A atividade turfística vive grave crise econômica. E tanto isso é verdade que vários hipódromos foram fechados, por motivos diferentes, nos últimos anos. Dos mais tradicionais, o primeiro a sair de cena foi o Serra Verde, em Minas Gerais. O clima era favorável, a pista de boa qualidade e a localização próxima de dois dos principais centros turfísticos do País: São Paulo e Rio de Janeiro. Posteriormente, foi à vez de o turfe nacional ficar sem o Hipódromo Linneo de Paula Machado, em Campos. Durante longos anos, o chamado Hipódromo dos Canaviais funcionou como espécie de centro de treinamento para os proprietários cariocas. Os puros–sangues de menor qualidade eram enviados para lá para minimizar prejuízos. Corriam por prêmios mais baixos, mas faturavam e ajudavam a sua subsistência.
Além deste aspecto econômico, o prado de Campos empregava enorme mão de obra especializada, entre jóqueis e treinadores, o que equilibrava as condições sociais e financeiras dos profissionais de turfe. Recentemente entrou em grave crise o turfe paranaense. E aí, não há como negar, que o maior inimigo foi à política. Em termos de qualidade na criação, de profissionais especializados, de imprensa ativa e competente, e de cavalos de ótimo padrão, o turfe paranaense nada devia aos principais centros. Pelo contrário, até hoje, apesar do fechamento do Hipódromo do Tarumã, algo inimaginável para qualquer turfista, os cavalos paranaenses correm e ganham de forma rotineira no Rio e em São Paulo. Na capital paulista muito mais devido a maior proximidade, e, consequentemente, facilidade no translado.
O turfe paulista agora é a bola da vez. Prêmios atrasados, funcionários sem receber e situação financeira caótica. No Brasil existe algo que cheira e ecoa como incompetência no ar. Não é possível se produzir puros–sangues de tanta qualidade nos melhores campos de criação do país e estar à beira da falência. Não é possível revelar tantos profissionais de alto gabarito, jóqueis e treinadores, que fazem sucesso mundo afora e os nossos hipódromos estarem vazios como cidades fantasmas do velho oeste americano. Os dirigentes do turfe perderam o rumo da história. Precisam ser humildes e pedir ajuda a alguém. Talvez ao próprio Ministério da Agricultura, órgão responsável por administrar e fomentar a atividade. Se São Paulo não está bem das pernas, logo os seus problemas vão ecoar aqui no Rio de Janeiro.
Em primeiro lugar será preciso definir melhor as prioridades. Uma atividade turfística só sobrevive com ídolos. Os nossos foram todos embora para outros países. São os ídolos que colocam o esporte na mídia e atraem gente jovem para as arenas, estádios e pistas esportivas. Bom relacionamento com os meios de comunicação é fundamental. No turfe toda promoção, escrita, falada ou televisada só acontece em âmbito interno, nas próprias televisões dos hipódromos. Cultura inútil. Todo turfista sabe o dia do Grande Prêmio São Paulo ou do Grande Prêmio Brasil. Além desta melhoria na divulgação dos principais eventos faz–se necessário rejuvenescer a assistência nos hipódromos brasileiros. Na Gávea, por exemplo, o adolescente que entra nas dependências da tribuna social do hipódromo tem a sensação de estar visitando um asilo. Olha em volta e só avista gente de cabelos brancos.
A complexidade das apostas também não ajuda em nada. Enquanto os Jockeys Clubs só vendiam apostas de vencedor, placê e duplas chaveadas conseguiram se sustentar com facilidade e ainda construir enorme patrimônio. Outra visão equivocada da atividade é a de que o apostador deve perder. Os Jockeys Clubs não são bookmakers. Estes sim precisam que os clientes percam na maioria das vezes. Mas não sempre senão eles quebram e não jogam mais. As entidades hípicas vivem da comissão que retiram das apostas. O restante é distribuído entre os ganhadores dos páreos. Por isso, quanto mais gente sente o prazer de acertar, maior é o movimento de apostas e mais atrativo se transforma o jogo para novos interessados.
Deve ficar claro para o dirigente turfista que as despesas dos proprietários são descomunais. Ração, ferraduras, serragem remédios veterinários, transporte, aluguel de boxes e mais uma infinidade de custos. Por isso, os prêmios precisam ser motivadores. Se o sujeito paga caro por um cavalo, mas em troca ele tiver prazer, alegria e for bem tratado, ele até aceita com bom humor o prejuízo financeiro de possuir cavalos de corrida. Mas se ele gasta rios de dinheiro só para se aborrecer e ficar irritado, mais cedo ou mais tarde procura outra ocupação.
Hipódromo com banheiros limpos, programação de provas bem organizada, sem mistura de turmas e páreos nunca chamados, dirigentes comprometidos com o espetáculo divulgado e eficientes no conhecimento e na gestão da atividade turfística, evitariam aborrecimento e irritação dos aficionados. Divulgação e parceria com os meios de comunicação deve ser o primeiro passo. Em seguida, melhoria nas dotações dos páreos para motivar os proprietários. Administração dos problemas com participação dos profissionais de turfe nas decisões. E por fim, as palavras chaves para um turfe melhor: Gestão e comprometimento.
por Paulo Gama