ESSAS MULHERES INCRÍVEIS E MARAVILHOSAS...
A vitória de Middle Fast, de propriedade de Francisco de Paula Elias Filho, no Grande Prêmio Costa Ferraz, Grupo III, no último domingo, no Hipódromo da Gávea, comprovou a evidência de que o turfe brasileiro deixou de ser, de forma definitiva, um terreno estranho as mulheres. O fato da filha de Crimson Tide, criada pela Coudelaria Jéssica, ser treinada por uma mulher, Cristina Resende, e conduzida por uma menina, Victória Mota, é a prova cabal disso. E, por este motivo, o triunfo pode ser considerado histórico. Não foi uma vitória apenas das duas profissionais citadas. Foi uma vitória de todas as mulheres radicadas no turfe. Por longos anos, veterinárias, joquetas e treinadoras lutaram, feito heroínas, para serem aceitas e reconhecidas num esporte dominado pelos homens. Numa sociedade, em que as mulheres tomaram de assalto todos os postos e profissões, e conquistaram espaço e direito para trabalhar, estudar e comandar, seria ingenuidade supor que no turfe fosse diferente.
Sexo frágil que nada! Cristina Resende e Victória Mota colocaram uma pá de cal nesta conversa da carochinha. Este preconceito mesquinho e abominável de que as mulheres não podem competir e enfrentar os homens foi posto por terra. Este foi o verdadeiro motivo da euforia no pódio após o triunfo espetacular de Middle Fast. Não foi uma vitória qualquer. Não poderia ser um pódio qualquer. Taça de treinadora para mulher. Taça de jóquei para uma joqueta. Entrevista feita por uma mulher, a comentarista Juliana Dias, mãe de Victoria Mota, fruto do seu casamento com o ex–marido, o fantástico Alex Mota. Por tudo isso, no pódio a alegria era incontida e a euforia tinha gargalhadas exageradas. Era uma festa do sexo frágil. Um grito de triunfo sobre os opressores. Uma instintiva saudação aos novos tempos. Os cabelos esvoaçantes a saudar o sopro do vento libertador.
Em casa, pela televisão, pude curtir aquele momento de glória da minha querida agenciada, Victória Mota, com transmissão impecável do comentarista Celso Afonso. Comedido, discreto, lúcido e emotivo, ele teve a percepção exata do que estava acontecendo. Afonso me fez lembrar o famoso e saudoso apresentador J.Silvestre, que nos anos 70, sempre deu espaço nos seus programas de auditório para as mulheres. O idealizador de inesquecíveis programas como “Show Sem Limite” e “Esta é a sua vida”, entre outros, tinha um bordão que marcou época. “Essas Mulheres Incríveis e Maravilhosas!”. No domingo, dia 15 de outubro de 2.017, Cristina Resende e Victória Mota lavaram a alma de tantas mulheres turfistas. Mulheres, que no seu dia a dia, trabalham com afinco, num ambiente muitas vezes hostil, para comprovar o seu valor profissional. O seu gabarito. Esta vitória foi de todas.
CRISTINA RESENDE
A veterinária e treinadora, Cristina Resende, deixou de ser promessa há muito tempo. É uma realidade absoluta e indiscutível por seus resultados. As ótimas performances dos seus pensionistas falam por ela. Middle Fast, por exemplo, foi adquirida num claiming. Obteve incrível série de triunfos e agora faturou um Grupo III. Irmã da também treinadora Cláudia Cury e mãe dos adoráveis gêmeos, Pedro Antônio e Maria Eduarda, a Duda, ela divide as tarefas de casa e de todo o cuidado com os filhos, com a desgastante rotina profissional. Cristina, entretanto, possui um braço direito, o segundo–gerente, Francisco Célio, o popular Celinho. Detalhista, sensível e intuitiva, Cristina Resende dá show de competência na cocheira e evolui a cada semana no trabalho de raia. O sucesso de seu trabalho tem lhe permitido receber puros–sangues de melhor qualidade e, com certeza, esta equação vai lhe proporcionar, no futuro, melhores resultados ainda. Uma guerreira!
