Estes assuntos penetrômetro, medida da grama, conservação da raia, condições da pista e etc. volta e meia vêm à tona. Nestes longos anos de cronista devo ter escrito mais de 50 vezes sobre o tema. Num destes antigos textos até prometi não falar mais nisso por que desconfiei que já estava aborrecendo o leitor. E não existe nada pior do que ser chato e repetitivo. Entretanto, hoje, ao passar os olhos na sessão, “espaço do leitor”, me deparei com certa polêmica sobre o assunto. E o nosso site preza bastante os nossos leitores. Decidi abrir exceção e mais uma vez tocar neste complicado imbróglio que tira o sono dos queridos turfistas.
Durante longos anos, a pista de grama leve era disponibilizada para todos os puros–sangues, independente da sua categoria. Nos dias de chuva, com a raia pesada, era tirada a medida com o penetrômetro. Se a volta fechada medisse dentro do limite estabelecido a pista do programa era liberada. Ao contrário, se ultrapassasse esta fronteira, todos os páreos eram disputados na areia pesada. Na Repesagem, os saudosos Risadinha, e alguns anos depois, Isaltino, se limitavam a dizer: “Pista do programa para todos os páreos”. Ou então berravam. “Pista de areia, e grama só no clássico”. E tudo corria às mil maravilhas. Grama para todos ou areia para todos.
Há alguns anos atrás apareceu um gênio da lâmpada. Ele decidiu estabelecer critérios confusos, baseados no elitismo, ou seja, na qualidade dos cavalos. Tal mudança do regulamento tinha a evidente intenção de favorecer os tubarões. Me parece óbvio que aquele que possui maior poder aquisitivo, também é dono dos melhores animais. Se a medida da grama fosse tanto, a pista seria liberada só para os cavalos de tal idade ou tantas vitórias. Se o penetrômetro desse assim ou assado era raia de areia para a matungada. Ora, meus amigos, o preço do trato é igual para todos. Tem craque que come pouco e cavalo perdedor com muito apetite.
O primeiro passo para evitar suspeitas se existe dolo, ou não, na medição seria voltar à democracia. Direitos iguais para todos, independentemente da qualificação do corredor. Alguns aspectos criticados pelos amigos leitores fazem sentido. Outros, nem tanto. A reivindicação é correta com relação a cerca móvel exagerada. As vezes ela chega a ficar uns 12 metros da cerca interna. Por questão de prudência, para a zelar pela integridade física dos jóqueis e dos cavalos, a distância deveria ser reduzida.
No aspecto referente ao cuidado exagerado com a raia, me parecem errados os caros leitores. A segurança dos conjuntos formados por pilotos e corredores dependem da preservação da pista. Este cuidado, considerado excessivo por alguns, representa também a garantia da qualidade do próprio espetáculo. Além disso, deve ser levado em conta que em poucos hipódromos do planeta tantos páreos são disputados na grama. Em outros países existem os diferentes” meetings” em cada prado, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, com temporadas de alguns meses aqui e acolá. Aqui na Gávea temos a disponibilização da pista de grama durante quase todo o ano, com pequena parada de 30 dias no verão. Por isso, tecnicamente, existe um beco quase sem saída para resolver este autêntico problemão.
O tema é polêmico. E a possibilidade de encontrar a solução passa pela difícil iniciativa de desagradar a elite. Em sociedade, ser justo com todos se constitui numa tarefa bem árdua. Consequentemente, de muito difícil execução.
por Paulo Gama