Saudosismo, necessariamente, se faz presente quando o assunto é a imprensa de turfe, no Rio de Janeiro. Nos dias de hoje, a mídia impressa praticamente abandonou a cobertura e a divulgação da atividade sobrevive da Internet, onde profissionais especializados e apaixonados pelo esporte procuram se dedicar para oferecer a melhor informação possível aos seus leitores.
No início dos anos 70, quando decidi pelo jornalismo, mais precisamente em novembro de 1972, fui convidado pelo Zoller (Paulo) Valentin para trabalhar no programa ilustrado “O Favorito”. O turfe fervilhava pelos principais jornais da cidade e nas rádios que cobriam o dia–a–dia das corridas. No Colégio Rezende, em Botafogo, onde estudei por muitos anos, conversei diversas vezes com Heitor de Lima e Silva, o Bolonha, que, sem dúvida alguma, foi um dos baluartes do rádio e marcou época. Com a sua Rio Turfe, também escreveu parte da história do Hipódromo da Gávea. Vou relembrar alguns dos grandes nomes da época em que o turfe, nas redações, era respeitado e tinha o seu espaço garantido.
Convivi com jornalistas e cronistas de verdade!
Quatro meses depois de começar a trabalhar no Favorito, fui para o Globo, indicado ao Paschoal Leão Davidovich pelo cronometrista Júlio de Aquino. Diversos profissionais madrugavam no hipódromo com seus “relógios” em punho, para acompanhar os exercícios dos principais corredores. Existia, então, apenas um centro de treinamento em atividade, o Vale da Boa Esperança, em Itaipava. Oscar Griffiths, na época escrevendo para a Última Hora; Fernando (do Globo), carinhosamente chamado de “Muquirana”; “seu” Heitor de Oliveira, o “Salomé”, de O Dia; Gil Moniz Vianna, que foi do Correio da Manhã e depois do Diário de Notícias, e o Mário Ramos. Cada um tinha seu “canto” na Tribuna de Profissionais, pois a rivalidade era grande.
Nas redações, jornalistas de primeira, verdadeiros professores.
Como citei, Paschoal Leão Davidovich era o editor de turfe do Globo, que, então, publicava uma página inteira, diariamente. Lá, encontrei Sérgio Tapajós Gonçalves, o melhor repórter que conheci em todos estes anos. Também no Globo, trabalhava Haroldo Barbosa, compositor, redator dos programas humorísticos de maior sucesso e um apaixonado pelas corridas. De sua genialidade nasceu “O Pangaré”, coluna que analisava o turfe de uma forma geral, com o humor que só um mestre como ele seria capaz de criar. Entre tantos jornalistas daquele tempo, vêem–me à memória, além do venerável José Briani Netto (falecido, aos 101, em março último), Pedro Allain, Daniel Fontoura (pai de Fernando, que mantém um esplêndido e atualizado arquivo), José Carlos Moraes (Soneca), Vespasiano Lírio da Luz (Vespa), Luiz Reis (Cabeleira), Celso Pina, Jorge Perri e Francisco Senatore. Existiam dois programas concorrentes do Favorito: Barbadas em Desfile, de Mário Braga, e o Pingo. Também nos anos 70, o Zig iniciou sua trajetória, que incluiu O Favorito, O Globo, O Dia e Barbadas em Desfile, além da TV Rio, no programa “Jockey Show”, com Wilson Nascimento. Em 1972, foi fundada a revista Jockey Club Brasileiro, da qual Zig foi editor de 1998 a 2000.
Nas rádios, outros tantos excelentes profissionais.
Quando comecei, o ícone Teophilo de Vasconcellos já não transmitia mais (aliás, para os saudosistas, vou indicar um site onde pode–se ouvir a tradicional abertura das transmissões da Rádio Jornal do Brasil, com a voz de Teophilo). Geraldo Luiz, Oscar Vareda e Ernani Pires Ferreira eram os donos dos microfones. Pouco tempo depois veio Fernando Valente Filho (que deu oportunidade a mim e ao Luiz Urubatan Carlos para iniciarmos na difícil arte). Nos comentários, Bolonha (cujo filho, anos depois, acabou aproveitado pelo JCB), Vespa e Sérgio Rezende se destacavam. O rádio era fundamental. Anoar de Salles se movimentava e o Vespa, com seu “Jantar das Barbadas”, nas noites das sextas–feiras, batia recordes de audiência. O endereço do site para ouvir o Teophilo é www.vozesbrasileiras.com.br/html/galeria.html.