VICTÓRIA MOTA
Depois de 20 anos na função de agente de montarias e de ter tido o privilégio de trabalhar com Jorge Ricardo, Luiz Duarte, Marcelo Cardoso, Marcelo Almeida, Alex Mota, Tiago Josué Pereira, Dalto Duarte, Marcos Mazini, Acedenir Gulart, Rodrigo Lepre dos Santos, Muriel Silva Machado, Luciene Andrade, conheci Victória Mota. Inteligente, apaixonada pela profissão e bem humorada, em cada 10 fotos, ela está com um largo sorriso em 11, devo admitir ter um carinho para lá de especial por ela. Victória tem apenas dois defeitos, comuns a todos nós que um dia fomos jovens, é ingênua e ansiosa. Mas, as qualidades são tantas. As crianças adoram a Vic. E as pessoas de bom coração torcem por ela.
Com relação a intolerância dos machistas devo dizer que ela tira de letra. Na realidade quem sofre um pouco com isso somos nós, adultos, que acompanhamos o seu esforço diário, a abdicação dos divertimentos comuns aos jovens de sua idade, e a renúncia a tantos prazeres da vida social com o objetivo de estar bem para montar. Quando ouço falar em sorte, facilidades e outras baboseiras fico irritado. Victória, a exemplo do que acontece com Cristina Resende, tem doses cavalares de talento, coragem e confiança. Por isso, elas navegam tranquilas por mares tortuosos, indiferentes as críticas e imunes a intolerância.
Victória acorda as 4h30m da madrugada, trabalha na raia até as 9h, e depois enfrenta a rotina árdua da escola de aprendizes. Além disso tem de fazer musculação, curso de inglês, academia, assistir os filmes com o professor Marcelo Cardoso e ajudar nos afazeres da escolinha. Nas quartas–feiras pega a estrada e trabalha no centro de Treinamento do Haras Vale da Boa Esperança, em Itaipava. Nos finais de semana, enquanto a maioria dos jovens de sua idade estão no cinema, teatro, shoppings ou na praia, ela está a mais de 65km por hora em cima de cavalos que pesam meia tonelada. Por favor, não me falem em facilidade. A confiança dela no que faz é tanta que no último domingo, enquanto os jóqueis discutiam o perigo de montar numa raia, segundo eles, molhada e escorregadia, ela estava preocupada com o culote novo que tinha mandado fazer, com o seu nome bordado, para tirar foto com Middle Fast no clássico. “Seu Paulo, será que a lama vai sujar o meu culote novo? Tomara que ele fique bem bonito até a hora de tirar a foto da vitória com a égua da Cris”.
JOQUEADA DA SEMANA
No dorso de Special Envoy, do Stud Allstar Brasil, Vagner Borges desfilou toda a classe que o levou a vencer três estatísticas no turfe carioca. Acomodou o seu pilotado nas últimas posições, junto à cerca interna. Se aproximou aos poucos e fez excelente entrada de reta. Ao perceber que o seu conduzido já sobrava na reta final tratou de arranca–lo por fora, com sutileza e abrir caminho para um triunfo espetacular no tradicional Grande Prêmio Salgado Filho. Parabéns a Pedro Lima, como treinador, e também na condição de proprietário. Belo discurso ao receber o prêmio e ressaltar a importância de toda a sua equipe. Por sinal, das melhores.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
Cristina Resende deu show de confiança no preparo de Middle Fast. Aos poucos, ela percebeu a evolução de sua pensionista e foi galgando pulos mais altos. Depois da filha de Crimson Tide ficar enturmada, ela procurou opções no projeto de inscrições. Tentou com sucesso e boas colocações duas Provas Especiais. E finalmente, quando ela atingiu o auge, Cristina, sem medo de ser feliz a inscreveu numa prova de grupo III. O resultado foi fruto da sua ousadia e confiança no próprio taco. E, afinal, como dizia Heitor de Lima e Silva, o Bolonha, a história não fala dos covardes.
INTERBÚZIOS
Parabéns ao meu amigo Romney Aguiar pela dupla estreia dos seus potros no último domingo. Interfly, de sua criação, fez promissor segundo lugar na prova dominada por Mindful, do Haras São José da Serra. E no páreo seguinte, Fofão, com farda do Stud Art & Búzios, sociedade com o querido amigo Levi, deu um passeio na parceirada, de ponta a ponta. Muito bom o preparo do treinador Fabrício Borges.
