GOURMET, OUTRA VEZ JUVENAL, DE PONTA A PONTA
A estreia do castanho Gourmet, do Haras Ipiranga, no Hipódromo da Gávea, aconteceu numa prova clássica, em 3000 metros, montado por Gonçalino Feijó de Almeida. Na década de 80 eu era um “papeleiro” de bom nível, daqueles que devorava o retrospecto da Revista Jockey Club Brasileiro, e também a Turfe Cidade Jardim. Longe de ser um Luiz Alberto Rodrigues de Souza, o maior ponteiro do Rio de Janeiro, ou o inteligente e intuitivo, Jorge Delírio, celebridade dos rateios elevados. Mas, até que conseguia ser ganhador nas apostas. Havia um grande favorito na prova. Zirkel, pule de devolução, montado por Jorge Ricardo.
O retrospecto de Gourmet em Cidade Jardim, de onde ele vinha, trazia poucas atuações. Me chamou a atenção, entretanto, que a maior distância abordada até aquela ousada inscrição, tinha sido em 1.400 metros, na grama, num páreo de turma. Gourmet largou e tomou a ponta. Só foi ultrapassado pelo favorito nos 300 metros finais. Manteve a dupla e deixou claro que era um animal de futuro. Decidi acompanhar os seus passos. A corrida seguinte foi na preparatória para o Grande Prêmio Brasil, em Cidade Jardim. Montado por Juvenal Machado da Silva, ele voltou a tirar segundo, desta vez para Clackson, recordista da distância de 2.400 metros no país. Logo pensei: “Este cavalo melhora 100 metros a cada atuação que faz. Se seguir nesta toada não será derrotado no Grande Prêmio Brasil”.
Em 1982, o tempo era de vacas magras. Eu havia me casado em junho, a minha mulher estava grávida e os parceiros não acreditavam em jogar forte num páreo cheio e com a presença do melhor cavalo argentino da época, New Dandy, além do próprio Clackson. “Vou ter que jogar do meu”, pensei. Por coincidência, o páreo mais importante do Brasil naquele mês de agosto foi corrido no dia primeiro. O dia do meu aniversário. Antes de sair de casa para o hipódromo combinei com a minha mãe, Dona Lindalva, o menu do jantar para comemorar a data. “Faz pernil, arroz branco e salada de batata com maionese. Mas a marca da maionese tem que ser Gourmet”. Minha mãe não compreendeu bem esta recomendação. “Mas eu gosto de Hellmans, meu filho”. Para aquele detalhe não atrapalhar tudo expliquei. “Mãe liga a televisão que vai passar o páreo ao vivo. O nome do cavalo que vai pagar a despesa é Gourmet. Por isso tem que ser esta a maionese. Senão não vai regular”, esclareci.
O belo filho de Negrini, número 10 na manta, largou e acabou. New Dandy sofreu prejuízos terríveis no percurso, mas ainda finalizou em segundo. Clackson chegou em terceiro. Dei a maior tacada da minha vida. Na tribuna popular do hipódromo berrava. “Dá–lhe Juvenal! Dá–lhe Juvenal”. Quando cheguei em casa, na Rua Sá Ferreira, em Copacabana, dava para sentir o cheiro do pernil no corredor do edifício. Depois de ver o rateio de 10 por 1, na televisão, minha mãe ainda comprou um vinho tinto para acompanhar o jantar. E fez torta de banana para sobremesa. E na lata de lixo, na cozinha, puder ver o pote de maionese vazio, com o rótulo: “Gourmet”.
