vencer várias estatísticas em Cidade Jardim, o consagrado piloto, de temperamento tímido e retraído, tinha alguma dificuldade para pedir montarias aos treinadores da Gávea, devido ao pouco tempo de convivência. Duarte sentia–se constrangido. Tomou a iniciativa então, de pedir ao amigo de infância, que monitorasse o meu comportamento no prado, e na Tribuna Social do Hipódromo da Gávea, onde eu assistia as corridas.
Depois de uns quatro meses sendo espionado, sem que eu soubesse, como o referido indivíduo nada encontrou de errado na minha conduta, Luiz Duarte me convidou para ser o seu agente de montarias. A princípio achei estranho o convite. Eu tinha 15 anos de Jornal do Brasil. Sentia–me satisfeito em exercer a profissão de jornalista. Já tinha ouvido falar da função de agente nos Estados Unidos, África do Sul e Austrália. Mas não conhecia as peculiaridades de tal função. Luiz Duarte, uma pessoa inteligentíssima, e a frente do seu tempo, explicou com tanta simplicidade o que seria o meu serviço semanal, que topei o desafio de ser o precursor da profissão no Brasil.
No início foi uma barra! Os jóqueis me olhavam de lado, desconfiados. Na hora que saía o programa, aquele gigante, de quase 1.90m, no meio daquele monte de baixinhos, a pedir e a disputar as montarias, com deles. Mais parecia um duelo tipo Davi e Golias. Só que era apenas um Golias contra vários Davis. Até Jorge Ricardo, estranhou aquela novidade. De repente, o seu amigo inseparável, estava contra ele. Mas Ricardinho sempre foi um cara inteligente. Expliquei a ele que Duarte conhecia a função de agente e que ela era comum em vários países. Além disso, não faria o serviço de graça. Muito pelo contrário. Receberia uma comissão que ajudaria bastante na despesa. Meio ressabiado, ele aceitou os argumentos. E, alguns anos depois, o próprio campeão acabou por me contratar para ser o seu agente.
O agente de montarias é uma espécie de anjo da guarda do jóquei. Hoje em dia, trata–se de um profissional indispensável para os pilotos. Nos Estados Unidos, por exemplo, eles têm autonomia absoluta para decidir o que é melhor para os seus agenciados. Desde a chance de vitória dos cavalos nas provas, como também o aspecto político. Para quais proprietários é mais conveniente montar. Para que cocheiras dar preferência, devido a qualidade dos puros–sangues, e também o valor do investimento de determinados proprietários. O agente não escolhe os cavalos apenas pela chance de vitória. É claro que este deve ser o fator principal. Mas, quando ele percebe que das suas opções, nenhuma delas vai vencer o páreo, por que existe uma outra barbada, ele sempre opta por montar para aqueles onde ele prevê maior futuro para o seu agenciado. Aqui do Brasil, esta norma também já acontece.
A profissão de jóquei no Rio de Janeiro é por demais desgastante. Eles montam quatro reuniões semanais, de sábado até terça–feira. E nestes dias, ocupam parte da manhã, a exceção do domingo, com os treinos matinais. Nos dias de semana, quarta e quinta, eles viajam para a região serrana, onde trabalham nos centros de treinamento. O único dia para respirar, que seria a sexta–feira, já se faz preciso cuidar do peso. No dia seguinte, a maratona de corridas recomeça e não é possível descuidar da balança.
Por isso, o agente de montarias ocupa papel tão importante na vida profissional de um jóquei. É aquela pessoa que cuida exclusivamente das montarias. Isto representa um alívio para os pilotos. O jóquei sabe que enquanto ele acorda de madrugada para trabalhar os cavalos, faz sauna e corre para manter o peso, e dirige até a serra, ida e volta, para treinar, há um sujeito que acompanha as corridas, mantém contato com os treinadores, assiste aos filmes dos páreos, estuda a tabela de inscrições. E através de pesquisa detalhada localiza aonde podem aparecer os cavalos que vêm de boas corridas e colocações com ele. O agente é um vigilante incansável das corridas, dos cavalos e de todos os passos que podem ser dados em termos de inscrições semanais. Ele pensa 24 horas em todas as possibilidades e alternativas para a balança pender a favor do jóquei por ele agenciado.
A relação entre os agentes é amistosa, irreverente e simpática. Mas não existe espaço para camaradagem, facilidades e benefícios. A palavra–chave é competição. A rotatividade e a mudança de agentes por parte dos jóqueis são comuns e justificáveis. Existe um desgaste natural na convivência. O jóquei cobra bastante do agente. Ele quer boas montarias. Quer ganhar. E, consequentemente, o agente passa a ter direito também de exigir do seu jóquei. Ele precisa que ele tenha disciplina, foco e dedicação profissional. A parceria é amistosa, há cumplicidade e amizade. Mas, a exemplo do que acontece nas relações afetivas, a exigência é absurda de parte a parte. E tem que ser assim. Senão, a coisa não anda. Não funciona.
O agente é um secretário particular. Por vezes, psicólogo. Outras ocasiões, conselheiro. E o amigo de todas as horas. A relação é intensa no dia a dia. Porém, as decisões profissionais são sempre frias, objetivas e sem melindres. Para o cara ser vencedor não há lugar para frescura. Existem ótimos agentes de montaria da Gávea. E por isso, me orgulho de ter sido o pioneiro dessa classe profissional. Danilo Áglio, agente do líder Leandro Henrique, é sagaz e competitivo. Paulo Mileno, agente de Waldomiro Blandi, é político e bem relacionado.
Leandro Mancuso, possivelmente o futuro agente do professor Marcelo Cardoso, que volta a profissão, é atuante, frequentador das cocheiras e dos matinais. Uma águia, disfarçada de irreverente e brincalhão. Damasceno, agente de Muriel Machado, é confiante e querido por todos os profissionais. Felipe, o Felp, agente de Wesley Cardoso, estudioso, papeleiro e com memória privilegiada. Antônio Henrique Morgado, agente de Vagner Borges, traz no seu nome a sagacidade e a tradição de sua família, maiores e melhores do que qualquer definição. César Mendes, agente de Bernardo Pinheiro, foi jóquei, redeador e durante muitos anos encilhador dos cavalos de Jorge Ricardo. Precisa dizer mais? E eu, o mais velho de todos, vou fazer 60 anos tendo que domar um Dragão, Valdinei Gil. Domar? Que nada. O negócio é soltar o Dragão, em cima de toda esta gente.
JOQUEADA DA SEMANA
Igor Ribeiro Mendes esteve impecável no dorso de Tiepollo, do Haras Mabruk, e treinamento de Luís Esteves. Aliás, depois de ter sido um aprendiz com resultados dos mais expressivos, tem recebido menos oportunidades depois de passar a jóquei. Vale registrar a entrevista do treinador a televisão, em que destacou Tiepollo num páreo em que tinha mais duas inscrições, Highlander Again e É do Verde.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Mais uma vez, o treinador Marcelo Borioni demonstrou toda sua competência na apresentação de Roi Plantagenet, do Stud Nunes de Miranda. Galope deslumbrante, forma atlética impecável e atropelada forte para conquistar o triunfo em boa direção de Valdinei Gil.