TRÍPLICES–COROAS COMEÇAM EM GRANDE ESTILO
O Hipódromo da Gávea viveu tarde de gala no último domingo. As disputas do Grande Prêmio Estado do Rio de Janeiro e do Grande Prêmio Henrique Possolo, etapas iniciais das duas tríplices–coroas, foram generosas em termos de qualidade e emoção. A Prova Especial African Boy e o Clássico Luiz Rigoni foram coadjuvantes de luxo de um valoroso espetáculo turfístico. A grama leve e bem cuidada pela equipe do prado carioca proporcionou marcas expressivas, inclusive, na véspera, o novo recorde dos 1.300 metros através de Cornélio, de Edson Alexandre e Luiz Alberto Daniellan. As imagens aéreas, com a introdução do drone, trouxe à tona a beleza do hipódromo, sem discussão um dos mais belos do mundo. Com relação a sua utilização na largada talvez seja melhor evitar. O apostador fica sem a noção exata de onde está o seu cavalo. A tomada é bem bonita e espetacular. Porém nem só de estética vive o turfista.
O Grande Prêmio Henrique Possolo apresentou o triunfo da sensacional potranca No Regrets. Mais uma apresentação de luxo deste fantástico treinador Venâncio Nahid, um dos profissionais mais gabaritados de todos os tempos, na arte de preparar cavalos de corrida. Neném herdou do pai, Alberto Nahid, aquela seriedade profissional e disciplina no dia a dia da lida. Mantém os seus subordinados sempre motivados e consegue dar a todos aquele sentido de equipe, indispensável quando se trabalha em grupo. Todos os funcionários de Venâncio Nahid sabem que são peças importantes na engrenagem. Por isso, eles trabalham com aquele sentimento de estar comprometido com a causa, para não prejudicar o resultado final dos demais componentes do time.
O que dizer deste jovem Wesley da Silva Cardoso? Talentoso, insinuante e a cada dia conquistando maior espaço no cenário turfístico nacional. O céu parece ser o limite para alguém que possui tanto talento e confiança com tão pouca idade. O segredo da profissão de jóquei é evoluir sempre. A cada dia. A cada semana. A cada minuto. Wesley faz exatamente isso a cada segundo. Toda semana ele surpreende os turfistas com a demonstração de mais uma faceta do seu enorme talento. Correu No Regrets com aquela confiança absoluta dos grandes jóqueis. E por isso, quando conseguiu o caminho livre para atropelar, a filha de Fluke esmagou sem dó ou piedade as adversárias. Um show de poderio locomotor, com todo o seu potencial extraído a fundo por um piloto em estado de graça.
GUARUMAN
A atropelada do castanho Guaruman, do Haras Planície, e criação do Stud La Nave Va, no GP Estado do Rio de Janeiro foi uma das mais belas dos últimos anos. Apresentado em forma atlética exuberante por este talentoso Jaime Moniz Barreto Aragão, o filho de Siphon pulverizou os seus rivais com ação avassaladora. Foi um episódio de ópera, a beleza dos seus poderosos galões na arrancada final. Muriel Silva Machado esteve inspirado no seu dorso e com certeza deu a melhor direção de sua breve carreira. Neste duelo de Davi contra Golias, devido a presença de poderosos adversários de fardas notórias, Guaruman lavou a alma de muita gente boa e que ama o turfe de paixão. Jaime Aragão deixou de ser promissor para se tornar realidade, Muriel deixou de ser o patinho feio. Renasceu das cinzas, depois de enfrentar críticas severas. Com a confiança que este tipo de vitórias dá, ele pode escrever novas páginas em sua carreira. São dois jovens profissionais. Têm tempo para brilhar.
PURO–SANGUE MELHOR APRESENTADO
No Regrets e Guaruman, treinados por Venâncio Nahid e Jaime Aragão, respectivamente, não podem entrar na disputa, tal como Evandro de Castro Lima, nos antigos desfiles de fantasias de carnaval. Por isso, a dupla J.A. Silva e Bruno Alexandre, responsáveis pelo recordista Cornélio levam o crédito de melhor apresentação da semana. Vale registrar que ainda venceram mais três provas com Charles Aznavour, Johnny Thunder e Céu de Brigadeiro, este último na Prova Especial Falcon Jet.
JOQUEADA DA SEMANA
Quando um piloto fica em estado de graça, ele consegue dar direções que até Deus duvida. É o caso de Josnir Ribeiro. No dorso de potro Jadir, do Stud Eternamente Rio, e preparo de Luís Esteves, Ribeiro deu aula de direção. Largou bem e se posicionou junto à cerca interna. Percebeu que o ritmo do páreo de potros estava muito forte e preferiu se fingir de morto, junto aos paus. Na entrada da reta aproximou o seu pilotado rapidamente. No momento em que surgiu uma passagem entre o ponteiro e o segundo colocado que desgarrou ligeiramente, ele colocou Jadir entre eles, numa joqueada espetacular, em tempo próximo ao recorde do percurso. Sensacional a direção. Nota máxima.
SAUDADES – Dois grandes amigos nos deixaram esta semana. Bertrand Kauffman exerceu durante muitos anos a função de Handicapeur do Jockey Club Brasileiro. E o fez com generosidade, capacidade e profundo conhecimento das coisas do turfe. Por muito tempo realizou proveitoso intercâmbio entre o nosso turfe e países vizinhos e coirmãos da atividade. Era uma pessoa gentil, educada e culta, que nunca se furtou a dividir seu enorme conhecimento com outras pessoas. Vou sentir saudade daquelas segundas–feiras em que entrava em sua sala, antes da elaboração dos programas da semana, para conversar sobre assuntos ligados à nossa grande paixão comum.
Adail Oliveira foi um grande jóquei e um grande indivíduo. Nos meus primeiros passos nos matinais da Gávea conversávamos sempre sobre os cavalos e as corridas. Tinha estilo próprio de conduzir os cavalos, sempre guardando reservas para os metros finais. Se estava no dorso de cavalos ligeiros, como o uruguaio Mogambo, dificilmente era superado nos instantes decisivos. Se o seu conduzido fosse atropelador, como Anilité, ganhadora do GP Brasil, numa direção antológica, ele vinha no momento certo. Ele sempre brincava comigo. “Eu não tenho a energia do Juvenal e nem do Ricardinho. Então. Preciso guardar uma sobra nos meus cavalos por que eles podem aparecer e complicar a minha vida”. Nos matinais da Gávea, com o dedo em riste apontando para o céu, era comum ele se aproximar e dizer; “Será que vai chover? ”. Adeus amigo.
