CONTAGEM REGRESSIVA PARA RECORDE MUNDIAL DE RICARDINHO
No momento em que escrevo esta crônica semanal, 8 horas da manhã desta terça–feira, Jorge Antônio Ricardo soma 12.835 vitórias em sua carreira. Porém, com ele, nunca se sabe. Pode ser que logo mais, este número aumente. E então, estas minhas mal traçadas linhas, terão caducado. Este incansável senhor, de 56 anos, vai sair de Buenos Aires, no início da tarde, e dirigir até a cidade de La Plata para montar apenas dois páreos no centenário prado local. Rico, bem sucedido e consagrado, o maior ídolo do turfe brasileiro se mantém interessado, 24 horas, na sua profissão. Acompanha o turfe argentino, o retrospecto dos páreos, as informações sobre a reprodução, o desenrolar das carreiras e, pela internet, as notícias dos hipódromos brasileiros. E também, tudo que acontece mundo afora, seja lá onde for. Em qualquer lugar em que hajam puros–sangues de corrida competindo.
Tradicionalmente, o esporte brasileiro não dá o devido valor aos seus ídolos. A exceção fica por conta de alguns nomes da mais absoluta excelência, tais como Pelé, no futebol, Oscar Schimdt, no basquete, e Ayrton Senna, no automobilismo. Sem exagero, Jorge Ricardo, em termos de currículo turfístico, está à altura deste pelotão de choque barra pesada. O turfe, entretanto, não possui no Brasil a popularidade destes esportes. Nos próximos dias, ou semanas, Ricardinho será recordista mundial. E este feito precisa ser bem avaliado pelos turfistas brasileiros. Ser o maior ganhador de páreos de todos os tempos não é para qualquer um. Ainda mais, tendo nascido num longínquo país da América do Sul, tão afastado dos maiores centros do mundo. O título de Ricardinho terá grande dimensão. Por isso merecerá a devida reverência. Precisa ser comemorado e valorizado. É motivo de orgulho nacional.
Ricardo ficou de igualar o recorde mundial aqui na Gávea e voltar para a Argentina para bater a marca por lá. Não sei bem como irá funcionar esta engrenagem meio maluca. Envolverá algumas coincidências de datas e de assinatura de compromissos de montaria. Torço para que tudo dê certo e que todos fiquem felizes, brasileiros e argentinos. Na realidade, Ricardinho está em busca de um resgate. O resgate de um recorde mundial que já foi dele. Por duas vezes conseguiu realizar o sonho de criança de se tornar o número um do mundo. Os caprichos do destino lhe colocaram no caminho um linfoma, superado por ele com sessões de quimioterapia. E depois de superar o câncer voltou ao topo. Mas não é tarefa fácil escrever o nome na história e o deixar para a posteridade. Uma queda na raia lhe causou 11 pequenas fraturas no cotovelo. Muitos pensaram; “Agora o homem desiste desta história de recorde”. Nada disso. Ricardo voltou a ser o líder mundial.
No norte da Califórnia, entretanto, havia um rival a sua altura. O canadense Russel Baze descobriu a existência do brasileiro. Fez correr nos hipódromos de Bay Meadows e Golden Gate. Voltou a ser o líder, mas em 2.016, pressionado pela família decidiu se aposentar. No início de 2.017, Ricardinho encostou outra vez em Baze. Estava próximo de passar por ele. Outra queda. Desta vez a fratura no fêmur. Mais uma vez pode–se ouvir o coro dos incrédulos e pessimistas, sempre de plantão. “Agora ele desiste. Está com quase 60 anos, independente financeiramente. Se sou eu vou viajar pelo mundo e gastar toda esta grana!”. Nada disso. Mais uma vez, este inesgotável personagem ressuscitou. Um gigante de apenas 1,61m de altura, mas com um coração do tamanho do mundo. Por tudo isso, peço a todos aqueles que amam este esporte maravilhoso que saiam de suas casas e lotem as tribunas do Hipódromo da Gávea para aplaudir este extraordinário campeão quando ele vier a Gávea com o objetivo de igualar o recorde de Baze.
Quem de vocês nunca acertou um cavalo montado por Jorge Ricardo? Quem de vocês não se recorda de ter fechado uma acumulada numa direção inesquecível dele? Quem de vocês treinadores nunca teve um pensionista ganhador montado por ele? Quem de vocês não teve um final de semana salvo por esta tocada incansável? Quem de vocês, fãs deste ou daquele outro jóquei, não ficou mais feliz por Ricardinho existir e o seu ídolo ter lhe derrotado nesta ou naquela oportunidade? Cada salva de palmas para este herói não pode lhe ser negada. Os nossos finais de semana, durante os últimos 40 anos, foram mais felizes por causa dele. Jorge Ricardo acordou cedo, sofreu, se machucou, caiu, se levantou, insistiu e foi em frente.
Que Deus ilumine os dirigentes do Jockey Club Brasileiro e eles tenham a lucidez de lhe dar a homenagem a altura do merecimento. Que vocês turfistas tenham a sensibilidade de adiar os seus compromissos para dar o seu carinho e a sua reverência a este campeão. Ele será o jóquei mais ganhador de todos os tempos. Na frente de várias lendas das rédeas dos quatro cantos do mundo. Cada um de nós teve a felicidade de acompanhar de perto este personagem lendário, desde de 1976, ainda menino, até 2.006, quando ele foi para o turfe argentino. Vimos de perto o florescer deste carioca do Leblon, e torcedor do Botafogo. Agora, Jorge Ricardo vai deixar de ser um simples mortal. Ele entrará para a história. Para eternidade, Ricardinho, o nosso Ricardinho, será reconhecido como o jóquei mais vitorioso de todos os tempos.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Escalibur, do Stud Dona Lúcia, reapareceu em perfeito estado atlético, aos cuidados de José Ferreira Reis, na melhor fase de sua carreira. Teve direção precisa de Leandro Henrique e obteve belo triunfo. Trata–se de um corredor bastante atrasado na enturmação e deve recuperar, aos poucos, o tempo perdido.
JOQUEADA DA SEMANA
Vagner Borges esteve impecável no dorso de Feliz Guapo, do Stud Verde, e treinamento de Luís Esteves. O bridão parece ter recuperado a sua melhor forma física e técnica, que já lhe proporcionou o tricampeonato da estatística. Se mantiver o foco será osso duro de roer para Leandro Henrique e Valdinei Gil.
NOVA GERAÇÃO
Deixaram excelente impressão os estreantes vitoriosos da nova safra de corredores de dois anos. No sábado, a potranca Bay Ovar, filha de Drosselmeyer e Stick Around, de propriedade do Stud Best Friends, deu demonstração das mais instigantes. Precoce e pronta de partida, a pensionista de Ildefonso Coelho Souza passeou na raia de grama carioca. Muito boa esta neta de Roi Normand. No domingo, Black Cello, do Stud B L, estreou precedido de enorme expectativa. Afinal, a sua mãe, Quanto Carina, já havia produzido nas gerações anteriores Baccelo, Carrocel Encantado, Dolemite, Escrittora e o atual líder, Flight Time. Sob a batuta do consagrado Venâncio Nahid, e dando nenhum trabalho a Victória Mota, Black Cello mostrou velocidade delirante, comportamento calmo, classe. Desde já é sério candidato a liderança da turma. Precocidade incomum!
