O doping, segundo alguns historiadores, chegou ao turfe na época dos romanos, que utilizavam medicamentos para aumentar a força e a resistência dos cavalos.
Ainda segundo os historiadores, o primeiro exame antidoping no turfe, com base científica, ocorreu no Jockey Club da Áustria, em 1910, realizado pelo russo Bukovski. Com o passar do tempo, os serviços de controle foram se modernizando e a tecnologia permitiu, cada vez mais, a detecção de substâncias capazes de alterar a performance dos animais.
A guerra foi declarada e, a cada possibilidade de uma substância ser detectada, novas fórmulas eram desenvolvidas para tentar burlar os exames. E isso de forma geral, não apenas no turfe. Mesmo nos dias de hoje, atletas fazem uso de esteróides e anabolizantes cada vez mais sofisticados.
No turfe, inúmeras discussões aconteceram, envolvendo limites de tolerância. Por um lado, veterinários tentando provar que, em quantidade mínima, uma medicação é incapaz de alterar o rendimento do PSI. Por outro, as entidades, cada vez mais rígidas, tentando inibir o uso destas substâncias. É um assunto interessante e polêmico, que vamos abordar, a seguir.
O doping químico é o mais comum no turfe e mesmo na maioria dos esportes.
O doping químico é realizado através de substâncias ilícitas (drogas). É o mais freqüente em nossos dias. Nele encontram–se os estimulantes psicomotores que têm a função de diminuir ou mascarar a sensação de fadiga, impedindo que o atleta alcance um estágio de esgotamento de suas reservas orgânicas. É o caso, por exemplo, das anfetaminas, da cocaína e até mesmo a cafeína se consumida em doses altas (acima de 12mg por ml de sangue). Fazem parte também do doping químico os medicamentos anestésicos e analgésicos, que têm funções como diminuição da dor, entre outras.
O chamado doping bioquímico tem outras finalidades.
O doping bioquímico compreende duas formas fundamentais, a auto–hemotransformação e os esteróides anabolizantes andrógenos (EAA). Em sua maioria, são derivados da testosterona e, principalmente, reforçam a massa muscular.
O doping no turfe.
As corridas de cavalos envolvem muito dinheiro. Além das apostas, geram grandes recursos financeiros e empregam direta e indiretamente milhares de pessoas, como jóqueis, treinadores, cavalariços, veterinários, ferradores e redeadores, entre tantas funções. Com as altas somas envolvidas, não deve surpreender a presença da droga ilegal e do doping no mundo da competição. As práticas do doping, no turfe, são bastante conhecidas e, basicamente, procuram reduzir a dor de alguma lesão existente ou conferir mais fôlego e explosão muscular ao animal.
A importância dos limites de tolerância.
Um assunto que já causou grande controvérsia no turfe diz respeito aos níveis de tolerância no resultado dos exames. Na dieta dos animais, composta muitas vezes de rações balanceadas, podem ser encontradas inúmeras substâncias, tais como semente de papoula, feno de alfafa, pele e suor humanos, chocolate e procaína. Durante algum tempo, na Gávea, a teobromina, encontrada no chocolate e em alguns tipos de ração, foi responsável pela punição de alguns treinadores.
Comprovadamente, em quantidades mínimas, substâncias são incapazes de alterar a performance.
Inúmeros estudos provaram cientificamente que, em quantidades pequenas, a grande maioria das substâncias não altera o desempenho dos cavalos de corridas. Mas, ainda assim, no turfe do Rio de Janeiro, foi instituída a tolerância zero.
E aconteceram as famosas “síndromes”, que prejudicaram diretamente a carreira de alguns profissionais.
Mais recentemente aconteceu a “síndrome do Banamine” e uma avalanche caiu sobre diversos treinadores. Pouco depois veio a “síndrome da Lidocaína” e mais um número grande de profissionais acabou punido. A “tolerância zero” foi revista e novos limites voltaram a ser admitidos.
A tecnologia contra o doping malicioso.
Os principais centros promotores de corrida, através dos anos, vêm se equipando com o que há de mais moderno na luta contra o doping. O que precisa ficar cada vez mais definido é o caso daqueles que tentam burlar a lei e as possíveis medicações acidentais, ou seja, provenientes de outros agentes da natureza. Aqueles que dopam, intencionalmente, têm que pagar pelo erro.
Nos Estados Unidos, a moda do “milk–shake”.
No turfe americano o controle antidoping é bem definido, embora cada estado tenha seu regulamento próprio. Mais recentemente, surgiu a moda do “milk–shake”, denominação dada a um coquetel de medicamentos que aumentava a capacidade dos corredores, principalmente diminuindo a fadiga muscular. A medicação era aplicada poucas horas antes da competição, segundo alguns artigos em publicações americanas. Como os laboratórios não conseguiam detectar este tipo de medicação, alguns dirigentes, desconfiados de certos treinadores, passaram a determinar uma espécie de quarentena para os cavalos inscritos pelo profissional investigado. Nas 24 horas que antecediam as provas, os animais ficavam alojados fora da cocheira do treinador, com vigilância permanente.
Uma guerra que jamais vai terminar.
Não apenas no turfe, como em todas as competições, a tentativa de vencer jamais vai terminar. Bilhões são gastos em todo o mundo na intenção de burlar os controles antidopings. Substâncias novas são pesquisadas de modo contínuo e os envolvidos vão continuar a administrá–las na busca de superar os adversários. Por dinheiro, pela busca da afirmação pessoal ou apenas para tentar seus 15 minutos de fama.
O rótulo da “medicação proibida” não absolve.
Principalmente no turfe, treinadores sentem verdadeira ojeriza pelo fato de terem seus nomes ligados a ocorrências de doping. Preferem, sempre, a menção de que foram suspensos por “medicação proibida”. Isso não existe, uma vez que, em todos os esportes do mundo, quando uma substância não permitida é encontrada no exame, o caso é tratado como doping. Duro é quando não foi, verdadeiramente, administrada nenhuma droga e algum agente externo atua. Mas, doping é doping e não tem jeito.
Um número exagerado de casos não é bom para o turfe.
As suspensões por doping têm sido freqüentes no turfe mundial e isso prejudica o desenvolvimento do esporte. No Brasil, a imagem do turfe para os leigos é muito ruim e aqueles que não conhecem de perto a atividade acham que tudo é armação e jogatina.
por Marco Aurélio Ribeiro