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Fevereiro | 2017

Páreo Corrido, por Paulo Gama
28/02/2017 - 10h51min

EM 1995, UM DUELO ÉPICO NO LATINO–AMERICANO

Aqui neste espaço tenho o hábito de escrever sobre vitórias de cavalos brasileiros. Mas, nesta semana em que o tradicional Clássico Associação Latino– americana de Jockeys Clubs será disputado no Chile, lembrei de uma jornada infeliz do nosso craque Much Better, do Stud TNT, na versão da prova em 1995, no Club Hípico de Santiago. Naquela jornada, eu vivi a decepção da derrota de um dos melhores cavalos que tive o privilégio de ver atuar. Porém, de outro lado, valeu a pena presenciar a inesquecível reta final entre o vencedor, Patio de Naranjos, melhor cavalo chileno naquele momento, e o fantástico corredor argentino, El Sembrador, ganhador do GP Brasil do mesmo ano. El Sembrador aliás, já havia mostrado a sua força em 1994, em Buenos Aires, quando obteve o segundo lugar para o próprio Much Better no GP Carlos Pellegrini, a mais importante prova da América do Sul.

O Stud TNT e sua equipe haviam colecionado todos os páreos importantes da América do Sul com o espetacular Much Better no ano anterior. O saudoso treinador João Luiz Maciel, o jóquei Jorge Ricardo e o veterinário Flávio Geo viajaram confiantes para o Chile mais uma vez. Começava nova temporada e na verdade estávamos acostumados a colecionar glórias pela América do Sul afora. Mas aprendi bem rápido que perto da Cordilheira dos Andes o buraco é mais embaixo. O povo chileno é dos mais cultos e educados da América do Sul. Fomos muito bem tratados durante toda a nossa passagem em Santiago. Mas o seu nacionalismo e paixão são diretamente proporcionais aos seus bons costumes. A torcida deles pelos puros–sangues que defendem o país beira o fanatismo.

Nos treinos preparatórios para o grande evento me assustei com o ritmo forte dos aprontos finais dos concorrentes, inclusive uma égua peruana que baixou de 47s os 800 metros. Perguntei ao João Carlos Castilho por que exercícios eram tão fortes. O irmão do treinador Álvaro Castilho, que depois de cumprir atuação como jóquei aqui no Brasil, foi para Santiago e abraçou a carreira de treinador, me respondeu que lá era assim mesmo. “Aqui no Chile, o cavalo pode passar do ponto devido aos treinos fortes e até perder. Mas deixar de ganhar uma prova importante por que faltou preparo, para nós chilenos é algo inadmissível”, esclareceu orgulhoso.

Durante a semana conseguimos montaria num páreo comum para o Ricardinho. O objetivo era que ele fizesse o reconhecimento da pista antes do Latino. Não precisa nem dizer que ele foi lá e mandou para o barbante com o tal cavalo. O nosso otimismo aumentou. Porém achei estranho que ele tivesse recebido algumas vaias apesar de ter vencido o páreo com um cavalo bastante apostado. Mais uma vez, Castilhinho me esclareceu. “Eles estão preocupados com Much Better e o seu cartel. A demonstração de força do jóquei que vai pilota–lo os deixou ainda mais ressabiados”, explicou.

Much Better não correu absolutamente nada. Mas o argentino El Sembrador nunca foi de negar fogo. Da mesma forma que meses depois, derrotaria os melhores cavalos da América do Sul, em pleno Hipódromo da Gávea, no GP Brasil de R$ 1 milhão, apareceu feito um bólido na reta final. Mas os chilenos tinham o seu trunfo. Patio de Naranjos, exigido por Pedro Santos León, emparelhou e dominou o craque argentino perto do disco. Na arquibancada do Clube Hípico de Santiago pude viver um momento inesquecível em minha vida turfística. Durante os 200 metros finais, os chilenos berravam a plenos pulmões: “Chi Chi Le Le! Viva Chile! As almofadas de sentar, parecidas com aquelas que a gente usava nas arquibancadas duras do Maracanã, eram batidas em ritmo frenético nos bancos da tribuna. Era um barulho compassado e ensurdecedor afinado com os gritos. Patio De Naranjos encontrou forças vindas não sei de onde e finalizou aquele momento apoteótico. Que paixão! Que amor!

Eleito, do Stud Dois Irmãos, e Deep End, do Oitavo Stud/Haras Princesa do Sul, não terão pela frente apenas os concorrentes. E sim, um ambiente de alta competição, emoldurado pela Cordilheira Andina ao fundo, e um povo apaixonado que berra, torce e forma uma corrente apaixonada em prol da vitória de um dos corredores do seu país. Não posso falar sobre o Hipódromo da Valparaíso. Nunca estive lá. Mas do Chile e do seu povo só tenho elogios. Gente de primeira qualidade.

Estive lá no Chile também, em 1986, para cobrir o Mundial de Juniores de futebol pelo Jornal do Brasil. A Seleção Brasileira ficou no grupo de Concepción. Final do período de repressão. Assisti a cantora Isabel Parra, filha da poetiza Violeta Parra, fazer um show ao vivo depois de voltar do exílio. Mesma gritaria e batidas nos bancos do Teatro, depois de cada música com versos de amor à pátria executada. Os turfistas brasileiros que forem assistir o páreo, no próximo domingo, com certeza vão viver experiência fantástica e apaixonante num país para lá de especial. Isso tudo embalado pelos melhores vinhos da América do Sul.

PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO

Cristina Resende apresentou Ragu, do Stud Pateo do Colégio, em perfeito estado atlético. Num páreo de concorrentes de qualidade apenas razoável, o seu belíssimo galope de apresentação não deixou dúvida da futura vitória. No melhor momento de sua carreira, Cristina tem conquistado espaço precioso para as mulheres num esporte tão masculino feito o turfe. Parabéns!

JOQUEADA DA SEMANA

Muriel Silva Machado adquiriu confiança depois da vitória de Grupo I com Guaruman, do Haras Planície, na abertura da tríplice–coroa. Ele não é diferente de qualquer atleta. A confiança, depois das grandes conquistas, invade a pessoa em quantidade generosa. E assim, livre da pressão dos críticos, o atleta enfim mostra todo o seu potencial. Muriel tem sido outro piloto na raia carioca. No dorso de Garota da Barra, do Stud Blue Mountain, ele deu a melhor direção da semana. Tudo muito simples em páreo de característica pouco favorável à sua pilotada. Até os seus maiores críticos, aos poucos, vão passar a colocar as suas montarias nas acumuladas.



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