GONCINHA, O DONO DA FESTA COM SUNSET
A tradicional farda da Fazenda Mondesir, branca, com braçadeiras azuis e boné encarnado, povoa a minha mente nos primeiros passos turfísticos. E no dorso dos seus puros–sangues estava sempre um dos melhores freios do turfe sul–americano de todos os tempos: Gonçalino Feijó de Almeida, o popular Goncinha. Em 1978, então com 20 anos, jamais poderia imaginar que alguns anos depois, formado em jornalismo, eu teria o privilégio de conviver com a família Peixoto de Castro. E participar de algumas jornadas inesquecíveis com Antônio Joaquim Peixoto de Castro, eternamente o “Totão”. Carismático, elegante e bem–humorado, Totão foi um dos turfistas mais apaixonados que conheci nestes meus 50 anos de turfe.
De volta a 1978, eu era apenas mais um admirador daquele jóquei esguio e magricela que defendia com tanta classe a Fazenda Mondesir. Goncinha desequilibrava as corridas. Dono de percurso impecável, frieza fora do comum e manejo perfeito do chicote, ele foi sem dúvida um dos membros mais ilustres da tradicional família Feijó. Naquela longínqua tarde, na milha internacional, no dorso de Triarco, da Fazenda Pedras Negras, ele deu o seu primeiro recado. Vitória de ponta a ponta. Mas a cereja do bolo estava guardada para 40 minutos depois. Na Tribuna Especial A, do Hipódromo da Gávea, estava o “seu” Gonzaga, torcedor anônimo e fanático do Goncinha. Os dois jamais chegaram a se conhecer pessoalmente. Empolgado com à vitória de Triarco anunciou. “Se acontecer do Goncinha ganhar também o Grande Prêmio Brasil com Sunset, eu vou tirar toda a minha roupa”.
A nossa galera mais jovem, que tratava Gonzaga como um “paizão”, começou a gritar em coro: “Tira! Tira! ”. Preocupado com o possível espetáculo dantesco, o seu filho, cujo nome não me recordo, passou o intervalo, entre o GP Presidente da República e o GP Brasil, tentando demover o pai de fazer o tão aguardado strip–tease. E Sunset venceu numa atropelada fantástica, com tempo suficiente para o Goncinha tocar o violino “a moda Rigoni”. Para quem não conhece a expressão, Goncinha repetia o gesto do maior freio de todos os tempos, Luiz Rigoni. Ele colocava o chicote na orelha do cavalo, em movimento contínuo, de cima para abaixo, sem bater. O objetivo era demonstrar a superioridade do seu conduzido e a falta de necessidade de ele apanhar para vencer.
O velho Gonzaga tentou ficar pelado para cumprir a promessa. De um lado, o seu filho segurava um dos braços. De outro, a nora fazia o mesmo com o outro. A euforia e a gritaria foram sem precedentes. Todo mundo tinha apostado em Sunset para torcer por aquela algazarra. A garotada gritava para ele tirar a roupa, enquanto os seus parentes o impediam. No final os ânimos serenaram e o gordo e bonachão Gonzaga ficou vestido. No ano seguinte, depois de fraturar o joelho, Sunset foi operado e reapareceu direto no Grande Prêmio Brasil e foi segundo colocado para Aporé. Sunset foi um craque extraordinário, entre tantos outros oriundos dos campos de criação da família Peixoto de Castro.
