Completados seis meses de posse, a atual diretoria da Associação Brasileira de Criadores e Proprietários do Cavalo de Corrida busca uma serie de inovações, tendo no presidente Afonso Burlamaqui um exímio dirigente.
Ele recebeu a reportagem da TURF BRASIL e falou de diversos temas, em especial sobre uma melhor relação com o Ministério da Agricultura, sobre a parceria Codere/JCB/JCRG e também sobre a crise no turfe paulista. A entrevista, concedida em seu escritório no prédio do Centro do Jockey Club Brasileiro, foi realizada em 1° de outubro.
Quais as diferenças da diretoria anterior da ABCPCC e da atual?
As duas diretorias anteriores trabalharam bem e foram atrás de divulgar o cavalo brasileiro no exterior. Acredito até que boa parte das exportações brasileiras foi devido ao trabalho deles em divulgar nossos cavalos lá fora e essa pauta continua sendo importante na atual administração. Sendo que não podemos oferecer o que temos, tendo uma sensação de que uma serie de coisas aqui dentro precisam ser corrigidas! Queremos arrumar a casa primeiro, para ao invés de vender um cavalo em carreira, que eles venham comprar os potros em leilão, que já acontece hoje, mas em pequena escala. Para isso ocorrer, precisamos de uma serie de coisas, sendo a primeira a ABCPCC ter credibilidade; a tipagem sanguínea e identificação dos animais seguindo os padrões internacionais; pedigree e turfe recorde atualizados nos computadores para qualquer um poder consultar em qualquer local do mundo; são algumas das coisas que precisamos melhorar.
Como o senhor avalia os seis primeiros meses de trabalho na ABCPCC?
Nesse período, já conferimos importantes problemas, mas a maioria bem encaminhados. Você pode ver que acabo de assinar um contrato com um laboratório de altíssimo renome em São Paulo que fará os exames de DNA de todo o plantel brasileiro. Também já recebemos a aprovação do Ministério da Agricultura para implantarmos o chip a partir dessa geração 2009. Sendo que apesar da ABCPCC viver com as contas em dia, temos necessidades de caixa. Para isso, estamos criando receitas, mas ainda faltam verbas.
A relação com o Ministério da Agricultura melhorou?
Estamos mantendo uma relação com o Ministério da Agricultura que jamais existiu. Nos últimos meses, encaminhamos o pedido para que o Ministério financiassem a implantação do chip já na geração 2009, visto que eles analisaram e aprovaram o projeto. O Ministério condicionou o financiamento, desde que a ABCPCC esteja em dia com suas contas, principalmente no que se refere a débitos fiscais, pois ninguém tem acesso à verba pública se tiver problema de natureza fiscal. Sendo assim, solicitamos que eles fiscalizassem a ABCPCC, o que já estão fazendo.
Pode surgir alguma surpresa nessa fiscalização do Ministério?
Problema não tem nenhum, pois antes de chamarmos, já tínhamos feito uma verificação. Mesmo assim, é importante essa aproximação. Eles estão comprovando que a ABCPCC tem lisura em suas contas.
Até onde pode ir esse estreitamento com o Governo Federal?
O estreitamento das relações da ABCPCC e o Ministério da Agricultura é de extrema importância. Ontem (dia 30/09), o secretário e o representante do Ministério que cuidam da parte da criação e que se encontravam em nossa sede, em São Paulo, fizeram questão de me telefonar. Conversamos longamente. Os dois funcionários ministeriais apóiam integralmente tudo aquilo que for possível fazer pelo bem do turfe. E mais, uma das pessoas que lá estavam e que cuida da locação das verbas, nos ofereceu, inclusive, verbas para ABCPCC realizar os projetos que estão em mente. Acredito que a verba para o chip poderá ser liberada ainda em novembro. Eles também entendem que a fixação do homem no campo significa não atolar ainda mais as grandes cidades de pessoas sem qualificação, que acabam morando em favelas e viram serventes da construção civil, ao passo que no campo, essas pessoas têm casa, comida, vida saudável e melhores condições de criar seus filhos. Não tem porque não prestigiar isso, pois o Brasil é um país com enorme capacidade agropastoril.
Fale sobre o ‘Afonso’ presidente da ABCPCC e sócio do JCB?
