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Junho | 2017

Luiz Felipe Brandão, um turfista eternamente campeão
14/06/2017 - 10h05min

Gerson Martins

Desde o último domingo, o corpo ainda dói, a voz está rouca e a cabeça a mil por hora. Luiz Felipe Brandão dos Santos, titular do Stud Eternamente Rio, viveu um turbilhão de emoções em curto espaço de tempo. Ele fez três inscrições em provas de grupo I para a semana do Grande Prêmio Brasil, pagou os três addeds, mas no fundo do coração admite que só esperava boas colocações. E aconteceram três triunfos de Grupo I. No sábado, desencorajou os amigos a apostar em Ekans, comprada por ele num leilão em baixas prestações. A égua foi lá e venceu o GP Roberto e Nelson Grimaldi Seabra, com rateio acima de 30 por 1. Veio o domingo. Jadir, potro de sua criação e propriedade, levou a melhor no GP Jockey Club Brasileiro. De alma lavada, ele esperava apenas um bom desempenho de Voador Magee no GP Brasil. Porém, sem ele saber, 11 de junho era o dia de sua redenção. O potro atropelou forte e dominou a craque Daffy Girl em cima do disco. Luiz Felipe reconhece que jamais passou por sua cabeça, nem nos melhores sonhos, viver tamanha emoção. Naquele segundo, o seu stud, fazia jus ao nome e entrava eternamente para a história.

“Ainda me sinto em transe. Jamais poderia imaginar vivenciar estes momentos. Vencer um páreo de cada vez tudo bem. Mas conquistar tantas provas importantes ao mesmo tempo. No mesmo final de semana. Da Ekans eu esperava uma boa corrida. Veio o triunfo. Jadir, que batizei com este nome em homenagem a um jogador do Flamengo do time tricampeão de 53, 54 e 55, reaparecia. É um potro diferenciado, teve de queimar as canelas e tinha pela frente rivais mais aguerridos. E Voador Magee tinha deixado a impressão de correr mais na raia pesada. O tempo firmou e no dia da corrida o sol saiu bem forte. Inacreditável tudo de bom que aconteceu. Ainda estou nas nuvens”, reconhece o proprietário.

A trajetória de Luiz Felipe Brandão dos Santos no turfe começou meio por acaso, em 1995. Ele conta que caminhava na pista de areia do hipódromo carioca para manter a forma e lhe chamou a atenção um tordilho, que ele nem mesmo lembra o nome, que caminhava com o cavalariço. Ele estava inscrito num leilão e tinha o número 11 perto da capa de cabeça. Supersticioso, Luiz Felipe decidiu compra–lo por achar que deveria ser um sinal. Adquiriu o cavalo bem barato, mas o tordilho, filho de Lunard, tinha muitos problemas e acabou morrendo uns dias depois. Em vez de desanimar, Luiz Felipe decidiu arrendar três éguas do Haras Futuroso, do Mato Grosso, Unit, Volantera e Janadini. Mais uma vez o destino interferiu a seu favor. Tentou colocar os animais com dois treinadores, mas ambos estavam com a cocheira lotada. Foi então que surgiu em sua vida a parceria com o treinador Luís Esteves. Atravessava em seu caminho, por mera coincidência, o treinador que o acompanharia nos próximos 22 anos.

“Deixei as éguas no centro de treinamento do Haras Verde e Preto, em Teresópolis. Todas elas me deram alegria de imediato com seis vitórias e um segundo lugar logo nas primeiras atuações”, conta empolgado.

O nome do stud, Eternamente Rio, foi batizado em circunstâncias bem curiosas. Luiz Felipe conta que até hoje mora num casarão antigo, no Cosme Velho, e que naquela época decidiu homenagear o Rio Carioca, que passa bem perto da sua residência. Entrou em contato com o Stud Book, mas os todos nomes sugeridos foram rejeitados por já terem registros. De carro, se dirigiu ao setor de registros sem ter ainda o nome definido. No estacionamento, escutou no veículo ao lado a música “Iolanda”, na voz de Pablo Milanês. Dos versos “Iolanda, eternamente Iolanda”, ele substitui o nome próprio Iolanda por Rio, e ficou batizada a sua coudelaria.

