“És um senhor tão bonito. Quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo, tempo. Vou te fazer um pedido. Tempo, tempo, tempo, tempo”. Os versos, da música de Caetano Veloso, Oração do Tempo, vieram à minha cabeça, na semana passada, logo depois de entrar no caixa eletrônico, do Banco Itaú, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, por voltas das 8h da manhã para fazer um saque. No caixa ao lado estava um amigo de infância, do final da década de 70, um dos melhores surfistas brasileiros de todos os tempos. Ele não me reconheceu. Também, pudera. No período de nossa convivência fazíamos parte de tribos diferentes. Ele da tribo do mar. E, eu, da turma do futebol de praia. Mas, nos conhecíamos bem, por que o seu irmão jogava pelada comigo nos sábados à tarde, no Posto Seis.
As minhas mudanças físicas, uns 50 quilos a mais, e os cabelos pretos e longos, moda daquela época, foram substituídos por estes grisalhos de agora. Estes detalhes impediram que ele me reconhecesse. O surfista sofreu apenas uma mudança radical na aparência nos últimos 40 anos. Os cabelos loiros, lisos e parafinados deram lugar a uma calvície total, e bem assumida. O ar de senhor de responsabilidade não impediu que eu o identificasse. Sempre fui bom fisionomista. Ele, entretanto, me considerou apenas um anônimo, sem qualquer tipo de passagem pela sua vida. Fizemos as nossas retiradas de dinheiro e cada um seguiu o seu destino, sem trocar uma palavra. Eu caí na real. De imediato. Alguns filmes daquele período maravilhoso navegaram nos meus pensamentos. Revivi, por alguns segundos, a inexorável saudade, misturada com a saborosa nostalgia da paixão. O surfista, por não ter me reconhecido, foi embora sem passar por aquele momento inusitado e esquisito. Melhor para ele? Jamais saberemos.
“Compositor de destinos. Tambor de todos os ritmos. Tempo, tempo, tempo, tempo. Entro num acordo contigo. Tempo, tempo, tempo, tempo”. Os versos da segunda estrofe da mesma música de Caetano voltaram a minha mente ainda no mesmo dia. Peguei um táxi em direção ao Hipódromo da Gávea. O motorista ao ver a Revista “Turf Brasil” na minha mão perguntou por Jorge Ricardo e Juvenal Machado da Silva. Se mostrou surpreso com a idade de Ricardinho, 56 anos, e mais ainda com a aposentadoria de Juvenal. Disse ter sido fã de Antônio Ricardo, pai de Ricardo, e lembrou da vitória de Duraque, no Grande Prêmio Brasil. Com relação a Juvenal, recordou de todas as cinco vitórias do alagoano na maior prova do turfe nacional. “Nossa, faz tempo que eu não vou ao hipódromo. Nem vi o tempo passar”, sussurrou, ao volante intrigado. Tive vontade de dizer” Muito tempo mesmo, meu amigo”.
“Por seres tão inventivo. E pareceres contínuo. Tempo, tempo, tempo, tempo. És um dos deuses mais lindos. Tempo, tempo, tempo, tempo”. A terceira estrofe de Caetano em Oração ao Tempo, tem tudo a ver com o panorama do prado carioca visto do alto da Tribuna dos Profissionais, onde parei para carregar o meu celular. Era segunda–feira, dia de assinatura das montarias. A paisagem continua deslumbrante. O verde do Horto Florestal, as palmeiras do Jardim Botânico, o Corcovado como pano de fundo, à esquerda, e a Lagoa Rodrigo de Freitas, como se fosse moldura de um quadro, na reta oposta. Tudo igual há 46 anos atrás, quando pisei pela primeira vez nesse lugar. Entretanto, tanta coisa mudou afora o esplêndido visual.
“Que sejas ainda mais vivo. No som do meu estribilho. Tempo, tempo, tempo, tempo. Ouve bem o que te digo. Tempo, tempo, tempo, tempo. Peço–te prazer legítimo. Tempo, tempo, tempo, tempo. E o movimento preciso. Quando o tempo for propício. Tempo, tempo, tempo, tempo. De modo que o meu espírito. Ganhe um brilho definido. E eu espalhe benefícios. Tempo, tempo, tempo, tempo. O que usaremos para isso. Fica guardado em sigilo. Apenas contigo e comigo. Não serei e nem terás sido. Ainda assim acredito ser possível reunirmo–nos. Num outro nível de vínculo. Tempo, tempo, tempo, tempo. Portanto, peço–te aquilo. E te ofereço elogios. Nas rimas do meu estilo. Tempo, tempo, tempo, tempo”. E se encerra a música do poeta baiano. As tribunas lotadas de outrora estão vazias. Não existem mais vaias no caso de direções duvidosas. E nem os aplausos delirantes nas joqueadas. Algumas fardas tradicionais deram adeus as pistas. Algumas histórias que deveriam ter sido escritas, sobre fantásticos artistas das rédeas, sobrevivem apenas nas memórias de turfistas centenários como Fernando Botelho e Dagoberto Midosi.
O violino de Luís Rigoni ainda toca em algumas mentes privilegiadas. Os duelos do melhor freio de todos os tempos com os pilotos chilenos, entretanto, têm pouquíssima bibliografia. Os mais recentes, de Ricardinho e Juvenal, só respiram nos microfilmes dos antigos jornais. As noites de Longchamp com as socialites e os homens elegantes de fraque sucumbiram a era digital. Ninguém mais vê corrida de binóculo. Porém, enquanto o meu coração bater neste peito, ainda posso sentir o gosto gelado do mate batido da Social, servido pelo inesquecível Pelé. E, na boca ainda existe aquele paladar do Angu a baiana servido no último bar, da última tribuna popular. E melhor do que tudo isso. Posso reviver, nas conversas com os jovens turfistas, alguns momentos marcantes ao lado de amigos turfistas que se foram. E orar pela imaginação, ousadia, paixão e poesia dos dirigentes responsáveis pelos destinos do atual turfe no país. Que eles possam alimentar e perpetuar este maravilhoso esporte por este infinito e misterioso caminho do Tempo, tempo, tempo, tempo...
por Paulo Gama