Quero aproveitar essa entrevista e pedir que as pessoas entendam que sou presidente da ABCPCC e tenho total gozo das minhas funções, mas não deixo de ser sócio efetivo do Jockey Club Brasileiro. Sou neto de sócio fundador do clube; filho de sócio atuante; pai e avô de sócios. Ou seja, tenho um amor enorme pelo JCB, então peço perdão por não ter a frieza necessária ao analisar a administração do Jockey Club Brasileiro. Vejo algumas atitudes tomadas e sinto uma tristeza, mais ainda, uma sensação de impotência como nunca senti antes.
Como a ABCPCC analisa a parceria JCB, JCRG e Codere?
A parceria é extremamente maléfica para os criadores, proprietários e os clubes envolvidos. Já era ruim e ilegal no contrato inicial, mas foi suportado porque haviam benefícios laterais, como a não diminuição do Movimento Geral de Apostas e a obrigação de aumento de prêmios anual e que só foi dado os 20% uma única vez, por isso que a diretoria anterior da ABCPCC aceitou. Mas hoje, com o aditamento assinado pelo presidente Luis Eduardo da Costa Carvalho, o contrato é absolutamente inaceitável, pois não oferece nenhum tipo de vantagem ao Jockey Club Brasileiro, nem muito menos ao Jockey Club do Rio Grande do Sul. Esses R$ 3 milhões pagos pela Codere em 10 parcelas de R$ 300 mil, sai das apostas do próprio JCB, ou seja, estamos pagando para nós mesmos. Isso sem falar que o restante da dívida (mais R$ 3,6 milhões) jamais serão pagos, pois condiciona às máquinas. Existirá uma lei que regularizará o uso das máquinas em todo o território nacional, mas o JCB será apenas um na multidão de bingos espalhados pelo país, vendendo o mesmo produto, assim mesmo se conseguir se ajustar às condições da nova lei.
Quais as atitudes tomadas pela ABCPCC?
Fizemos uma reunião com Pio Guerra (Equidecultura nacional) e Luis Eduardo da Costa Carvalho (JCB), quando este apresentou gráficos e números sem pé nem cabeça, afirmando que o clube não havia tido perda no MGA. Então a ABCPCC pediu para fazer uma auditoria. Solicitamos a abertura dos caixas e de todos os documentos das lojas da Codere no Brasil; como o JCB fiscaliza o que entra e sai de cada loja Turff Bet & Sports Bar? E qual o percentual da verdadeira canibalização das apostas. Até o presente momento, os documentos não chegaram (o prazo são de 60 dias). Vamos cumprir a nossa palavra, desde que o JCB cumpra a dele. Se nos próximos dias os documentos não forem entregues, passado o prazo, solicitaremos ao Ministério da Agricultura o cancelamento do Simulcasting Internacional, que na verdade é apenas um apelido, pois na prática é um jogo bancado, proibido em todo o território nacional. Um bookmaker dissimulado.
Qual a maior perda do JCB nesse episódio?
O JCB levou 100 anos para conseguir o apostador e o clube entregou de mão beijada para a Codere. Isso vale uma fortuna em qualquer lugar e a Codere, para obter isso, deu um valor que fez com que a diretoria anterior assinasse um contrato sem nenhum tipo de garantia, apenas pelo “sinal” recebido.
O conforto e atendimento das Lojas Turff Bet & Sports Bar não atraíram apostadores (novos e antigos) que fugiram da má preservação de raia dos nosso hipódromos, bem como dos sucessivos erros das Comissões de Corrida no nosso país, entre outros delitos vistos nas corridas do Brasil? Ou seja, não seria um novo produto aceito no mercado?
Absoluta verdade, mas são os apostadores de sempre. Hoje (quinta–feira), nesse horário (13h), a loja aqui embaixo da Codere (Centro do Rio de Janeiro) está lotada nos dois pisos e não tem corrida em lugar algum do Brasil (Cristal só começa depois das 17h) e o pessoal está jogando nas corridas do exterior. Esse é o apostador cativo do Jockey. É claro que é inacreditável o que a Comissão de Corridas está fazendo. Parece ser de propósito. Fico surpreendido, pois o Sr. Milton Padial, presidente em exercicio, é um homem sério e capaz. Trabalhamos juntos por 4 anos, mas uma andorinha só não faz verão. Parece que os companheiros dele têm muito mais vontade de atender ao antigo presidente (Taunay) no sentido de tirar o atual presidente (Lecca), do que julgar adequadamente as corridas. Aliás, aproveito esse espaço para dizer que tudo o que o Dannemann escreveu no site Raia Leve (espaço do leitor de setembro) sobre a real situação do turfe é a absoluta verdade. Só não concordo de que o turfe está acabado e sem solução possível. O turfe é mais forte do que todas as pessoas que passaram pelo comando do Jockey. O turfe é mais forte do que todos nós. O turfe vai resistir e voltará a ser o que já foi.