Algum tempo depois recebeu a telefonema do seu treinador, Luís Esteves, aos prantos. Havia sido demitido do Centro de Treinamento Verde e Preto. O jeito um pouco rude do profissional cearense havia lhe custado o emprego. Foi substituído por Márcio Gusso. “Eu adorava o Gilberto Solanês e sou seu amigo até hoje. Mas, sabe como é, sempre tive o hábito de ficar do lado mais fraco. Para ajudar o Esteves me mudei para o CT Dedo de Deus e comecei a comprar alguns cavalos baratos nos leilões Vapt Vupt. E aí a coisa engrenou de vez. Aconteceu então um fato curioso. Todos os meus melhores cavalos, até os ganhadores de provas de grupo, foram sempre adquiridos por preços módicos. Não me recordo de jamais ter comprado um cavalo em leilão por mais de R$ 2 mil de parcela”, exulta.

Na sequência vieram grandes corredores como Tudo Azul, Refuge Cove, Do Canadá, Pão com Ovo, Ace Blue, entre outros. Em 2.004, Luiz Felipe deixou de ser apenas proprietário de puros–sangues, e incentivado por Marcelo Paiva, do Haras Simpatia, decidiu arrendar parte do Haras Lorolú, e entrou no ramo da criação. “No começo me senti inseguro. Até falei para ele que não fazia muito sentido eu morar no Rio de Janeiro e ter esta atividade tão longe, em Bagé. Mas não pude deixar de me apaixonar pela criação e fui em frente. Na verdade, o que sempre me ajudou como proprietário e criador foi delegar poderes as pessoas que escolho, confiar nelas e não dar palpite. No treinamento, o Luís Esteves tem carta branca e no haras acontece o mesmo com o pessoal de lá”, explica.

A crise econômica do país, que atinge de forma direta a atividade turfística, pode ser contornada, segundo Luiz Felipe, com a incrementarão da Pedra Única. O titular do Stud Eternamente Rio lembra que desde 1988, nos tempos de Ulisses Guimarães, já existe legislação sobre o assunto.” Além disso, no próprio Ministério da Agricultura, há instrução normativa neste sentido. Mas os dirigentes dos clubes hípicos, por pequenas divergências e vaidades pessoais, ignoram este assunto. Na verdade, o que existe é a institucionalização da irregularidade. Os benefícios da Pedra Única nos movimentos de apostas é espécie de óbvio ululante. Com ela, os grandes apostadores poderiam jogar sem causar a queda absurda dos rateios”, argumenta.

A decisão de levar Voador Magee para disputar a Breeder’s Cup, em novembro, nos Estados Unidos, será tomada nos próximos dias. Luiz Felipe tem absoluta convicção que para o cavalo ter possibilidade de correr bem teria de viajar daqui a duas ou três semanas no máximo. Chegar próximo a corrida, segundo ele, é inviável para competir com chance. “Vamos decidir logo. Se ele for participar deste grande evento terá de viajar com seis meses de antecedência. Ficará com o Paulo Henrique Lobo, pessoa de quem gosto muito e profissional competente. Do contrário vamos seguir campanha por aqui mesmo”, afirma.

Torcedor fanático do Flamengo, Luiz Felipe Brandão dos Santos, afirma com absoluta convicção que apesar do seu grande amor pelo turfe, nada se compara a sua paixão pelo rubro–negro. O proprietário garante que se o seu clube conseguisse ter um desempenho parecido com o dos seus cavalos de corrida na semana do Grande Prêmio Brasil, ele não estaria vivo para dar uma entrevista “A minha paixão pelo Flamengo é insuperável. Meu pai me levava aos jogos desde os três anos. Tenho na memória os times, as escalações e os mínimos detalhes de vários jogos. Posso lhe assegurar que se o Flamengo fizesse nos gramados algo parecido com o que Ekans, Jadir e Voador Magee realizaram no Hipódromo da Gávea eu estaria no cemitério do Caju”, encerra.

por Paulo Gama



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