Na década de 80, persistia o espaço e começaram novos profissionais.
Ainda ocupando espaço nas páginas dos jornais e nas rádios, o turfe seguia firme. No Jornal do Brasil, trabalhavam Paulo Gama, que começou em dezembro de 1982, e Marcos Ribas de Faria. No rádio, Natan Pacanowsky aparecia com suas indicações. Mais ou menos nesta fase, João Ferreira, o João Grandão, tentou transmitir turfe, mas logo depois foi para a reportagem de campo, no futebol, e é, hoje, em São Paulo, um dos fenômenos de audiência com seu programa na Rádio Record. Também entraram para a crônica João Carlos Faro e Daniel Kranzfeld.
E existiam, até, os fotógrafos exclusivos.
Voltando ao início da década de 70, quase me esqueci de citar que os dois principais jornais tinham fotógrafos que trabalhavam exclusivamente para as seções de turfe. José Brederodes era do Globo, enquanto José Camilo, carinhosamente chamado de “Jacaré”, trabalhava para o Jornal do Brasil. Naquele tempo, dava–se resultado de tudo: Rio, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Campos e até o movimento completo dos leilões realizados no tattersall da Gávea.
O espaço foi reduzido e poucos profissionais surgiram.
Com o aparecimento de novos esportes, a maioria contando com patrocínio forte, e o total distanciamento do Jockey Club Brasileiro das principais empresas jornalísticas, o espaço foi ficando cada vez mais reduzido. Muito pouca gente entrou no turfe e alguns, ainda estagiários, “encaminhados” para cobrir o esporte, caíram fora na primeira oportunidade. Caras novas, nos últimos anos, apenas André Cunha, Rafael Cavalcanti, que resiste bravamente no Jornal dos Sports, Karol Loureiro, repórter e fotógrafa, editora da revista Turf Brasil, e Fernando Lopes, dando os passos iniciais aqui no Raia Leve. Aliás, nos quatro casos, louve–se a persistência do Zig. Em pleno 2006, sabemos que resta muito pouco. O Jornal do Turfe, impresso, de circulação nacional, é ainda um dos poucos veículos, fora da Internet, onde se pode ler sobre o assunto.
Nem o GP Brasil consegue despertar o mesmo interesse.
O GP Brasil era uma espécie de Copa do Mundo para os jornalistas especializados. Com a vantagem de acontecer todos os anos. As “equipes” dos principais diários disputavam informações quase à tapa. Com o surgimento dos centros de treinamento, as estradas ficavam lotadas de carros de reportagens. Nos jornais, duas, três e até seis páginas, como aconteceu em O Globo, em 1990, quando Mário Marona era o editor de esportes. Lembro que, naquele ano, o saudoso Aníbal Philot, chefe da fotografia do Globo, mandou oito profissionais ao hipódromo. Tinha fotógrafo do Globo por todos os lados. Nos dias de hoje, poucos são os verdadeiros profissionais cobrindo a prova. Jornais que abandonaram o turfe, escalam repórteres que nunca entraram no Jockey e, no dia seguinte, um festival de barbaridades sai publicado, tipo “o conjunto” Ricardo/Much Better” e a “amazona” Josiane Gulart. É triste, mas é a pura realidade.
Para mudar a atual situação, só um trabalho muito sério e de longo prazo. Ainda assim, tamanho é o estrago, que não há certeza quanto à resposta.
O descaso do Jockey Club, nos últimos 20 anos, pelo menos, e como salientei acima, o interesse por novos esportes (com fortes patrocinadores), praticamente riscaram o turfe do mapa jornalístico. Voltar aos bons tempos, parece praticamente impossível. Mas, para que a situação melhore um pouco, é preciso eficiência e seriedade no trabalho de marketing e uma mudança radical do que hoje é praticado pela “Comunicação oficial do JCB”. Assim como no turfe, propriamente dito, na imprensa turfística também não existe renovação. Portanto, o último a sair, apague a luz...
por Marco Aurélio Ribeiro