O presidente Luis Eduardo da Costa Carvalho alega que a parceria com a Codere é importante e os R$ 100 mil que recebe mensalmente é fundamental para manter os 20% de aumento de prêmios. Isso ficou provado?
Esses números ainda não temos em mão de forma oficial, mas deveria ser muito mais repassado. É muito simples verificar isso, basta a Codere lançar na pedra do hipódromo internacional o Movimento de Apostas gerado no Brasil. Qualquer pessoa, razoavelmente preparada, sabe que isso é inalcançável. Os hipódromos promotores de corridas não fazem nenhum tipo de acerto com a Codere. O presidente Lecca sabe que o jogo é clandestino e ilegal, ele confirmou isso durante a reunião, tanto que falou estar cobrando da Codere a legalização dos jogos.
Mas a Codere transmite corridas na Argentina e no Uruguai, com lojas maiores e de mais visibilidade que as do Brasil. Como poderia ser ilegal?
Não posso falar da Argentina, nem do Uruguai, mas sim do Brasil. Há cerca de 90 dias, esteve no Rio de Janeiro Andrew Stronack, filho de Frank Stronack, dono da Magna, proprietária de 12 hipódromos nos EUA. Almoçamos juntos em meu camarote no Hipódromo da Gávea. Naquele dia, o simulcasting internacional era com Gulfstream, que pertence a família dele, e quando ele viu me perguntou como o JCB tinha as imagens de Gulfstream. Expliquei da Codere, da empresa Calientes no México, enfim, o que até então sabíamos. Ato contínuo, ele ligou imediatamente para o pai e também para o controller (que fica no Canadá) para saber o que estava havendo e foi informado que não havia nenhum contrato formal nem nada que autorizasse a utilização das imagens de Gulfstream ou de qualquer outro hipódromo deles aqui no Brasil. Eu ouvi e assisti a tudo isso, daí a concluir como é que essas imagens chegam aqui, seria leviandade da minha parte. O certo era o JCB ter exigido o contrato de autorização firmado e registrado da utilização das imagens exibidas pela Codere antes de assinar o contrato inicial. Ou seja, ter garantias do procedimento, até porque futuramente o Jockey estará seriamente envolvido em alguma questão jurídica, pois se beneficia dessas imagens.
O presidente do JCB soube desse fato?
Imediatamente, pois na hora que ocorreu, fui pessoalmente transmitir o que tinha acabado de ouvir. Mas o presidente Luis Eduardo da Costa Carvalho nada fez e, infelizmente, parece que o mesmo se encontra encantado com a Codere, apesar de eu não encontrar justificativa para isso. Ele aceita e faz qualquer coisa para manter essa parceria.
Afonso Burlamaqui é oposição no Rio de Janeiro?
Muita gente pensa que eu sou oposição. Eu fui oposição! Era contrário ao grupo do Lecca durante as eleições ocorridas ano passado. Sendo que não sou homem de manter oposição para o resto da vida e terminada a eleição (realizada em maio de 2008), quando Lecca ganhou legitimamente, fui até ele e me ofereci para ajudar com o pouco de conhecimento e de vivência no turfe. Vale lembrar que naquela época eu não era nem candidato da ABCPCC.
Era sócio, turfista, vice–presidente por 8 anos, presidente da Comissão de Corridas por 4, então queria colaborar com a nova administração. Participei de reuniões, dei subsídios, mas qualquer idéia fornecida por mim, o presidente anotava, sorria e nada fazia. Como, aliás, é o costume dele. Só deixei de ter essa participação como sócio do clube quando passei a ser o presidente da ABCPCC, que tem como uma das obrigações fiscalizar os clubes promotores de corrida.
Pretendemos fazer isso cada vez de forma mais profissional, tornando público tudo o que encontrar de errado nessa ou em qualquer outra gestão.
O Grupo de Revitalização do Turfe continua atuante? Uma das idéias do grupo, aprovada pelos então presentes, era a de que quando ocorresse uma grande festa em um hipódromo, o outro abriria mão de fazer a corrida, mas já no Grande Prêmio Brasil isso não ocorreu. Por quê?
