ANILITÉ, UM TRIBUTO A ADAIL OLIVEIRA
Adail Oliveira nos deixou recentemente. O jóquei gaúcho foi um freio de excepcional qualidade. Os turfistas da década de 80, com certeza ainda têm em mente os seus feitos e as suas conquistas em alguns dos principais clássicos do calendário nacional. Com a farda do Haras Santa Ana do Rio Grande, do ex–presidente do Jockey Club Brasileiro, e grande criador, José Carlos Fragoso Pires, Adail nos proporcionou momentos eletrizantes nas pistas. Um deles, em particular, jamais esquecerei. A vitória da craque Anilité, no Grande Prêmio Brasil de 1984.
Eu dava então, os meus primeiros passos como jornalista de turfe. Era um período de ouro do esporte. A crônica turfística tinha grandes nomes. No “Jornal do Brasil”, onde eu havia sido contratado, em dezembro de 1982, brilhava Marcos Ribas de Faria, que assinava a coluna “Volta Fechada”, com o pseudônimo de Escorial. No “O Globo”, o chefe da equipe era Pascoal Leão Davidovich, amigo particular do “Big Boss”, do sistema Globo, o jornalista, Roberto Marinho. Pascoal liderava um timaço com João Carlos Faro, Sérgio Luís e Marco Aurélio Ribeiro. No jornal “O Dia”, quem dava as cartas era Pedro Alain. Na “Última Hora”, o catedrático, Gil Moniz Viana, dividia espaço Wilson do Nascimento, o “mosquito Elétrico”. Eram bons tempos.
O Haras Santa Ana do Rio Grande havia adquirido as terras da Fazenda Mondesir, em Bagé. E a geração da letra “A” tinha duas éguas extraordinárias, Anilité e Asola, além de outras muito boas como Anis e Anamour, entre outras. Nas provas da tríplice–coroa, Anilité ganhou a primeira e depois Asola prevaleceu. Juvenal Machado da Silva conduzia Asola, e Adail Oliveira, Anilité. Era jóqueis de estilos e regimes, bem diferentes. Juvenal, um bridão clássico, com rigor avassalador, perfeita noção de percurso e enorme carisma com o público, que o amava. Adail era um dos últimos protagonistas do regime de freio. Era frio, calculista e observador. Procurava compensar o fato de não possuir tanta energia com um percurso nota dez. Os seus conduzidos sempre tinham reservas para os páreos de finais complicados.
Anilité era treinada pelo mestre Alcides Morales. A tordilha formava par perfeito com Adail. Nos matinais da Gávea, eles entravam na raia para os treinos e por lá ficavam por longo tempo. O sistema de preparar fundistas do saudoso “seu” Alcides era bem peculiar. Tanto Anilité, como a companheira Asola, galopavam bastante durante a semana e, nos dias de treinos fortes, eles aconteciam em sistema de partidas de 800 metros. Nas corridas elas tinham muito fôlego devido aos galopes diários. Entretanto, sempre possuíam vivacidade e aceleração para sair de possíveis prejuízos durante o percurso.
No Grande Prêmio Brasil de 1984, Anilité foi corrida no fundo do lote por Adail Oliveira. Esta opção do piloto fez com que sua conduzida ficasse livre de uma das versões mais acidentadas da tradicional prova. Old Master, montado por Francisco Pereira Filho, causou graves prejuízos aos adversários na reta de chegada. Adail Oliveira se limitou a assistir de camarote toda a confusão. Nos 400 metros finais, ele arrancou Anilité por fora de todos os rivais. A craque passou sem luta para conquistar à vitória. Durante a semana, mais precisamente, na quinta–feira que antecedeu à corrida, eu havia visitado o campo de criação da Fazenda Mondesir, em Bagé, a convite de José Carlos Fragoso Pires. Passei o dia todo no haras com os veterinários José Roberto Taranto, Flávio Geo Siqueira e Jorge Morgado. Três dias depois, uma das joias mais valiosas daquelas terras maravilhosas, ganharia a maior prova do turfe nacional. Sorte de “foca”. Ou melhor, sorte de principiante. Inesquecível.