Temos como coordenador do grupo o Flávio Obino Filho, que para mim é uma grata revelação, mas faço questão de estar presente em todas as reuniões. A união dos clubes é necessária e esse grupo tenta isso. Mas esse assunto sobre as grandes festas dos clubes é muito peculiar. O ideal, em nível de festa e aspecto social, seria que no dia de um Grande Prêmio Brasil, por exemplo, os demais não promovessem corridas. Sendo que no aspecto financeiro é muito discutido, pois as pessoas que vão assistir suas corridas normais, gostam de jogar forte nas provas nobres dos outros locais, bem como acompanhar o desenrolar dos páreos. Portanto, o Grupo de Revitalização participa desse assunto como mero assistente e ouvinte. Não temos o poder de mexer na política interna de cada clube, o que queremos é que os clubes se entendam para que não ocorra, por exemplo, rompimentos como a do Jockey Club de São Paulo com o Jockey Club do Paraná.
Como a ABCPCC enxerga a atual crise que passa o Jockey Club de São Paulo?
O Jockey Club de São Paulo está com problemas sérios e torcemos para que consigam resolver. Eles não podiam chegar ao ponto que chegaram. Tem algumas coisas que são inexplicáveis. Presumimos as razões, mas não sabemos o que realmente ocorre. Detectamos alguns pontos de evasão e informamos para eles. Mas é preciso que os clubes entendam que a nossa intenção é de ajudar. Não estamos ali para fazer política ou prejudicar os clubes, pois a experiência que nós trazemos faz com que possamos mostrar caminhos a serem seguidos. Se os dirigentes vão fazer ou não é outro assunto. Vale lembrar que não temos poder de polícia.
Por quê Campos e São Vicente não estão no sistema do Stud Book Brasileiro?
Campos e São Vicente são hipódromos que têm carta patente para funcionar, sendo que as regras utilizadas por eles nas carreiras não atendem os requisitos que a ABCPCC solicita, principalmente com relação a medicamentos utilizados, enturmação, entre outros. Isso não nos permite colocá–los dentro do nosso sistema.
Em março deste ano, a diretoria comandada por Antonio Carlos Coutinho Nogueira, então presidente da ABCPCC, convidou Charles Henri (vice–presidente da France Gallop) para palestrar sobre as mudanças no turfe francês. O senhor, há dias de assumir a presidência, participou ativamente da palestra. Será que o Brasil conseguirá ter um turfe de primeiro mundo como o da França?
Acompanhei todo o desenvolvimento do turfe francês, pois crio lá há 25 anos e vi de perto a metamorfose antes e depois do “Lagardére”, que foi quem criou a France Gallop, junto com Luis Romanee. Aquilo que foi transmitido na palestra já era do meu conhecimento, mas todo turfista sonha com isso. Acredito ser possível tornar o Brasil forte no turfe mundial, mas para isso precisávamos de outros dirigentes nos clubes, pois com os atuais é impossível. Ter um ‘Brasil–Gallop’ é um sonho que existe e tem fundamento. A Associação Paulista de Fomento ao Turfe, presidida por Renato Junqueira, está bastante adiantada nos estudos quanto a este assunto. Nos reunimos umas três vezes, mas eles sabem que têm nosso total apoio nesse projeto. Falta no Rio de Janeiro um grupo de apoio. Nesse mês de outubro, promoveremos um almoço com os grandes criadores cariocas para integrar esse projeto. Nomes como Antonio Joaquim Peixoto de Castro, Julio Bozano, Gonçalo Torrealba, são alguns dos que serão convidados para que conheçam e possam integrar esse projeto, pois separar o social do turfe é fundamental.
Para finalizar, o senhor teria mais algo a incrementar a essa entrevista?
Tenho sim. O presidente Lecca diz que quer transformar o JCB em empresa. Isso é uma falha lamentável, pois clube é clube, e empresa é empresa! Isso não significa dizer que o clube não possa ter uma administração profissional. Aliás, pode e deve, haja vista a France Gallop, que é toda profissional e o turfe francês não é empresa, sim uma associação, um clube. No JCB são quase 6 mil sócios, cada um com uma cota. Não existe uma empresa com 6 mil sócios com deveres e direitos iguais. Na prática, não funciona. O importante é profissionalizar a administração do clube e não transformá–lo em empresa.
por Karol Loureiro para a Revista Turf Brasil